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Gerardo Mello Mourão

Ipueiras, CE, 08/01/1917 - Rio de Janeiro, RJ, 09/03/2007

Titian, Venus with Organist and Cupid

Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Dossié GMM, 09/03/2007


Alguma notícia do autor:

 

Henry J. Hudson, Neaera Reading a Letter From Catallus Titian, Noli me tangere

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Gerardo Mello Mourão



Bio-Bibliografia


Gerardo Majella Mello Mourão, mais conhecido como Gerardo Mello Mourão foi um poeta, ficcionista, político, jornalista, tradutor, ensaísta e biógrafo brasileiro, considerado figura-chave tanto da epopeia nacional quanto de toda literatura lusófona.[1] Mello Mourão foi amplamente premiado, chegando a concorrer ao Prêmio Nobel de Literatura por indicação do Universidade do Estado de Nova York.

Suas obras mais famosas são Invenção do Mar, com a qual venceu o Prêmio Jabuti, e a trilogia Os Peãs. A respeito desta trilogia, Ezra Pound comentou: "Em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopeia da América. Creio que não consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões". Mourão foi elogiado e reconhecido por nomes como Jorge Luis Borges, Antonio Houaiss, Nélida Piñon, Alfredo Bosi, Dora Ferreira da Silva, Wilson Martins e Antonio Candido. Carlos Drummond de Andrade o definiu como “o grande poeta do Brasil”.

Sua vida particular foi marcada por inúmeras prisões, dado seu envolvimento com os movimentos ideológicos do século XX. Durante sua juventude, aderiu ao integralismo e, mais tarde, foi acusado de colaborar com o comunismo. Durante a ditadura de Getúlio Vargas, Mello Mourão foi preso 18 vezes. Já no período da Ditadura militar brasileira, foi levado à inquérito e torturado, dessa vez sob acusação de contribuição com os comunistas.

Em reconhecimento a sua obra poética, foi distinguido em 1993 com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará. Em 1996 laureado com a "Sereia de Ouro", do Sistema Verdes Mares. Foi eleito em 1997 "O Poeta do Século XX" pela Guilda Órfica, uma antiga irmandade secular de poetas.

Morreu em 2007, aos 90 anos, após passar meses internado na Casa de Saúde São José, em Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Tinha problemas respiratórios e cardíacos e faleceu devido a falência múltipla de órgãos. O velório decorreu na capela do próprio hospital, ocorrendo o enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Mourão teve 3 filhos, dentre eles o artista plástico Tunga, falecido em 2016 após uma batalha contra um câncer na garganta.

Obras do autor:

  • Poesia do homem só (Rio de Janeiro: Ariel Editora, 1938)
  • Mustafá Kemel (1938)
  • Do Destino do Espírito (1941)
  • Argentina (1942)
  • Cabo das Tormentas (Edic̜ões do Atril, 1950)
  • Três Pavanas (São Paulo: GRD, 1961)
  • O País dos Mourões (São Paulo: GRD, 1963)
  • Dossiê da destruição (São Paulo: GRD, 1966)
  • Frei e Chile num continente ocupado (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966)
  • Peripécia de Gerardo (São Paulo: Paz e Terra, 1972) [Prêmio Mário de Andrade de 1972]
  • Astro de Apolo (São Paulo: GRD, 1977)
  • O Canto de Amor e Morte do Porta-estandarte Cristóvão Rilke [tradução] (1977)
  • Pierro della Francesca ou as Vizinhas Chilenas: Contos (São Paulo: GRD, 1979)
  • Os Peãs (Rio de Janeiro: Record, 1982)
  • A invenção do saber (São Paulo: Paz e Terra, 1983)
  • Valete de Espadas (Rio de Janeiro: Guanabara, 1986)
  • O Poema, de Parmênides[tradução] (in Caderno Lilás, Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro: Caderno Rio-Arte. Ano 2, nr. 5, 1986)
  • Suzana-3 - Elegia e inventário (São Paulo: GRD, 1994)
  • Invenção do Mar: Carmen sæculare (Rio de Janeiro: Record, 1997), Prêmio Jabuti 1999
  • Cânon & fuga (Rio de Janeiro: Record, 1999)
  • Um Senador de Pernambuco: Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho (Rio de Janeiro: Topbooks, 1999)
  • O Bêbado de Deus (São Paulo: Green Forest do Brasil, 2000)
  • Os Olhos do Gato & O Retoque Inacabado (2002)
  • O sagrado e o profano (Florianópolis: Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 2002)
  • Algumas Partituras (Rio de Janeiro: Topbooks, 2002)
  • O Nome de Deus [Obra póstuma] (in: Confraria 2 anos, 2007)

