Eram os olhos

1958,
numa madrugada de janeiro,
os céus asteriscaram o chão
com duas gotas e meia
(a outra meia-gota secou-se antes de cair).

O pai dela abriu a janela,
os céus –
e recuou um pouquinho.

O cachorro levantou-se e donde se levantou
não levantou
molhado algum, apenas a cinza seca
alevantou-se no ar,
e mais
não choveu.

[Por todo o ano,
o ano inteiro.]

Inicialmente todos os verdes,
em seguida os amarelos,
depois os ressecos e os restolhos;
finalmente, os mandacarus, as mucunãs e o espinho.
Mais o sol e a ventania.

Minha mãe mandou-lhes dizer:
“Separem,
separem o de-beber,
separem o de-comer”.

Acabara-se a última lata de gordura de porco.
Chegara a tosse ao pai.

E os olhos toldados:
[éramos bem jovens].

Era Ela.
[…]
Os olhos.

 

 

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Este, o 5º capítulo de Poética, um livro vivo, aberto, gratuito, participado e participativo, cheio de comentários que, a rigor — esta, a proposta —, os comentários, mais importantes que o texto comentado: abrir o debate, uma multivisão.

— Livro vivo, como assim?

— Porque em permanente movimento, espaço aberto a quem chegar, tão amplo como o espaço àqueles que aqui estão desde os séculos, todos em absoluta ordem alfabética. Seja bem-vindo!

POÉTICA: Capa, prefácio e índice poemas e poetas comentaristas

 

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Comentários:

ANA GUIMARAES: Belíssimo mesmo. Seu poema merece

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CELSO ALENCAR: Puxa, D. Soares, que feliz criação. A poesia permanece alimentando. Obrigado.

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CESAR VALE: Poeta Soares Feitosa:“Li e reli, nem sei quantas vezes, o seu poema “Eram os Olhos”. Deleitei-me a cada leitura e todas elas deixaram-me abismado com a construção desse singular poema sobre a ocorrência da seca de 1958. Não foi ela a mais cruel. Outras tantas ficaram para a história, relatadas e documentadas em livros por autores como Rodolfo Teófilo e Graciliano Ramos. Mas, não é de história que tratamos aqui, e sim, do belo poema “Eram os Olhos”, no qual você colocou poesia na seca, em gotas de água, dividiu uma gota ao meio, enfeitou o chão com asteriscos, criou um novo verbo “asteriscar”, para o nosso idioma. Não bastasse a vivacidade da imaginação que o animou, você não esqueceu a eterna figura do cachorro que acompanha o retirante, que o ajuda a alimentar-se do que consegue caçar para o seu dono. O cachorro levantou-se e donde se levantou não levantou. “Foram-se os verdes, os amarelos, os ressecos, os restolhos, os mandacarus, as mucunãs, os espinhos e mais o Sol e a ventania. Depois, um final euclidiano, o martírio secular. “Tudo o que lamento na vida, é que os poetas não deixam como herança o privilegiado cérebro. Deixam os escritos. Às vezes, nem isso.

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ELIANE PANTOJA VAIDYA: Soares Feitosa, querido amigo, achei tão lindo e hermético que não sei o que dizer. Quero ler seu romance. Grata por compartilhar. Li, reli. Entendi um horor de dor e desespero contidos. O poema e excepcional

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FLORIANO MARTINS: Celso de Alencar acertou ao chamar de uma "feliz criação", querido. Abraxas

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FRANCISCO JOSÉ CARNEIRO LINHARES: Embora ainda criança, lembro-me muito bem desse triste episódio climático de 1958. Ele que teve imensos reflexos na vida de todos os nordestinos, já que envolveu questões sociais, econômicas e demográficas. Isso, como é óbvio, com a afetação, em escala infinitamente maior, das populações mais pobres, principalmente dos rurículas do nordeste brasileiro. Muitos, que procuraram escapar da indigência, tiveram que migrar para a região sudeste brasileira, mesmo sabedores de que ali lhes caberia o exercício de funções subalternas, como ainda ocorre até os dias de hoje. Prezado Feitosa, seu poema retrata, em poucas e inspiradas palavras, esse triste e cruel episódio da história do nosso Brasil.

