Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Vicente Freitas

vincentfreitas@ig.com.br

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 


Poesia :


Ensaio, crítica, resenha, biografia & comentário: 


 Fortuna crítica:


Contos:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

Ticiano, Salomé

 

Franz Xavier Winterhalter, retrato de Roza Potocka

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Freitas


 

Bio-bibliografia:

 

 

VICENTE FREITAS Araújo – nasceu em Bela Cruz, Ceará. Filho de José Arimatéa Freitas e dona Maria Rios Araújo. Dedica-se à literatura e às artes plásticas, distinguindo-se como poeta, cronista e caricaturista. Depois de estudar em algumas escolas de sua cidade natal, mudou-se para Fortaleza, passando então a conviver com um grupo de escritores e poetas, freqüentadores da casa de Juvenal Galeno. É autor dos Livros: Almanaque poético de uma cidade do interior (1999); Nicodemos Araújouma antologia (2000); Bela Cruz biografia do município (2001); O carpinteiro das letras (2003). 

Participa de várias antologias, dentre as quais: Poetas brasileiros de hoje, Shogun Arte Editora, RJ  (1992); Valores literários do Brasil, RJ (GBC)  (1996);  Contos e poemas do Brasil, Litteris Editora,RJ(1997); Os melhores da literatura, Litteris Editora, RJ (1998);  Anuário de escritores, Litteris Editora, RJ  (1999);  Sonhos e expectativas, Scortecci Editora, SP (1999); Encontro com a palavra, Scortecci Editora, SP (2000); Seleção de poetas notívagos, Scortecci Editora, SP (2001); As melhores poesias do século, Litteris Editora, RJ (2002); Três milênios de poesia e prosa (2003). É verbete da Enciclopédia da literatura brasileira contemporânea, vols. VII e IX, de Reis de Souza; Dicionário biobibliográfico de escritores brasileiros contemporâneos (1998), de Adrião Neto; Novo dicionário biobibliográfico de escritores brasileiros 2000, Litteris Editora, RJ  (2001); Enciclopédia de literatura brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, MinC/ABL/Global Editora (2001). 

Em 1996, o Conselho Editorial da Revista Brasília, outorgou-lhe a Medalha do Mérito Cultural, pelos relevantes serviços prestados à cultura do país e por sua participação nas iniciativas literárias do Grupo Brasília de Comunicação. Em 1999, recebeu Medalha de Bronze, no Rio de Janeiro, por sua classificação em terceiro lugar, no II Festival Nacional Literário, promovido pela ABRACE. Foi um dos finalistas do prêmio nacional de poesia Menotti del Picchia – 2000 e do internacional Von Breysky – 2001.

 

Endereço:

Rua Padre Odécio, 620
62570-000 - Bela Cruz, Ceará 088-663.18.95

 

Nota do Editor:

Vicente também dá uns traços. Vejam:

Soares Feitosa, a partir desta foto, uns nove/dez anos:

Soares Feitosa, dez anos

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Freitas



Bela Cruz, 30 de maio de 2004


 

Meu prezadíssimo poeta Soares Feitosa

 

“...e fiquei pescando de mão,

dentro do açude, só.

Peguei muita chamichuga,

mas não peguei um corró”.

 

Acabei de ler agora meditadamente o seu Estudos & Catálogos – Mãos: quanto a estilo – uma linguagem inventiva, enfim, um esplêndido prefácio e não estou fazendo a menor concessão pra afirmar esplêndido. Estou com Mário de Andrade quando dizia que a arte é um elemento de vida e não de sobrevivência; que a beleza não é a finalidade mesma da arte, mas uma conseqüência. Quanto ao admirável Virgílio Maia, tenho lido alguns poemas de sua lavoura, inclusive ESPORAS DE PRATA, que chegou-me às mãos através de um encarte do Jornal “O Pão”; poema que se desenvolve dentro de uma temática regional, com elementos gráficos que ressaltam essa temática. E essa diferenciação gráfica tem um objetivo: aproximar a grafia – das marcas de ferrar gado. Pelo seu prefácio deu pra perceber que Recordel segue a mesma temática.

