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Jaumir Valença da Silveira 

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jaumir@hotmail.com  

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Lusofonia para o mundo:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Jaumir Valença da Silveira


 

Cumplicidade

 

"Give me your hands,
if we be friends."



Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.


Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.


E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion, detail

Jaumir Valença da Silveira



O papagaio


Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.


Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.


Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.


Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
 

   

 

Hélio Rola

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Alphonsus Guimaraens Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Memories, detail

Jaumir Valença da Silveira


 

Fluminense FM


O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.


Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.


Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,


acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz


ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.


Saudade de quem te acredita.
Adeus,
      maldita.
 

   

 

Valdir Rocha, Fui eu

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Jorge Medauar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

Jaumir Valença da Silveira



Faraó


Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.


Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.


Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.


Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.


Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.


Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.


Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
 

   

 

José Saramago, Nobel

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Dimas Macedo