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Weydson Barros Leal

weydson2@terra.com.br

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia: 


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal



Bio-bibliografia


WEYDSON BARROS LEAL nasceu na cidade do Recife, estado de Pernambuco, em 08/12/1963. Teve suas primeiras publicações de poemas em jornais do Recife (Diário da Manhã, Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio) a partir de 1983. Em 1985, publicou o livro de poemas ÁGUA E PEDRA, como separata da Revista Estudos Universitários, da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1988, recebeu o Prêmio Mauro Mota de Poesia, através do Concurso Literário Governo do Estado de Pernambuco, com o livro O AEDO, publicado pela Fundarpe/ Cepe. Em 1989 O AEDO recebeu o Prêmio Othon Bezerra de Melo, para livro de poesia, da Academia Pernambucana de Letras.

Em 1990, com o livro O ÓPIO E O SAL, ganhou pela 2a. vez o Concurso Literário Estado de Pernambuco, recebendo o Prêmio Mauro Mota e tendo o livro publicado pela Fundarpe/ Cepe. Em 1991, O ÓPIO E O SAL recebeu 1a. Menção Honrosa do Prêmio Jorge de Lima no Concurso Literário da União Brasileira de Escritores/ Rio de Janeiro. Em 1994 publicou, através de Massao Ohno Editor, em São Paulo, OS CÍRCULOS IMPRECISOS, uma coletânea que inclui dois novos livros (“Os Círculos Imprecisos” e “O Silêncio e o Labirinto”) e uma antologia de poemas dos dois livros anteriores. Ainda em maio de 1997 publicou, pela Editora Bagaço, de Pernambuco, o livro de poemas A MÚSICA DA LUZ, lançado na 1a. Feira Internacional do Livro de Pernambuco. Participou, em junho de 1997 - como poeta convidado, representando o Brasil - do VII Festival Internacional de Poesia em Medellin, na Colômbia, ao lado de 60 poetas de 38 países. Ainda em 1997, escreveu a Biografia do artista plástico Francisco Brennand, publicada através do Ministério da Cultura do Brasil, dentro do livro BRENNAND, ao lado de estudo crítico de Olívio Tavares de Araújo e fotos de Rômulo Fialdini, lançado em novembro deste ano na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Tem inúmeros poemas e ensaios sobre literatura e artes plásticas publicados em jornais, revistas e catálogos de exposições no Brasil.

Em 1999 lançou pela editora Topbooks, do Rio de Janeiro, o livro de poemas OS RITMOS DO FOGO, com apresentação de Ivan Junqueira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal




Paroano


 

Que o ano seja feito de segundos, vividos um a um,
e não apenas de meses, semanas ou dias riscados no calendário;
que os dias não sejam só expedientes de onde queremos fugir,
pois não se pode fugir do tempo.


Que não sejam somente números as vinte e quatro horas de cada [dia,
nem sua passagem a espera pelo sábado ou o domingo,
que apenas renovam esta verdade:
a natureza não sabe os nomes do tempo.


Que o ano seja feito de dúvidas e incertezas – que são as duas
metades da esperança –, pois a certeza esquece que a fé pode ser [maior
do que aquilo que está para acontecer, e a fé transforma os [homens,
que transformam as coisas e os dias.


Que o ano seja sempre melhor do que poderia ter sido nos nossos [desejos passados,
e que nossos votos de ano novo, ditos quase sem pensar nos [últimos
dias de dezembro, se transformem em verdade, e que não [esqueçamos
das pessoas a quem desejamos, naqueles dias, não sabemos mais o quê.


Que o ano seja para fazer o mundo feliz – seja lá o que isso for –,
mas também para plantar uma árvore, realizar um trabalho,
para que esse trabalho e essa árvore sejam maneiras de melhorar a [vida, pois é a vida –
seja lá o que isso for – o sentido de tudo.

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

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Sergio Godoy

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal



A SEMANA


Devemos amar quando crianças.
Quando verdadeiramente somos
O medo e a solidão, a alegria e o contentamento
Em coisas demasiado simples, como
Parcerias em jogos de cartas, doces, guardados,
A vizinhança em assentos públicos.

Na idade adulta não se deve amar.