Corrós de Açude – Também sou velhote... Bom, meu primeiro contato com o nome de Ascendino data do início dos anos oitenta, na Casa de Juvenal Galeno. Naquela época havia lá – o clube dos poetas cearenses – agremiação de jovens sonhadores que se reuniam aos sábados. Foi ali que conheci diversos – com talento para as letras e que hoje figuram na lista dos principais autores da literatura cearense. Dentre os jovens idealistas que freqüentavam a Casa, recordo os amigos – Carneiro Portela, Márcio Catunda, Guaracy Rodrigues, Mário Gomes, Stênio Freitas, Aluísio Gurgel do Amaral Jr., Costa Sena...ali líamos poemas e discutíamos literatura. Também assistíamos conferências com escritores já maduros – Moreira Campos, Artur Eduardo Benevides, José Alcides Pinto, Alberto Santiago Galeno e outros... bom, numa dessas reuniões alguém apresentou um livro de Ascendino Leite. E agora estou vendo a simpatia por esse autor. Valdir Rocha diz: “Preciso conhecer mais coisas do Ascendino”. Acho que o interesse por autores desse porte [e é bom que isso aconteça] tem haver com o que chamamos “mito do sertão”. É que o homem sertanejo é o valente, o honrado, o melhor. Há um “mito do sertão”. Antigo. Está em Franklin Távora, Leota, Cascudo...está nos romances populares, cantados em quadra ou sextilha: “nem a grandeza da corte / de ministros conselheiros / tinha o gozo dos vaqueiros / nos dias de vaquejada”. Juvenal Galeno põe na boca de um vaqueiro: “Não tenho medo de nada, / sou Ferrabraz, sou Roldão / encourado em bom ginete / na frente do boiadão”.  Outros poetas e escritores aceitaram o conceito popular, entre todos, fulgura Euclides da Cunha, escrevendo Os sertões, livro de que todo brasileiro alfabetizado conhece de cor pelo menos uma frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Pois bem: Ascendino Leite nasceu a 21 de junho de 1915, em Conceição do Piancó, na Paraíba. Jornalista, crítico e ficcionista. Atuou como redator de assuntos parlamentares. Dirigiu e chefiou a redação de vários jornais, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Cronista de raros méritos, às vezes, polêmico. Há meio século testemunha a vida cultural brasileira. Publicou diversos livros, dentre os quais: Estética do modernismo, 1936;  A viúva branca, 1953; O salto mortal, 1958; O brasileiro, 1962; Um ano no outono, 1972;  O jogo das ilusões, 1980; Fragmentos, 1997. Na sua obra sobressai o que ele denomina “Jornal literário”.  

 

 

 

 

Joelhos & Mel – Veja, eu, às vezes, sou doido por mel, não tanto de engenho. De abelha. Não o mel dos apiários – centrifugado, filtrado, decantado. Não. Mel de abelha, produzido numa cabaça que chamamos cortiço [caixa em que as abelhas fabricam o mel e a cera] pendurada num galho, no quintal. Quando criança, em nossa casa, não faltava – com farinha; em suma, uma coisa deliciosa que também tem aquelas manhas. Minha mãe preparava, sabia o ponto. Não me preocupava, pois seguro estava que, pondo a minha mão na sua, os joelhos me suportariam. Sem ela eu me sentia definitivamente só. Até que um dia, ela, em vez de enlaçar-me os ombros, partiu. Quando viva; a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me amedrontava. Saudades de minha mãe...

 

Edições Cururu – E isto de ter um nome é fundamental – Carlos Drummond de Andrade ao publicar, em 1930, Alguma poesia – pôs o selo imaginário – Edições Pindorama. É importante que uma publicação tenha data, local e nome da editora, seja Pindorama, Pirineus, Pindaíba... Em 2000 publiquei alguns livros com o selo [imaginário] Kuarup Editora, em 2002 mudei para ABCZ Editora e em 2003 pra Tanoa.  Mas afinal o que vem a ser tanoa? Vem de tanoaria, que quer dizer oficina. E já que faço meus livros num banco de carpinteiro, usando martelo, alicate, estilete e pregos para furar papel – não lhe podia ter escolhido nome mais acertado. Tanoa. Tanoaria. Tanoeiro – o sapo-ferreiro, do Manuel. Entrando nessa genealogia, a Tanoa ainda é parenta das Edições Cururu. Bom, recebi presente seu por demais valioso, uma página no Jornal de Poesia [internet]. Muito obrigado. Mas muito obrigado mesmo! E já que lembrei do velho Bandeira, encerro com trecho do Itinerário de Pasárgada: “Sim, gosto de ser musicado, de ser traduzido e... de ser fotografado. Criancice? Deus me conserve as minhas criancices! Talvez neste gosto, como nos outros dois, o que há seja o desejo de me conhecer melhor, sair fora de mim para me olhar como puro objeto”.

