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Rubenio Marcelo

 

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Rubenio Marcelo nasceu em Aracati/CE, cresceu em Fortaleza (onde concluiu seus estudos), e reside em Campo Grande/MS.  Escritor, poeta, compositor, crítico de arte e revisor. É membro efetivo da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35), e membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras. Autor de dez livros publicados e dois CDs, sua obra mais recente é o livro de poemas ‘Veleiros da Essência. Destacam-se também em sua produção os livros: "Graal das Metáforas", "Horizontes D'versos", e "Voo de Polens". Filiado à UBE-MS, foi Conselheiro Estadual de Cultura de MS. Participou a convite da I Bienal Internacional de Poesia (I BIP - Brasília), da Feira Literária Internacional de Tocantins (FLIT-2012), e recentemente da Feira Literária de Bonito (MS). É Advogado e Engenheiro Agrônomo. (jun/2016)

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Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

     
 
Wilson Martins

 

Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo entrevista o

o poeta Soares Feitosa,

editor do Jornal de Poesia

 


 

Aproveitando a visita recente do amigo poeta e advogado cearense Francisco José Soares Feitosa, entrevistei-o, aqui em Campo Grande, abordando assuntos literoculturais e, claro, falando sobre o seu “Jornal de Poesia”, o maior acervo poético em língua portuguesa no país, site (www.jornaldepoesia.jor.br) editado por ele há quase duas décadas.  Residente em Fortaleza, Soares Feitosa, como é conhecido, é autor dos livros ‘Réquiem em Sol da Tarde’ e ‘Psi, a Penúltima’. Aplaudida pelo público e pela crítica nacional, a sua obra traz elogios de nomes como Jorge Amado, Thiago de Mello, Ivan Junqueira, Manoel de Barros e tantos outros. O ícone da crítica literária brasileira, Wilson Martins, assim asseverou acerca da verve de SF: é um poeta lírico de harmônicas universais, inclusive as sugestões místicas; é também um saudosista, na medida em que são por natureza saudosistas os temas históricos e as evocações sentimentais, inspiração para belos poemas...”.  A seguir, trechos da nossa recente entrevista:

RM – primeiramente, gostaria que você definisse, de forma concisa, o poeta Soares Feitosa. 

SF - Tenho 71 anos. Vivo em meio aos livros, papeis e letras desde os primeiros dentes. Fui criado dentro de uma sala de aula: minha mãe, mestra-escola de antigamente, tangia uma classe com não sei quantos alunos, da Carta de ABC ao terceiro ano, dentro de casa; era a nossa casa. O Estado pagava o aluguel e permitia que a professora habitasse a casa, desde que a sala principal fosse reservada aos alunos. (Vila da Telha, atual Monsenhor Tabosa, Ceará). Depois, aos 13 anos, catapultado direto do sertão para uma pólis grega, a biblioteca do Seminário de Sobral. Haja deslumbramento: Júlio Verne, o Tesouro da Juventude, uma biblioteca que não tinha tamanho. Incluso um livro de astronomia com algumas deusas gregas, os braços nus e amplo decote às espinhas do adolescente. Ah tempo! Em suma, fui criado nesse ambiente: o prazer de ler, olhar, escutar, espiar... perguntar para-dentro. Como se fosse pouco, minha mãe tinha um pé de farmácia e, para embrulhar os remédios, assinava o Diário Oficial, de preço módico para os funcionários, de modo que eu, menino, dispunha de jornais à vontade para riscar e recortar letras. Ainda hoje é assim, vivo cercado de papéis. Garatujo. Sempre garatujei. Ainda que sem papel algum. Sem papel? Sim. O exercício. 

 

RM – qual a importância da literatura, especialmente a poesia?

SF - A poesia é essencial. Há uma poesia suprema, do sacerdotal, dessa permanente negociação com os deuses, sobretudo com os não-acreditados que, pior, são os mais terríveis. Os textos sagrados (todos!) são de pura poesia. De tão forte poeticidade que a gente nem a percebe.

 

RM – que mistério habita a face da arte poética? O que vem a ser poesia?