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HIDELBERTO BARBOSA FILHO: Eita! Poema dos bons, com o tutano da genuína poesia. E a verdade que vem dos espantos!!! Assino embaixo. Por trás dos asteriscos e banhado de estrelas.

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JOCA DA COSTA: Thomas Merton, filósofo e poeta, monge trapista com licença dos votos de silêncio, disse certa vez: “O poema é uma moldura para o silêncio” (The poem is a frame for silence).
Soares Feitosa, monge poético, sabe. E nos torna trapistas após seu poema, nós os que vestimos literal ou arquetipicamente os olhos dos silêncios postos entre uma e outra eloquência das imagens poéticas que se repetem e retinem o aço das retinas nordestinadas a tão dura sina.
O de-comer? A Angústia.
Pó e vento quente a cozer a gente. Só quando chover.
O de-beber? A Esperança.
Lonjuras de fundos de latas vazias, a coisa mais ruidosa que se pode ter por sertão.
Sem criação, a macambira, um ou outro punaré, uma e outra mucura e tanta assombração.
Os olhos e o sol são asteriscos. Como dizê-los?
Esses teus Olhos, memória e verdade, também são e foram meus, Feitosa, tão cheios d'água, a única possível de tempos em tempos.

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JOSÉ HENRIQUE CALASANS: Poema instigante, a cada leitura traz diferentes sensações.

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JULIO RODRIGUES CORREIA: Poema forte, impressionante e belo na forma e conteúdo. Parabéns, poeta.

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LUIS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS: Vixe! Saiam da frente! É o poeta Soares Feitosa de volta, inteiro, com sua linguagem de aldeia-universo, com suas alegorias de estilo inconfundível, com seu ritmo aparentemente caótico reverberando tu-tum-tu-tum, com seus temas abordados de tal forma que impregnam de humanidade as coisas e os organismos e, pasmem, conseguem humanizar até o humano. Tem sempre algo de sublime, de sublime reverência, na sutileza lírica de Soares Feitosa.

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LUIS AVELIMA: É um conto-poema dos melhores. Lê-lo e respirar fundo.

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LUIZ AUGUSTO FEITOZA FERRAZ: Bastião fala de outro bastião, só ares, que enxuga o sereno emocionado de nossos olhos, serenados com tanta beleza na tristeza. “Sai, menino, do sereno!”
Do sereno de Soares Feitosa eu não saio não!

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REMISSON ANICETO: Lindo! Lindo! Lindo, Soares! “[Por todo ano o ano inteiro], [Éramos bem jovens], Separe o de-comer/Separe o de-beber”. E o que teria pra comer e pra beber, que pudesse ser separado? Li, reli e essa meia gota d'água – esse pingo de ouro que secou antes de cair... ou foi desviado, pra onde? Pra outro sertão ainda mais sedento e faminto? E o cão sem vestígios no chão... As aliterações, as alegorias, tudo na tua poesia reverbera para além do tempo e do espaço, da imensidão espacial que ela ocupa em nossa mente. Lembrei da casa de barro, bambu e sapé, onde nasci lá em Minas, e da lata enferrujada com a banha de porco, a branca e endurecida banha que escondia uns poucos pedaços de carne dura, ou de ossos sujos de carne... Isso quando ainda havia carne e ainda havia ossos.
Parabéns, meu amigo!

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RODRIGO ROSAS FERNANDES: Bom-dia, Poeta, não tenha dúvida de que quero (este livro) e muito! O abraço! Lindo demais!

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VALDIR OLIVEIRA: Poema narrativo, com um quê de revelação e dois quês de ocultação. Bom exemplo de dizer só um pouco para deixar muito a se bisbilhotar e continuar a poetar.

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