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João Adolfo Hansen

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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João Adolfo Hansen

O Povo, Fortaleza, Ceará, Brasil

24.3.2007

 


O anjo mais belo de todos

 

O Diabo na rua, no meio do redemoinho - e na literatura. O professor da Universidade de São Paulo, João Adolfo Hansen, discorre, em artigo, sobre as diversas manifestações diabólicas na literatura

 

 

O diabo não é, mas passa a existir como um sentido, um efeito ou um resto, quando dizemos o seu nome ou falamos dele: "Falou do diabo, aparece o rabo". No imaginário social, ele corresponde à força do desejo que, fazendo o homem querer ser querido do Outro, joga com as coisas, deslocando-as da ordem considerada normal e natural. A força é evidenciada já no seu nome, diábolon, do grego diá (através de) + ballein (lançar; jogar). No imaginário, sua figura monstruosa e suas artes malvadas materializam a negação e as ações "do contra" desse "através" que joga com as regras, subvertendo-as para deixar o proibido vir à tona. Quando vem, o diabo pode assumir todas as formas porque não é substancial. A multiplicidade das suas formas corresponde à multiplicidade dos efeitos da sua ação como jogo, fingimento, duplicidade, alteridade, separação, divisão, dispersão, dissolução e, principalmente, negação.

Como se sabe, as instituições sociais produzem as perversões com que confirmam a legitimidade de suas regras. Há ladrões de bancos para justificar a existência da polícia que garante a existência de banqueiros. Por isso mesmo, o diabo é sempre ambíguo, pois nunca se sabe realmente em que time joga quando aparece para os que desejam o proibido, propondo-lhes sutilmente: "por que não?". Sabemos que, se fazem o que desejam, erram e pecam, tornando-se casos exemplares do que a regra interdita. Os jesuítas do século XVI, por exemplo, usam os nomes de chefes tamoios que recusaram a dominação portuguesa e foram mortos por Mem de Sá para batizar o diabo como personagem de autos onde fala tupi. Na Bahia do século XVII, como lemos na poesia atribuída a Gregório de Matos e Guerra, o diabo vinha à noite, principalmente no São João, na forma de mulato com pés de bode e capa. Ele era invocado pelos que desejavam ser outros, caindo fora do que as instituições determinavam. O diabo era o "Cabra" e o "Cabrão", termos ainda usados como insultos racistas em que a incontinência sexual associada ao bode se mistura com outras marcas de animalidade pondo o tipo insultado para fora da cultura. Fazendo jus à sua falta de Bem, o diabo baiano do século XVII fazia frio, como o de Dante. Seu órgão gelado, em forma de saca-rolhas, era eroticamente manipulado nos cultos heréticos dos calundus. Suas amantes tornavam-se bruxas que não o beijavam na boca, mas numa parte outra, invertendo sacrilegamente os signos do amor cristão, enquanto o Cujo exalava gases que parodiavam o incenso das missas. Obviamente, o Santo Ofício da Inquisição queimava esses hereges para manter a pureza da fé.

Cristãmente, o diabo foi o anjo mais belo de todos, Lúcifer, o portador da luz, expulso do Céu porque se opôs a Deus. Desde a queda, compete com Ele, mas não é outra divindade, como se fosse um princípio do mal. Foi criado por Deus e sua relação com Ele tem tudo a ver com a dialética do escravo e seu senhor ou a do empregado e seu patrão. Sua definição cristã é negativa: falta de Bem. O mal não é essencial, ainda que a livre escolha dele conduza diretamente ao Inferno, como lemos em Dante Alighieri, que na Divina Comédia torna a metafísica poeticamente sensível. Pondo Lúcifer no último canto do Inferno, no fundo do abismo cavado por sua queda, Dante fala dos três ventos frios produzidos por seus três pares de asas de morcego que congelam um dos rios do Inferno, o Cocito. Deus é Luz, fogo do Amor; o Inferno é treva e gelo. Lúcifer tem três caras que sofrem horrivelmente numa única cabeça. O vermelho do ódio da cara do meio, o branco amarelado da impotência da cara da direita, o negro da ignorância da cara da esquerda negam o Amor, a Potência e a Sabedoria das Três Pessoas da Trindade, enquanto seus seis olhos choram sem parar, molhando as três barbichas, por onde escorre a baba sanguinolenta das três bocas que trituram almas de traidores, Judas, Bruto e Cássio (Inf. XXXIV).

