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Adail Sobral

adails@terra.com.br 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


 Ensaio, crítica, resenha & comentário:


 Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

 

 

 

 

 

Culpa

Adail Sobral


 

Caríssimos listeiros,

Acabo de receber, envio do Soares, a Iracema facsimilar, primeira edição de 1865, belamente ilustrada pela Côca!

Trata-se de uma ira-sema, posto que facsimilar, e porque cheia de semas, cenas, ira santa, santa iracema alencariana, termo que lembra "alavanca". A disposição da obra na página é um ícone como os bizantinos, sem a conotação ideologicamente marcada, e muito injusta, de bizantino como coisa ruim! Esses ícones são uma manifestação da presença real da divindade, daquilo que a católica ocidental substituiu pela celebração epidérmica, claro que com exceções.

A figura feminina que encima a capa, a disposição na página, que ocupa uma pequena mancha, reforçam isso: a obra vem "contida" em seu suporte físico. "Sustentam" a capa as  inscrições "Oficina..." e "imprensa...". A figura da contracapa me sugeriu um movimento intenso, ação que, por não ter fim, nem
por isso é menos completa em seus estágios, alçando-se ao infinito (aliás, será que a pertinência intensa, aceita, visceral, ao plano local facilita paradoxalmente o alçar-se ao infinito, ao global, trazendo-o por assim dizer para dentro de nós?). Vi ali o Ceará, que não conheço no físico, mas no emocional e intelectual que me trazem o Soares, o Virgílio, a Côca, o
Diatahy, etc. e, no genético, meu pai cearense filho de coroné que quase me deu ao irmão major prá criar, para aumentar as chances, pai que, junto com a mãe, me pôs Adail no nome "prá ele ficar na frente", esquecendo-se, em seu zelo, de que adail, adalides, é o navio de guerra que recebe os primeiros blasts, balaços.     

Mas que  minha vida tem sido, no sentido chinês, interessante, não resta dúvida. I have had more than my deserved share!

Tenho sido agraciado para além do merecido! Aliás, lembro sempre que graça vem de gratia, de graça, dado, e não comprado com chantagens à divindade, ou com a lisonja, mais própria de quem quer fazer as vezes de Deus.

A ilustração da contracapa tem cara de intrusão, de algo que "não tem nada a ver", de inconcebível no contexto. No entanto, situa o livro facsimilado no Ceará, seara, semeion, semente, sêmem de tanta coisa bela. A figura é uma rede, e a mulher da capa é o contrário de uma lenda do Ceará, e me lembrou da Frô e das outras mulheres lendárias daqui da lista.

A intertextualidade: a figura que é escultura comentada em poema do Virgílio, que desvela seu intenso lado feminino, andrógino, e é retomada pelas figuras falsamente ingênuas da Côca, que mostram o masculino da mulher, sua força de eterno feminino ao lado de inferno feminino, sine qua non do encanto!

Intertexto retomado desde a uroboros do começo ao infinito da contracapa (e não é a uroboros o infinito mesmo, nossa condição humana de morder a própria cauda, coda?)

Isso me fez ver também nas figuras da Côca, que nada tem de coke, choke, as figuras mexicanas de anjos católicos com rosto de inca, a presentificação tomando o lugar da representação do colonizador, uma antropofagia sem Bispo Sardinha (o que ele queria, com todo esse nosso litoral, se se chamava sardinha?) 

Vi totens, Levy-Strauss e o mapa das histórias de lince, as figuras grotescas, isto é, anti-ordem ditatorial de não me toques, figuras de que falou com admiração Baquitim, o Baquitão no dizer do Soares.

Para completar a emoção lítero-gráfico-musical-pessoal, o curumim sem nome, eu mesmo, confesso: era assim que meu pai me chamava! E o símbolo do Giordano, o "médico de livros", arqueólogo da palavra, que vi um dia em missa de sétimo dia de um padre que confessava: a Cia de Jesus veio para cá cumprir as ordens da Coroa portuguesa! Esse Giordano arqueólogo da memória literária do país, imperador Cláudio do livro.