SF -  O estado poético é ver as coisas pelo lado noite. Pelo lado dia, hão de ser vistos os problemas da sobrevivência, habitar, comer, empregar; falar com os políticos, pagar as contas, correr atrás dos velhacos, essas coisas. Ver com os olhos da noite pressupõe uma dimensão não-racional, de enlevo, acendimento e ascendimento. Mas não estou dizendo que ninguém possa trabalhar à noite, nem poetar durante o dia. Desconfio que os cegos, mas eu era apenas míope, sempre usei óculos, tenham, os cegos, grande facilidade pela noite. Há, no estado poético, um enxergar que não é dos olhos. O homem primitivo, antes de descobrir o fogo, tinha a noite para o entretenimento e os medos do existir. Veja, no nosso interior, naqueles tempos de uma escuridão bem sertão, dizíamos: «Menino que mente de dia cria rabo». Ou seja, de noite, pode; de dia, não; mentir. Parece que o poético passa pelo lúdico, os medos, as fantasias, o sacerdotal e a esperança. “Ela vai voltar”, dizemo-nos preferencialmente de noite; que nunca volta, Ela; e quando volta, irreconhecíveis, ambos. É assim mesmo: de dia, no escritório, você encontrará o advogado, sério e profissional, mas de noite, ainda que de dia, este aqui, eu mesmo, um traquinas que brinca, dança, corre, pinta e borda, ainda que sem sair do canto, sem mexer um dedo, um único músculo.

 

RM – a poesia tem a mesma vez que a prosa no cenário literário brasileiro?

SF – Prosa sem poesia é apenas um relatório, um BO, para usar a linguagem policial, uma bula de remédio, uma receita de bolo. Pegue qualquer dos grandes autores, de Euclides da Cunha a Saramago e verá que o texto só aparentemente é prosa, mas poesia, pura poesia, da melhor. O leitor percebe. Canudos não se rendeu/. Exemplo único em toda a história/, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo/, na precisão integral do termo/, caiu no dia 5, ao entardecer/, quando caíram/ os seus últimos defensores/, que todos morreram//. Eram qua­tro apenas:/ um velho, dois homens feitos e uma criança/, na frente dos quais rugiam/ raivosamente cinco mil soldados... De Saramago, um dia peguei uma página à toa de O Evangelho Segundo Jesus Cristo e a coloquei em estrofes, procurando ritmo e batimento. Ah, meu caro Rubenio, Rosa é outro. Guimarães Rosa, sou capaz de “ler” o Rosa inteiro pela via poética, de ponta a ponta. Anote aí, por seu favor, em definitivo: Não existe prosa. Só existe poesia... Prosa não-poética, por favor, é relatório. Melhor uma planilha de números e algoritmos. O arranjo sobre Saramago está aqui: http://www.jornaldepoesia.jor.br/1saramago8.html

 

RM – a atual poesia brasileira segue por caminhos fecundos ou por ríspidos descaminhos?

SF – Muita enganação por aí. Dos concretos e dos minimalistas. Aforismos e outros bobajais. O pior é a enganação. Não há salvação fora dos clássicos.

 

RM – levando-se em conta as tendências que a poesia já trilhou nas sendas da linguagem, o que está faltando acontecer?

SF – A resposta está nas anteriores: ou o texto é poético ou inexiste.

 

RM – o incremento da poesia nas salas de aula e o fomento das oficinas de criação poética seriam opções necessárias para melhorar o índice de leitura no nosso país?

SF – A leitura de poesia, no Brasil, é suprida pelo sacerdotal. Em tempo: não sou religioso. Leio o texto sacerdotal — de qualquer credo — em busca da beleza. Mas isto é assunto para muita cerveja que já nem as bebo por conta do diabetes querendo comer meus pés. Controlo a glicemia com absoluto fervor... vá comer os pés do demônio! Não os meus. Nem os seus.

 

RM – a crítica literária é importante para a poesia nacional? Qual a referência atual nesta área?

Sim. A respeitabilidade de Wilson Martins, dentre uns poucos. Outros hão de surgir. Não é fácil.

 

RM – como aconteceu o seu primeiro encontro com a poesia?

Olhar, ler, ver, escutar, sentir... desde que me entendo no mundo. De escrever, só aos 50 anos, o meu primeiro texto, inédito, Siarah. Foi um represamento. Sem motivos para represar. Simplesmente não tinha nenhuma vontade de escrever. Sequer a tentativa. Muitos amigos simplesmente não acreditam e dizem que tenho armazéns de cadernos… Tenho não. A vontade de escrever chegou aos 50 anos. Vez por outra chega de novo. Pego o computador e escrevo. No computador. Desaprendi a empunhadura manual para escrever. Desde os tempos da máquina de escrever, auditor da receita (concursado Fiscal do Consumo aos 20 anos; Banco do Brasil, também) que me impus à máquina. Faz um tempão, não sei quantos anos, que não escrevo uma linha. Nenhuma frustração por isto.

