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Adalgisa Nery 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Adalgisa Nery


 

Biografia:

 

O nome da poeta Adalgisa Nery (1905-1980) deve soar, para a maioria dos leitores como desconhecido. Mais ainda: mesmo quem tem informação sobre o nome dela pouco sabe sobre seu trabalho.

Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira, nome de batismo de Adalgisa Nery, foi poeta, jornalista, prosadora e política. Nasceu no Rio de Janeiro, filha de um funcionário municipal. Órfã de mãe desde os 8 anos, estudou como interna num colégio de freiras. Aos 16 anos, casou-se com o pintor paraense Ismael Nery, um dos precursores do modernismo. O casamento durou até a morte de Ismael, em 1934. A relação foi conflituosa e até violenta. O casal teve sete filhos, dos quais sobreviveram apenas dois.

Viúva, e obrigada a trabalhar para sustentar os filhos, Adalgisa lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1937. Três anos depois, casou-se com o diretor do temível Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, criado pelo ditador Getúlio Vargas em 1939 para difundir as idéias autoritárias do Estado Novo. O casamento durou treze anos. Nesse período, Adalgisa viajou pelo mundo em missão diplomática, acompanhando o marido,

Separada, abandonou a literatura e passou a dedicar-se ao jornalismo. Também adotou a política. Foi deputada três vezes pela legenda do Partido Socialista Brasileiro. Depois do golpe militar de 1964, passou ao MDB e foi cassada em 1969.

Seus últimos anos foram melancólicos. Nos anos 70, viveu de favor, durante algum tempo, numa casa do apresentador de televisão Flávio Cavalcanti, em Petrópolis (RJ). Escreveu ainda seis livros -- entre os quais dois de poesia. É dessa época o romance Neblina (1972), dedicado a Flávio Cavalcanti. Essa dedicatória, certamente ditada pela gratidão, pegou mal na difícil conjuntura política da época. Cavalcanti era tido como dedo-duro nos meios de comunicação.

Em 1976, Adalgisa recolheu-se a uma clínica para idosos, no Rio. Um ano depois, sofreu um acidente vascular que a deixou hemiplégica. Morreu em 1980.

Autora de poemas, contos, crônicas e romances, Adalgisa teve seus dias de glória. Viúva aos 29 anos e dona de um perfil de mulher fatal, consta que ela destroçava corações. "Acho que todos nós a amávamos, mesmo sem saber que se tratava de amor", escreveu Carlos Drummond de Andrade após a morte dela. Também se sabe que o poeta Murilo Mendes foi perdidamente apaixonado por Adalgisa. Chegou-se até a sugerir (não há provas) que ela fora amante do ditador Vargas.

Não conheço a prosa da autora. Tive a oportunidade de ler sua poesia quase completa, que está no volume Mundos Oscilantes, publicada pela José Olympio em 1962. Escrevi "quase completa", porque ela ainda produziu bastante depois dessa data. De todo modo, Mundos Oscilantes contém seis livros (1937-1962), o essencial da obra poética de Adalgisa.

Talvez por causa de sua trajetória pessoal, marcada desde cedo pelo sofrimento, Adalgisa produziu uma poesia em que predominam os tons cinzentos. Mesmo quando ela proclama amores incondicionais, há sempre uma fragilidade de nuvem, uma busca de transcendência.

Quando li Mundos Oscilantes, fiz a seguinte anotação: "Uma poesia que parece eternamente ancorada no cais da solidão, do desalento, da morte. Nas mais de 300 páginas desse livro, não se encontra um só poema de clima um pouco mais solar ou mesmo cujo tema se volte para coisas mais concretas, fora da trilogia solidão, desalento, morte. O tom, às vezes, beira o apocalíptico".

Talvez por causa dessas características, o volume se torne meio cansativo pela uniformidade. Também na forma dos poemas há uma certa inflexão monocórdica. Em versos livres, sempre iniciados por maiúsculas, todos os textos têm apenas um bloco. Não há estrofes.
 

Um abraço, e até a próxima.


Biografia escrita por Carlos Machado (Poesia.net)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

Adalgisa Nery


 

Poema da amante


Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

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Ildásio Tavares

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravaggio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Adalgisa Nery


 

Poesia entre o cais e o hospital


Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.

 

 

 

Da Vinci, Madona Litta_detalhe.jpg

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Everaldo M. Véras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Antonia Zarate, detalhe

 

 

 

 

 

Adalgisa Nery


 

A espera


Amado... Por que tardas tanto?
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem... Amado...
desce a tua boca sobre a minha boca
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu.
Por que tardas tanto?

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Yeda

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Secchin

 

 

26.10.2006