E se tudo isso não bastasse, es Edições Cururu (sapo que não é sapo, e lembra curu-mim, mim curumim), "ataca" outra vez: Dos Sapos e dos Livros Três Pequenos Enigmas (e que enigmáticos!) O rosto, o rosto, da menina afegã, da acuada condição humana, do terror e da força. Os recortes que o Soares faz na foto são tomografia visual expressiva: destaque de muitos ângulos presentes naquele olhar.

O prisioneiro da uroboros que é a mulher, o Soares admirador (sem crítica genética) do feminino, poema curto e profundo, narrativo, cuja real história/estória, não está nas marcas, mas nos sulcos que deixa. O "recusei-me", ao lado do título, tira o suspense, mas cria uma atmosfera fantástica.

Lembrei o Paraíso perdido do João Milton, que quando li a primeira vez não tinha como entender, mas que criou emoções de que a leitura "entendida" posterior se beneficiou e muito, como ocorreu com o Ser e o Tempo do Heidegger, poema puro, jogo etimológico (e mesmo ilógico e em outro sentido, dado por seguidores, perigoso: parece dizer que haveria um sentido originário a ser descoberto). 

Oficina do livro lembra o sapateiro do exemplo do heidegger sobre o que está só presente e o que está inserido como presença na co-presença de todas as coisas que formam um sistema), joão mil-tons, o joão  da queda ao inferno, única a permitir entender o céu, e recusar sua apropriação: o que seria de Deus sem seu outro, que lhe mostra a parte obnubilada dele? Faz sentido um Deus sem o adversário? Que na África é antes o embusteiro, o brincalhão, sem esse mal que lhe atribuíram e que não se assemelha em nada ao mal que causam hoje a 25 milhões de africanos portadores de AIDS! Lembrei-me do Jung, que disse o que seria de Deus sem nós para o reconhecermos? Lembrei-me de mim ao dizer à mãe que tinha direito de errar, na época sem saber que errar tinha duplo sentido, que era vago, vagar, mas eu só via o anti-acerto.

E esses comentários fecham, abrindo, o círculo de meu comentário que vem no papé 2 das Cururu, "Dos Sapos...", em que eu defendia uma subjetivo-objetividade, um "objeito", fusão objeto-sujeito da impossibilidade de realizar o sentido (tema de um texto que vou mandar prá minha página no Soares, junto com Pássaro Provisório, Poemas Esparsos e Poemas da Maturidade, com alguns outros ensaios, como o sobre o sujeito,
sobre o autor, sobre a polêmica em Bakhtin, textos que meio que se repetem, mas sempre de outro ponto de vista, e quem sabe um sobre o "parasitarismo" como mecanismo de solapamento, sapocururuamento de discursos consolidados,
sem entrar em polêmica aberta prá não ser calado antes mesmo de falar, tantos planos, ímpetos de fazer coisas, mas com textos sobre globalização para traduzir!)

Tenho de parar, pois não conheço domingo nem feriado há meses! O livro vai ser devidamente entronizado entre as coisas que desejo que queimem junto com meus restos para que a cremação seja gloriosa. Lançado no mundo, gemi, e será que dele sairei aos gritos ou na calma que o Soares aspira a ter antes mesmo de ir? As coisas a ser queimadas parecem matéria,
mas são mesmo matéria no sentido de "a matéria de que são feitos os nossos sonhos" (Chico Pires na cabeça, ô mermão"!).

Abração a todas e a todos.

Adail



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"Cada um passeia seu pensamento como se paseia um macaco na coleira.Quando lês, tens sempre dois macacos diante de ti: o teu e o de um outro. Ou ainda pior, um macaco e uma hiena. Vê lá o que darás para alimentar a um e a outro. Pois a hiena não come a mesma coisa que o macaco ..."
Milorad Pavitch In: O DICIONÁRIO KASAR. 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

Adail Sobral


 

Pássaro Provisório



Migro,
vida-a-vida.
Tempo a tempo,
mudo.

Canto
e vou e volto.

Se não volto,
meu canto é presença
e permaneço.



 

 

 

 

02/06/2005