Em tempo: ao receber Estudos & Catálogos – Mãos, fiquei pasmo e ao ler; como Mestre Ascendino: ferrado!

Gratíssimo. Vicente Freitas

 

P. S.: Estou lhe enviando “O Carpinteiro das Letras”, livro  feito na Tanoa Editora, no banco de carpinteiro. Pretendo publicá-lo numa editora de mesmo. Quem  sabe nas Edições Cururu...   


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal do Conto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Freitas

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

[Caderno Cultura, 16.3.2003]


Fábulas Perversas

 

O poeta e ficcionista Dimas Carvalho, nascido, crescido e vivido no Acaraú, lança mais um livro – Fábulas diversas, ou melhor, perversas. Um escritor que, na verdade, sabe apreender as coisas invisíveis e materializá-las em palavras, dentro das leis criativas e fora dos esquemas da lógica – e que pratica largamente o que podemos chamar de humor adstringente, restrito, antes rangente que negro, e que se situa a meio caminho entre o humano e o desumano.

Vamos entrar no túnel do tempo e visitar – Strawberry Hill, em 1750: Uma construção gótica, bizarra e anacrônica, surge ao nosso olhar surpreso e espantado. Quem é, pois, o ocupante deste estranho edifício? Um louco? Não – um homem de letras, rico e ocioso. Trata-se de Sir Horace Walpole, Conde de Oxford, que transformou sua vila num castelo feudal. Deve-se precisamente a um desses seus típicos sonhos o romance O Castelo de Otranto (1767), que povoará de pesadelos, de fantasmas e de pobres heroínas, a literatura popular e os filmes de horror da nossa era. Mas devem-se-lhe também páginas notabilíssimas, autênticas obras-primas em que o absurdo e o irracional, aprisionam e esmagam de terrores sombrios a nossa precária condição humana.

Mas o romance do “castelo” tem vida breve. Nasce com Walpole e morre com Clara Reeve. Só que o grão semeado pelo estravagante Walpole não tem tempo de estiolar. Ann Redcliffe, Gregory Lewis e o reverendo Maturin transplantam-no para um terreno muito mais fértil, onde produzirá flores duradouras – as do romance terrífico, ou, melhor,Vicente Freitas do “romance negro”.

No entanto, o monstro mais famoso da literatura, ainda hoje muito popular, é, indubitavelmente, o Frankenstein, de Mary Godwin, segunda mulher do poeta Shelley, amiga de Byron e Milton. Frankenstein foi publicado em 1818, obtendo imediatamente rumoroso sucesso junto do público e da crítica.

Marquês de Sade (1740-1814), autor de Justina e dos Cento e vinte dias de Sodoma e Gomorra, usa os instrumentos do romance negro, vivificados pelo racionalismo anti-religioso do século XVIII, levado às suas extremas conseqüências, e entra definitivamente na cultura moderna, concorrendo para formar o clima espiritual de que nascerão o  surrealismo e a literatura de hoje.

O primeiro homem de letras americano a fazer da literatura uma profissão é justamente Brockden Brown, importador do medievalesco através das obras de Ann Redcliffe, sendo ele, sem dúvida, o verdadeiro precursor direto de Edgar Poe, autor das “Histórias extraordinárias”, reconhecido hoje mundialmente, depois de ter se tornado pó do pó.

Vivendo em países distantes, provenientes de culturas diversas, o irlandês James Joice (1882-1941) e o tcheco Franz Kafka (1883-1924), apresentam, todavia, vários pontos em comum. Ambos despontam como ficcionistas durante a Primeira Guerra Mundial: Joice em 1914, com “Dublinenses”; Kafka em 1916, com a “Sentença”. Ambos abordam o tema do absurdo da condição humana, que desenvolveram ao longo de toda a sua carreira: Kafka criando parábolas sobre acontecimentos fantásticos no cotidiano de pessoas comuns; Joice retratando o mundo interior numa linguagem elaborada e rica, na qual se mesclam neologismos, expressões eruditas e palavrões. Ambos, enfim, revolucionaram o estilo narrativo, exercendo profunda influência sobre os ficcionistas que os sucederam.

A história da literatura tem mostrado que todo período literário tem suas características próprias, expressas por um conjunto de escritores que refletem em suas obras a concepção de literatura e a visão de mundo da época e da sociedade em que vivem.