A inteligência angélica do diabo cristão faz dele um dos maiores especialistas na alma humana. Como um macaco de Deus, cria fantasmagorias com que manipula o desejo de honrarias, riquezas, prazeres, poder e conhecimento para perder o homem. Deve ser evidente que toda crença pressupõe e produz a obediência com que as coisas são mantidas sob controle. Desde o início do Cristianismo, o motivo diabólico associa-se intimamente ao motivo do conhecimento. O conhecimento nunca é natural, pois sempre nasce de um ato de violência que, por descrer da ordem natural das coisas, não obedece às verdades sobre elas que são impostas e controladas pelas instituições sociais. O motivo antigo de Fausto, o homem que, por desejar o conhecimento total, descrê e não obedece à regra da sua religião, é figurado no grande texto do elizabetano Christopher Marlowe, The Tragical History of Dr. Faustus (1588/89). A peça transforma histórias medievais sobre um erudito alemão desesperado com o pouco saber e a falta de amor, Fausto, que assina um contrato com o Outro, comprometendo-se a entregar-lhe a alma em troca do que mais deseja. Após vinte anos, depois de ter gozado o poder que adquiriu, chega a hora da cobrança. Fausto pede perdão a Deus, mas assinou o pacto livremente e o diabo leva o que merece. Em outros textos de grande arte, o diabo muitas vezes assume a grandeza negativa do tipo que afirma a liberdade: "Non serviam", "Não servirei". É o caso de Satã, no Paraíso Perdido, de Milton. Quando é diabo espanhol e católico, aguarda o pecador com coisas terríveis, como o convidado de pedra que, na peça de Tirso de Molina, O Burlador de Sevilha, arrasta D. Juan Tenório para as profundas.

Nos séculos XVIII e XIX, grandes artistas românticos representaram o diabo como encarnação da ironia que inverte e nega a normalidade e a naturalidade das coisas. Mefistófeles, o diabo do Doutor Fausto, de Goethe, é um intelectual irônico e cético, representando o princípio romântico da insatisfação e negação das coisas finitas. O diabo também comparece em Dom Casmurro e num conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo, no qual os homens que abandonam Deus e entram para a igreja do diabo continuam os mesmos, pois, continuando a crer, demonstram que não sabem ser livres. O tema do conhecimento fáustico tratado por Marlowe e Goethe é retomado por Thomas Mann, no romance Doutor Fausto, em que a música de vanguarda do personagem Adrien Leverkühn tem como fundo o pacto demoníaco do povo alemão com o nazismo.

Podia-se perguntar o que vem a ser "vender a alma". Uma resposta é dada no extraordinário Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que retoma o tema de Fausto. No romance, Deus e o diabo são interpretações culturais do sertão feitas da perspectiva do narrador, o sertanejo Riobaldo: Deus é a Regra ou o princípio da ordem e do sentido das relações sociais sertanejas dominadas pela violência dos coronéis latifundiários. Quanto ao diabo, corresponde ao imaginário da força do poder. Riobaldo lembra que, no passado, prestou serviços aos coronéis como "raso jagunço atirador, cachorrando pelo sertão". Um dia quis ser outro e, levado pelo amor de um amigo e pelo desejo de poder, invocou o diabo. Ele não apareceu existente, mas Riobaldo entendeu a ausência justamente como presença e fez o pacto com ele. No sertão - que é o mundo - invocar o diabo significa desejar o imaginário da força. E, fazer o pacto com ele, apropriar-se da força do imaginário para virar outro com o Outro. É o que acontece com Riobaldo, que passa a ter idéias, fica falante e torna-se chefe do bando de jagunços, dominando o sertão. Mas o poder o deixa cego para o que é mais evidente e ele paga um preço alto por ter acreditado no diabo.

Os textos literários demonstram que pactos com o diabo preenchem uma falta de ser. Quem os faz passa, aparentemente, para o outro lado da regra. Mas continua efetivamente a seguir regras, entre elas a da economia que determina o preço, a mercadoria e a data da entrega. Em todos os casos, talvez fosse possível supor que, no teatro da vida humana, o diabo é só mais uma convenção dramática de Deus. Ele permite que o diabo faça das suas no palco até certo ponto, quando intervém, ou com a demissão sumária ou com a contratação definitiva dos atores, para novamente demonstrar-lhes sua lição sempre exemplarmente didática como diretor da peça: ninguém sai da instituição. Para o homem, não há vida fora da regra e, no simbólico, tudo é pacto.

 



João Adolfo Hansen é professor do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo - USP e estudioso do Diabo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa