Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Grief of the Pasha

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria José Giglio


 

Vida e Obra em 1997


1933 - 5 de maio, nascimento na cidade de Mocóca-SP

1958/60/62  1º, 2º e 3º livros publicados: Versos a um Polichinelo - Luz ao Longe - Poemas ao Amado, respectivamente. Edições da Autora.

1960/61  Página Crônica Literária: Revista Casa e Jardim-SP

1964   4º Livro: O Labirinto. Edição Massao Ohno, SP. Ilustrou: Tide Helmeister

1967  5º Livro: Sonetos do Oitavo Dia. Edição Promocional para a TodArte Galeria. Ilustrou: Mario Campello. A Pagina Literária do Jornal Folha de São Paulo, crítico Ivo Zanini considerou- o como o Livro do Ano.

1970  Coluna de Crônica Literária: Jornais City-Shopping News, SP.

1971  6º Livro: Poema Total. Edição ILA Palma-SP - Palermo, Itália. Ilustrou: J. Suzuki.

1972  7º Livro: 5 Elegias 1 Sonata. Edição Editora do Escritor, SP. Ilustrou: Ferenc Kiss. Catalogado na Library of Congress, Washington, USA, sob o nº PQ-969.17-133c5. Todos os seus livros a partir de O Labirinto constam no catálogo desta Biblioteca.

1974  8º Livro: Salmos Abstratos. Edição Editora do Escritor, SP,. Ilustrou: Sergio Macedo.

1976  9º Livro: 3 Motivos + 1. Edição Editora do Escritor, SP. Ilustrado com Ideogramas Chineses. Capa: Luz e Silva.

1979  10º Livro: Elementares. Editora Soma, SP. Capa: J. Suzuki.

1986  11º Livro: Não. Editora do Escritor, SP. Capa Luz e Silva.



OPÚSCULOS

1988  Alastrar de Agoras (Sonetos). Edições Sanfona, Florianópolis, SC.

1988/89/90  Reflexões I, II e III. Editora do Escritor, SP.



ANTOLOGIAS

1971  Poetas da Cidade. ILA Palma Editora, SP - Palermo, Itália.

1972  A Poesia Pede Passagem. Editora do Escritor, SP

1978  Las Voces Solidárias. Editora Alicanto, BS/AS, Argentina. Antologia bilíngue de la poesia Brasileña Contemporânea. Organizada e Traduzida por Santiago Kovadloff.

1979  Palavra de Mulher. Editora Fontana, RJ. Antologia Poesia Brasileira Comtemporânea. Organizada por Maria de Lourdes Horta.

1984  Carne Viva. Editora Anima, RJ. Antologia Brasileira de Poemas Eróticos. Organizada por Olga Savary.

1976/77/80  Editora do Escritor em Revista: 1º, 2º, 3º, 9º e 10º volumes.

1993  Pérolas do Brasil. Edição da Academia Feminina Mineira de Letras. Organizada e traduzida (inglês, húngaro) por Lívia Paulini.

1995  Antologia Comemorativa do Jubileu de Ouro do Clube de Poesia, SP.

1995  Livro de Prata. Ant. Comemorativa do Jubileu de Prata da Editora do Escritor, SP.



POEMAS SEUS TRADUZIDOS PARA:

ITALIANO: O livro: O Labirinto. Por Mercedes La Valle. Recebeu a Palma de Ouro da Academia Internacional de Ciências , Letras e Artes de Nápoles, Itália.

ESPANHOL: Poemas da Antologia: A Poesia Pede Passagem. Por Santiago Kovadloff para a Revista Crisis, Bs/As, Argentina.

Poemas do Livro: Poema Total, por Beatriz Scoviello. Para o Teatro Experimental Taller Fare, Bs/As, Argentina.

INGLÊS: Poemas do Livro Poema Total. Pelo Prof. Fred P. Ellison. Para Latin America Collection, USA.

HÚNGARO: e inglês: O Poema Dragão Verde, do livro 3 Motivos + 1. Por Lívia Paulini, Para a Antologia Trilíngue de Poesia Brasileira.

FRANCÊS: A Segunda Elegia, do livro 5 Elegias 1 Sonata, por Jean-Paul Mestas, para a Revista JALONS, Nantes, França.



ENSAIOS SOBRE A SUA OBRA EM LIVROS.

Gevaldino Ferreira, in "Seara Alheia". Edição Academia Riograndense de Letras.

Helio C. Teixeira, in "Rumos Literários ". Edição Cia Brasileira de Artes, RJ.

Péricles Prade, in "Múltipla Paisagem". Editora do Escritor, SP.

José Afrânio Moreira Duarte, in "Opinião Literária". Editora do Escritor, SP.

Benedicto Luz e Silva, in Introdução a Salmos Abstratos. Editora do Escritor, SP.

Hermann José Reipert, in "Boletim Bibliográfico" nºs 29 e 36. Bibl. Munic. Mario de Andrade, SP.

Eliane Accioly Fonseca, in "Tese de Doutorado em Comunicação e Semiótica", PUC, SP



DICIONÁRIOS E VERBETES:

Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes, SP

Dictionary of Contemporany Brazilian Authors, de David W. Foster e Roberto Reis. Center for Latin American Studies, USA.

Dicionário de Poetas, de Francisco Igreja, Ed. Oficina Letras e Artes, RJ

Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho, RJ.



ALGUMAS DATAS

1968- Casamento. 1982 - Divórcio. Sem filhos.

1963- Viagem ao Peru e Bolívia. Interesses em pré-história e arqueologia.

1974- Viagem aos USA e Europa. Contato e pesquisa junto aos centros artísticos e culturais do 1º mundo.

1975- 2ª viagem à Argentina e Uruguai. Conferência pronunciada em espanhol na SADE- Sociedade Argentina de Escritores, sobre o tema: "Actitud Personal y Poesia".

1976/77- Diretora da União Brasileira de Escritores. 1978/79 -2ª Secretária da mesma entidade.

1982- Funda em São Roque, SP a CASA DO ESCRITOR

1986- Sete poemas do livro inédito Pãdemônio publicados no nº 15 da Revista Pau Brasil. Edição DAEE,SP.

1990- Título "Destaque na Literatura Nacional" conferido pela Academia Feminina Mineira de Letras, B.H.

1992- Poema: A Ilha - Proposição para um conceito Poético Críptico. Publicado na íntegra pela Revista Livrespaço, Santo André, SP

1993- Diploma de Membro Efetivo do Clube de Poesia de São Paulo.

1993- Crípticos In/decentes - Poesia Críptica. - Publicado na íntegra pela Revista Livrespaço Santo André-SP

1994- Criação e ensino para alunos particulares: Curso de Introdução à Literatura, Curso de Introdução à Cultura Geral e Curso Básico de Espanhol.

1995- Crônicas Literárias para o Jornal Folha de Mairinque-SP, seção Casa do Escritor dando ênfase à necessidade da profissionalização do Escritor.

1995- Thanatos: Quatro Estações, poema publicado na íntegra pela Revista da Academia Brasiliense de Letras, Ano XIII - nº 14

1996- Criação de um prêmio de reconhecimento ao mérito humano e cultural do escritor: Prêmio Casa do Escritor.

1997- Criação do Laurel Solidário Casa do Escritor , para celebração das datas mais expressivas na vida pessoal e artística do escritor.



LIVROS INÉDITOS

Alastrar de Agoras (Sonetos) - 1965/69 - Pãdemônio - 1978/86
Terminal - 1985/88 - Thanatos -1979/88
Triologia Críptica - 1992/93 - Clave de Sol - 1993/94
Sendazen (Haikai) - 1995/96 - Gatos (poema didático) - 1990
Reflexões (prosa) 1990 -Para Violino Solo - 1996/97
Peço Licença Para Enlouquecer (Cahiers) - 1965/97.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

Maria José Giglio


 

A Poesia de Soares Feitosa

 

1.)

Seu livro veio confirmar a indelével impressão que conservo da Bahia. Uma palavra só a expressa: demasiado. Para minha pele clara, meu regime vegetariano, minha saúde de porcelana, meu olfato ultra-sensível que um dioríssimo agride; o sol, calor, a exuberância das frutas, dos odores, das iguarias baianas, é demasiado. Agora seu livro com sua capa ensolarada onde floresce um mandacaru grego, suas duzentas e cinqüenta três páginas com fotos, cartas, epígrafes, prólogo, apêndices, bíblia, jornal, manifesto, odes e réquiem, formula-um e prozac, pecados capitais e internet — é demasiado.

Preciso que você me dê um tempo. Para mim a Bahia precisa ser em conta-gotas. Por enquanto estou sob o impacto da imburana-de-cheiro. Eta idéia singular essa de grudar um envelope com pó-perfume num livro de poesia! Rapé, diz você? Pois, meu caro, é a over-dose exata para o meu suicídio. E previno-o, antes que você consiga me enviar as abelhas que dessa vez lhe fugiram — sou alérgica a picada de insetos. Precisei caminhar quarenta anos pelas trilhas sinuosas da poesia, para topar com você, Soares Feitosa, navegando na Internet com uma arca-de-Noé. Assim é impossível não lhe querer bem.

2.)

Li, com a atenção que merece, seu grande livro. Tudo. Introduções, cartas anotações, comentários, e seus poemas. Uma primeira impressão ressalta: a sua dicção discursiva não cansa. E isso pelo feliz achado de intercalar como pequenas ilhas, ou como aqueles corredores de pedras que facilitam a travessia, esses versos explicativos, que aludindo o assunto tergiversam, cortam a corrente, permitem uma pausa, um respiro alentador. Concordo, você é um épico. E seu tema vem das origens e irá até quando houver humanidade: a insuportável percepção da inconseqüência cósmica. Você me remeteu ao existencialismo, ao absurdo, ao mito de Sísifo, a Albert Camus.

Enfim, amei o seu poema Dormências. Tangida por imprevistas circunstâncias cheguei aqui, digo, em um sítio, antes, “praciana, da cidade grande”, e durante quatro anos aprendi na escola da terra, a teimosia das dormências vegetais e humanas. E como se tudo isso, e muito mais que deixo para as próximas cartas, não bastasse, seu livro é uma maravilhosa resposta aos apocalípticos do verso, esses que apregoam, embotados por todos os prós-e-prés da modernidade, a morte da poesia. Viva!, afinal, esse daimon que o possui! Está claro o recado: os deuses ainda não abdicaram do sagrado direito de rir por último. E voilà.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA, 1948) - Hanna

 

 

 

 

 

Maria José Giglio


 

Thanatos: Quatro estações


I

Suicido-me todos os dias
indiferente aos apelos
de meu corpo.

Lento e fundo
respira a lagartixa
esta manhã de junho.

Sinuoso
range-range de folhas
movimenta o jardim.

Pelos poros da matéria bruta
a casa exsuda.

Cansa viver.
Assisto com enfado
a intérmina reprise.

INVERNO outra vez
a paisagem embaça.

Álgido arrepio
resseca os ramos
para a ruína das sementes
no asfalto.

Das árvores desfolhadas
pendem como lágrimas
os frutos temporãos.


II

As chuvas chegaram.
Igual peixe no aquário
vejo o mundo liquefeito.

Mais que os brotos verdolengos
é PRIMAVERA
a algazarra dos passáros.

Porque os Ipês
aveludam vagens
e os mornos xaxins
exuberam orquídeas

teço signo e fibras
esse nunca
que anulará.


III

Acontece
o ballet das andorinhas:

Silencioso
o alado círculo
revolteia
em torno a árvore.

Com olhar opaco ____ espio.
Com sentidos frágeis ___ capto.
E não entendo.

VERÃO, agora, é isto:
tropel de nuvens, ventania
chuva, granizo, e cansaço.


IV

Planto três SSS
no limiar deste OUTONO
apesar da terra árida
e o tempo escasso.

Estação das cigarras
da carnação dos frutos
do afã dos casulos
sob as folhas ásperas.

Intermezzo
que fecha o ciclo, e reinicia.

No monturo
dos anos gastos
viceja, sim, rasteira
a melancolia.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Filosofia

 

 

 

 

 

Maria José Giglio


 

Quinta elegia


Nada sou e nada posso longe de Ti, e partirei!
Não, não perguntes por que nem para onde.
Para a árvore chega o tempo da muda.
Para o pássaro e o peixe o apelo da migração.

Vê, é alguma cousa para além de Ti o que me chama.
Talvez a origem.
Aquele conhecimento indefinível
que carrega o salmão corredeiras acima
e guia os gansos e os cisnes pelos céus afora.
Aquela nostalgia sem nome nos olhos da gazela
aquele definhar sem causa do melro na gaiola.

Senhor, ninguém te amou mais que eu.
Ninguém terá sentido mais prazer
nem mais orgulho entre teus braços.
Ninguém com mais humildade beijou-te a planta dos pés
nem com mais delícia colheu em teus lábios
a saliva ou o riso.

Senhor, ninguém guardou com mais ciúme
no fundo do ser o milagre da posse.
Ninguém se fez tão mansa sob o toque de uns dedos.
Ninguém é mais completa e perdidamente
amor e entrega a ti.
Mas, repara, quando o sol inclina
no horizonte o perfil de ouro
como estremeço e escuto.
Existe uma voz, Senhor
uma voz nas cousas e nos astros a chamar por mim!

Ah, repara
o fruto maduro é boca com o idioma que conheço.
A flor em meu quarto curva a corola e sonha
um sonho igual ao meu.
O menor, o menor, o mais feio e triste animalejo
tem a suave inquietude de meus gestos e de meus atos.
Repara, quando o silêncio veste de leveza minha casa
como espero e anseio.
O segredo do silêncio me pertence
e estou tão longe dele, Senhor!


Não, não me maldigas.
Vê, deixo tudo
vou mais pobre que o mais pobre dos seres
porque deixo a ti tudo o que tenho e sou.
Nada me resta já. Apenas a obediência a alguém em mim
que sou eu mesma e desconheço.

Por que me culpas?
Foi em teus olhos que vi a face que hoje sigo.
Foi em teu peito que ouvi o ritual antigo e nosso
e renasci assim.

Senhor
no fundo dos tempos um tambor entoa o ritmo surdo
e por ele tudo pulsa e vibra.
Quando na praia
cada grão de areia range sob o peso de um passo
quando na fonte cada gota de água surge à luz
quando unida a ti cada célula minha explode em gozo
cumpre-se a melodia no tantã longínguo!

Escuta, em cada pequena letra que componho agora
essa cadência dança e se enrosca ainda.
Senhor, eu sei a música da vida para além de tudo!

Perdoa.
Que seria dos salmões
se de repente o mar bloqueasse as rotas?
E dos cisnes e dos gansos
se nuvens erguessem muralhas nos céus?

Por que me culpas, Senhor, se sou o que fizeste?

Repara que ao deixar-Te deixo tudo o que pediste
e sigo pobre e só
em busca do impossível que me deste.


Do Livro: 5 Elegias e 1 Sonata. Editora do Escritor. São Paulo 1972.
 

 

 

 

 

 

01.08.2005