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

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Juarez Leitão

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

Os 90 anos de Gerardo


 

Coisas de saudade, o padre e a casa. O padre, muito mais: Francisco Soares Leitão, vigário de Nova-Russas, CE, o padre Leitão, um homem culto; primo, segundo pai e amigo. A casa, rua Eduardo Garcia, 833, em Fortaleza, que "torrei" para pagar contas do meu insucesso como açougueiro na praça do Recife. A casa, bom, a casa ainda tem jeito: está lá, no mesmo canto, passei dia destes em frente... e a vontade dePadre Leitão oferecer o dobro do preço. [Que preço pagaria eu pela "volta" do padre?]

Lá naquela casa, mil novecentos e setenta e pouco, entraram-me de tropel o padre, o outro primo, poeta Juarez Leitão e um livro de poesia, O PAÍS DOS MOURÕES, de Gerardo.

— Chico José, você conhece este poeta? - Juarez Leitãoindagaram-me ambos, Juarez e o padre.

Não. Não conhecia. Tomamos um vinho do Porto. Juarez, a filha Camila recém-nascida, era vizinho. Folheei. Um e outro poema na diagonal. Pano bem rápido.

Naqueles mesmos dias havia eu comprado um cordel: Peleja de Zé Pretinho dos Tucuns com o Cego Aderaldo. Lera-a num jato, tirinete muito alto no gabinete do contador Waldemar Queiroz, de grata memória, presentes, dentre outros, o meu colega auditor, Mussa de Jesus Demes. Este ficou muito admirado com o meu entusiasmo pela cantoria. Eu também fiquei.

Conto-lhe, meu caro leitor, esta viagem dupla: Ceg'Aderaldo, emCeg'Aderaldo suas raízes sertão, e Gerado Mello Mourão, em sua expressão clássica.

Foi assim que ganhei a certeza de que a Poesia, Orlando Tejo, sua viagem às orgens clássicas, Zelimiera, o poeta do absurdodiferente do que alguns incautos apregoavam, não havia morrido. Certeza que se coroou quando pus as mãos em ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO, de Orlando Tejo.

Dia seguinte ao encontro com o padre, o primo Juarez Leitão e o livro de Gerardo, fui à Livraria Renascença, Rua Major Facundo, quase esquina com Pedro Pereira, e adquiri O PAIS, que li e reli já não sei quantas vezes.

Depois, o prazer do contato pessoal: 1994, tendo eu escrito alguma coisa (Sirah e mais alguns poemas publicados em Psi a Penúltima), fiz questão de localizar o MESTRE. 

A generosidade de um prefácio: foi assim que Psi, a Penúltima, veio ao mundo. E a visita ao Rio de Janeiro. A amizade de todos estes anos. E, principalmente, a admiração ao Poeta.

Mais não tem de GMM no Jornal de Poesia por culpa dele. Parece que nunca adaptou-se aos recursos do "anexar-enviar". Eu mesmo, a divulgá-lo no Jornal de Poesia, tive que digitar-lhe os três livros inteiros: O PAÍS DOS MOURÕES, PERIPÉCIA DE GERARDO e RASTRO DE APOLO. Também as TRÊS PAVANAS. E SUSANA.