Não sabe o amor a idade da razão
Onde em si não cabe com o instinto animalesco da pureza.
Dizemos amar num tempo em que há o punho da sobrevivência,
Mas o amor não distingue a fome, e uma cegueira
Não alimenta o mesmo corpo que o pão corrói.

Amamos por piedade, por chão,
Amamos em agradecimento,
Amamos por pena, por cura, por limites,
Por precisão.
Amamos em detrimento, em culpa e abnegação;
Dizemos amar por paixão
Quando amamos em número,
E ávidos permanecemos escutando moedas e dentes
Em cerimônias e jornais.

Amamos por paz e por guerra,
Amamos por ódio, por reclusão,
Por definhamento e morte.
Somos amantes do companheiro, que é vão
Entre a arte e a solidão dos que só amam.
Amamos o medo que não nos deixa ficar sós,
E amamos as pessoas absolutamente sós, sós por nós
E que não tenham mais ninguém
A não ser os frutos do nosso conhecimento.
Buscamos amar o futuro e o passado –
Perseguimos o passado – e ambos não existem
Se o amor é onde e quando eternamente: amamos a vida –
A morte é a solidão desenvolvida.

Amamos sempre em 3ª. Pessoa,
Quando nosso cego propósito é um aniquilamento
Em nome de todas as formas verbais –
Amamos quando somos cegos.
E as vidas, como os amores e as mortes –
O amor e a morte são próximos
Como o ódio e a paixão –
Sempre acompanhadas de ritos e cerimônias ridículas,
Seguem pelas ruas a distribuir flores
E cartões de seasons.
Amamos quando estamos infinitamente doentes
De uma morte que se recupera – o amor é queda
E levitação.

Sejamos mais novos,
Envelheçamos como quixotes que geram sonhos e ilusões –
O amor é isto.
E não saberemos viver outra vida sem morte
Como não se cai sem estar de pé,
Como não se vê o sol sem estar de pé,
Como não se deve dizer como
Acabam os poemas,
Como findam as penas,
Como findam o amor e a semana,
Ou como ambos se renovam.



Do livro “O Aedo” (Prêmio Mauro Mota – Fundarpe, 1988 e Prêmio Othon Bezerra de Melo – Academia Pernambucana de Letras, 1989).

 

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

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Regine Limaverde

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal



Noite


Docemente o tempo soava, ela contou como a noite que habitava seu corpo.

(as meninas choram quando perdem teorias, os meninos também criam teorias, as meninas e os meninos choram)

Não sei se agora é acordada a menina, pareceu mulher.

Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura, não voltará a vê-la o beijo que imaginei...

Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicidade — lhe falei.

(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)

É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.

É assim sua teoria.


Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
 

 

 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Inez Figueredo

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal



O Encontro


Sempre avistamos a porta. Guardamos os ossos das secretas vontades, mas a sombra cresce, a cada passo.

Impossível o esquecimento, a conversão das perdas então multiplicadas, cada uma voltada para o nada.

Um dia estaremos juntos: um ou outro sob a chama da morte, um ou outro sob as cinzas da vida, enlaçados.

Seguiremos. Buscamos o centro, a absoluta extremidade, onde há apenas um espelho e diante dele alguém que pergunta: “E Deus?”

Os olhos ecoarão no vazio e o espelho nos deixará a sós - afirmação do eterno - a responder: “É o vivido...”

E estaremos ali, um diante do outro - um morto e um vivo - sem sabermos, afinal, por quem...

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Adriana Zapparoli

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Weydson Barros Leal


 

Os frutos


No cesto da feira,
na vitrine gelada
de um copo de suco,
os frutos acendem
a alegria das cores.

Um fruto é o tempo
que não esqueceu o sabor.
É ainda o mesmo
o novo fruto, e sempre antiga
dessa polpa a tradução:
na superfície da língua,
no interior da pupila,
são úmidas carícias
dissolvidas em suco.

Outro sol ilumina
a eternidade de um fruto.
De dentro pra fora,
na textura da pele,
explodem memórias
de dulcíssimos nomes:
uva, carambola, morango, graviola,
pinha, laranja, melancia, mamão
- de nomes doces até
o tamarindo e o limão -,
lembram o açúcar, a face da infância,
o amargo e o doce
da revivida lembrança.
 

 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Roberto Gobatto

 

 

04.10.2006