Os “pós-modernos” estenderam a busca modernista às potencialidades da consciência humana e à distinção entre o indivíduo e o mundo objetivo por meio de uma subversão deliberada das convenções da ficção. Isso fez surgir uma vasta gama de técnicas, abrindo a ficção para a fantasia, a alegoria surrealista e o realismo fantástico.

Aqui no Brasil temos também ficcionistas que se aproximam desse quase “humor negro” – entre eles podemos destacar Moacyr Scliar e Dimas Carvalho – contistas que procuram apresentar os seus personagens em momentos de crise, como seres cuja essência implica a própria existência problemática. Os personagens revelam-se singulares pelo seu comportamento, num cotidiano de situações em que se misturam o real e o fantástico.

Desde sua estréia na ficção com “Itinerário do reino da barra”(1993), Dimas Carvalho estabiliza algumas características em seus contos. Uma delas é a preferência por personagens carentes de identificação – a maioria com nomes – mas, às vezes, sem traços que os individualize, assim eles representam tipos genéricos, modelos de ação e comportamento, em vez de personalidades, cuja intimidade e psicologia são vasculhadas pela pena do autor.

Entretanto, em toda sua obra, ele não divide as pessoas em boas e más. Há subdivisões no sistema, é claro, mas os reinos em que se dicotomiza não são esses. O fantástico é a grande qualidade ao longo de todos os seus contos, os personagens fictícios ou reais, as coisas, as paisagens, as idéias. É que ele tem sede jamais saciada de ternura humana, de comunicação. Daí essa fixação para certo inconsciente, na poesia das coisas e das pessoas, contraste à aspereza e a violência do mundo que o machuca, resposta sempre buscada à própria solidão.

Vamos conhecer um pouco seus personagens: Em Os gêmeos, p. 10 – Ageu e Agesilau; Anaxágoras e Anaxímenes; Araquém e Araribóia; Zózimo e Zuínglio; Zaratustra e Zoroastro, para terminar com Tomás ou Tomiah. Em O manuscrito, p. 17 – Epaminondas Pitágoras da Cunha e Eleutério. Em Odisséia de Bernardo Tracajá, p. 25 – Bernardo e Teógenes, o sobrinho. Em Branca de Neve e os sete gigantes, p. 64 – Alquitofel, Adamastor, Judicael e outros. Em Tango em Itapemba, p. 77 – D. Afonso, Lindaura, João Guilherme. Em Zé Tatu, p. 79 – velho Adonias, Severino, dona Zefinha. Em Quarentena, p. 85 – José da Silva (Zé-povinho), encontrado em todas as veredas, becos e ruas, em todas as páginas de todos os livros.

Outra característica do autor é sua preferência pelo insólito, quando narra, vez por outra, acontecimentos impossíveis – fatos, no mínimo, inusitados, mistura de normalidade e fantasia; do real e sobrenatural, maneira típica do realismo fantástico, num estilo de narrativa característico do pós-moderno.

Nascido a 28 de janeiro de 1964; aos doze anos começou a escrever poemas e contos, tendo publicado alguns no jornalzinho “Jovens que se comunicam”, mimeografado pelo Grêmio Cultural Irmã Consolação, de Acaraú, publicando também no “Semeador”, órgão da Pastoral da Juventude de Sobral, editado nas oficinas do Correio da semana. Em 1978 escreveu o conto “As minas de ferro”, um trabalho de classe, dirigido pelo professor de português  Mons. José Edson Magalhães.

Licenciado em letras e com mestrado em literatura brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, é professor de teoria da literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú, UVA, em Sobral. Publicou os seguintes livros: “Poemas”, 1988; “Frauta ruda agreste avena”, 1993; “Itinerário do Reino da Barra”, 1993; “Nicodemos Araújo, poeta e historiador” (em parceria) 1995; “Mínimo plural”, 1998; “Histórias de zoologia humana”, 2000; “Fábulas perversas”, 2003, “Marquipélago”, 2004.

Dimas Carvalho, nascido, crescido e vivido em berço de tantos intelectuais ilustres, traz mais uma vez a marca de sua vocação autêntica de ficcionista, no livro que ora apresentamos ao público, e que ele intitulou Fábulas perversas. São histórias freqüentemente fantásticas que deixam sempre o saldo crítico – em nível satírico – da dolorida condição humana.  

 

Clique aqui para o

Jornal do Conto:

Jornal do Conto

 

 

 

 

 

01/11/2006