Dia 8.1.2007 telefonei para a casa do Poeta. Estava ele no hospital, mas disseram-me que não era muito grave. Deixei o abraço. Passei um email pedindo ao neto dele, Antônio, que entrasse em contato para suprir a page. Por mim, sua obra há de estar integral no JP. [Era grave. O poeta morreu em 9.3.2007.] 

Gerardo Mello Mourão é poeta? Sim! Gerardo é O POETA! É assim que eu digo até para quem não queira escutar.

José Inácio Vieira de Melo, também do fã-clube de GMM, mandou correr na net esta homenagem (abaixo), reproduzida com igual entusiasmo na lista pessoal do poeta Rodrigo Petronio.

 

                                             Soares Feitosa

 

 

José Inácio Vieira de Melo

 

Rodrigo Petronio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jamesson Buarque


 

Nênia a Gerardo e um Convite

 

 

Caro poeta e amigo, Soares Feitosa, como sabe, faleceu nosso miglior fabbro; nosso Dante, como bem disseram Drummond, Hélio Pelegrino e Nelson Rodrigues; nosso único poeta planetário, como disse Jamesson BuarqueTristão de Athayde - porque nosso único poeta prescrutador das almas e das raças humanas em todos os tempos e todos os espaços -; nosso único poeta, não só no Brasil mas no Ocidente e quiçá no mundo, que tornou possível uma epopéia no mundo contemporâneo, tão dado à indigência e à filistia de uma crítica somente pautada em dogmas. Faleceu o poeta que nem era de meu partido nem era de minha igreja, para pensar como Pound, mas ainda assim é aquele que sempre comoveu meu espírito com recorrência e me fez ver que faço parte de um sistema genealógico que se chama mundo Ocidente América Brasil Nordeste em nome e respeito da humanidade. Dele o lembro assim, de imediato:

 

E surgia ao salto de um peixe de prata na cahoeira

a garganta respondia ao trom das águas

e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa

aos cangapés e deles súbito

o fauno de sete anos relinchava no barranco

erguendo a saia

da menina aguadeira

 

Um ente apto para peixe, como Apolo e o Cristo, afeito ao ar e à água, conhecedor da terra e sabedor do fogo, como um menino que espalha um grito porque descobriu que a vida é azul e o coração bate. Também menino buliçoso, brincador das coisas mais belas e fundador de belezas. Ele, este valete de espada: a criança inocente do jogo e o guerreiro experiente bem armado de gládio e escudo, o qual ensinou a Jorge Luís Borges, a pedido do mesmo: "a noite já pode mais do que o dia". Nosso poeta - o único que cantou a genealogia das Américas, como disseram Pound e Octavio Paz a respeito de "O país dos Mourões" - foi embora para a possessão dos céus, e cabe-nos, se somos sérios e temos, por isso, dignidade crítica, manter o trom de sua voz reverberando na intuição, sensibilidade e inteligência nacionais a serviço de uma nova linhagem de poetas diferentes das mesmices que mal caducam nossas letras, porque o contrário é bom: caducar quando não nos largamos na inércia de gesso dos fósseis. Não podemos depositar Gerardo Mello Mourão na memória nem depositá-lo à sombra da árvore mais alta, dizendo que foi poeta; temos de espalhá-lo e distribuí-lo para todos os ouvintes, para todos os navegantes, para todos os náufragos, para todos os andarilhos, e para os esquizofrênicos, para os analfabetos, para os sábios, para toda a gente até as reticências do impossível, porque "é nosso exercício a gentileza da morte", como dizia o próprio poeta.

A experiência totalizante de tempo e espaço da obra de Gerardo Mello Mourão, caro soares, sempre nos ensinou, entre tantas coisas, que a morte é sempre conosco. No entanto, seu ensinamento não diz respeito à inevitabilidade óbvia da morte, mas a sua vitalidade. Ao enfrentar a morte, ao assumi-la como herança - e Gerardo Mello Mourão é cantador das heranças, porque é nosso grande genealogista -, o poeta se permite viver a totalidade. Um de seus melhores exemplos é a "Nênia da Sibila":

 

Onde agora

a forma

restauração da rosa espedaçada? Onde

o rastro onde o gesto onde a maneira

da corola outrora?

 

E bem que possuías. Bem que teu sopro

batidas desprendiam-se e caíam:

era o canto, era o aceno a aparição

na sílaba caindo de teus lábios

pétala à pétala apagando-se a flor

pétala à pétala a tua boca o fruto

do enigma com seu sumo.

 

Restaria o perfume restaria

o ouvido tantas vezes ansioso

a espera alguma noite de um rumo qualquer

que não sabemos bem:

 

de pedra agora lisa onde palavra

e riso foi teu rosto apenas

água e limo descem:

quem sabe que lembrança de teus olhos

de tua lágrima?

 

Ora de fogo ora de água ora de ar

brotava e transitava a palavra de Apolo

e foi-se transformando tudo em cinza

areia

soprada

e um sino às próprias badaladas gasto

e as ondas de seu som desmaiado se esquecem

do caminho da volta à cor primeira.

 

[...]

 

Entretanto às vezes quantas vezes

uma saudade chega a um instante parece

noite

eterna solidão de eterna noite

e teu último poeta fere na pedra a boca

súbito lembrada de teu nome

 

Nesta nênia, que é o canto décimo primeiro de "O país dos mourões", Gerardo Mello Mourão lamenta a morte de sua primeira esposa, Magdalena, e, de maneira plangente, entrega-se ao sabor da saudade. Como a morte, em sua vitalidade, é sempre uma passagem, seu signo é o signo da viagem. A pergunta-chave do cantador da "Nênia da sibila" é "onde"? O lugar onde se encontram os mortos, o lugar para onde foram crava uma interrogação infinita no peito da humanidade diante da perda, da lonjura e da saudade. Contudo, este último sentimento deixa-nos a lembrança como herança e, por isso, transforma-nos no mundo das tradições, fundando nossa memória. É dessa maneira, caro poeta, que o convido e convido a todos os leitores e críticos e mais gente de efetiva responsabilidade, para a tarefa pejada de difundir a obra de nosso poeta, que, como bem disse Carpeaux, "certamente pertence à estirpe dos grandes". Se aquele sabor de saudade nos leva à plangência, e por isso lamentamos a perda, devemos ficar atentos para que a obra não se perde, e devemos em nossas leituras e escritas convocar nosso poeta do mundo dos mortos, como ele fez com Jorge de Lima, Luiz Gonzaga, Juvenal Galeno, Pessoa, Efraím Tomás Bó, Godofredo Iommi, Dantas Mota, Pound, Eliot, Castro Alves, Gonçalves Dias, Leopardi, Höederlin, Góngora, Camões e Camões e Camões, D. Dinis, Dante e Dante e Dante, Tibulo, Ovídio, Propércio, Horácio, Catulo, Virgílio, Homero e Homero e Homero. E para ressuscitar mortos é preciso ser sabedor de nossas heranças, como sabia Gerardo Mello Mourão:

 

Herdei o ferro em fogo - herdeiro

e do ferro e do fogo

fazenda, cabedal, moeda

gasto ferro e fogo na compra

das noites e dos dias e das fêmeas

na compra da lágrima e sorriso

e compro eu mesmo a minha própria dor

e lavro o mármore

do chão de viver e do chão de morrer

marcada a letra a fogo e ferro

 

Assim, indo em busca de seus fantasmas mais queridos, o poeta formula uma metonímia dos fantasmas mais queridos por todos aqueles congregados em uma mesma cultura, como a brasileira. Com isso, Gerardo Mello Mourão nos dá o ensinamento de como aplacar a saudade. Sejamos, portanto, caro Soares, bons aprendizes: vamos convocá-lo do mundo dos mortos, fezendo-o de nosso fantasma mais querido, para aplacar a saudade e para lembrarmo-nos de não nos esquecer de nossa origem telúrica, de nossa genealogia e da vitalidade da morte.

 

O mesmo abraço,

Jamesson Buarque.

 

 

Wilson Martins

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

 

 

 

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