 

RM – o que você acha mais importante: a inspiração ou a transpiração? Que força incita a criação do poeta Soares Feitosa?

SF – Tem que ter a inspiração. Como é que chega, isto eu não sei.

 

RM – qual a sua opinião acerca da efervescente onda poética que circula na internet? Qual o futuro da poesia?

SF – Muito boa essa onda. O nível de leitura é crescente. Estamos melhores. Sou a favor.

 

RM – Quais livros e poemas da literatura brasileira podem ser considerados imortais?

SF – Antônio Frederico Castro Alves no alto do céu! Por falar no Menino — assim o chamo em livro inédito, Salomão, este monumento, A Cachoeira de Paulo Afonso! A miscigenação brasileira está lá, com quase cem anos de antecedência sobre Gilberto Freyre: Lucas, moreno e altivo; Luísa e seus atributos em cravo e canela: "Mimosa flor das escravas!/ O bando das rolas bravas/ Voou com medo de ti!..." Castro Alves retrata, neste poema Brasil-essência, todo a nossa bastardia, a morenidade de Cotegipe, Floriano Peixoto e Machado. Lucas, filho da escrava com o senhor, assassinada pela sinhá. Os meus olhos louros e o cabelo pixaim, este tão Brasil brasileiro de pai desconhecido. Veja, poeta, esta paisagem que ninguém lhe descreve igual:  "Os poldros soltos — retesando as curvas, —/ Ao galope agitando as longas crinas". E a escravidão, a mancha ao infinito, drama atual — favelas — mais forte em Cachoeira, porque mais sublimada, do que no Navio. E a ironia, a canoa à beira do precipício, mas é assim que ele diz: "Semelha um tronco gigante/ De palmeira, que s'escoa.../ No dorso da correnteza,/ Como boia esta canoa!" Boia? Ele a despeja lá embaixo, veja: "De tua vaga os turbilhões barrentos. /A canoa rolava!... /Abriu-se a um tempo o precipício!... /e o céu!..." Por isto mesmo é que se fala tão mal de Castro Alves. Ele abusou. O Navio teria sido suficiente. A Cachoeira excede a todas as medidas da genialidade.  Em qualquer tempo, em qualquer lugar do mundo.

 

RM – sobre o site Jornal de Poesia, por que este nome e qual a sua maior satisfação em mantê-lo há quase vinte anos?

SF – Com os blogs, quando o autor, ele mesmo faz a sua divulgação, o Jornal de Poesia perdeu a força de arauto, na frente, gritando bem alto: Vejam este poeta! E abria oportunidade a todos, principiantes também. Formei ali um acervo monumental. Os planos hoje giram em torna da divulgação do livro em inteiro teor. Tenho um acervo de quase mil livros de poesia digitalizados, mas só vou colocando à medida em que o autor autoriza, como é o seu caso, poeta Rubenio, quando, recente, coloquei o seu belíssimo poema do pai, o Rosto do Pai, do seu livro mais novo, Veleiros da Essência.

 

RM – certa vez, há quase uma década, você falou: “o livro de papel tem uma mística, um simbólico absolutamente insubstituível”. Ainda pensa assim?

SF – O livro continua com a mesma mística. O papel é insubstituível. Veja, aqui no escritório, tenho uma impressora a mais para imprimir o “inteiro teor”, a colocar debaixo do braço, riscar, anotar, rabiscar, nos processos mais complicados, na minha atividade de advogado. Na tela, ainda estou treinando. O mesmo, na poética. Claro que imprimi o seu poema do pai, Desculpa-me, pai!, botei-o debaixo do braço, embaixo da rede, caneta de riscar ali perto, futucando e varejando… é assim que leio. Veja, do meu único livro, PSI, A PENÚLTIMA, de 1997, tenho apenas um exemplar. Digitalizei-o e coloquei na Internet, mas não é a mesma coisa de entregar para um amigo o livro em papel e tinta. Estou reeditando-o com o nome Dedicatória… aguarde o seu. (Esta entrevista, vou imprimi-la antes de remeter. A ler no papel, amassá-la, manuseá-la, sei lá mais o quê, essa mística da coisa escrita no meio físico, desde os tempos, lápides e pergaminhos).

 

RM – a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras mantém aqui, no Jornal Correio do Estado, já há mais de 43 anos, o seu Suplemento Cultural publicado ininterruptamente aos sábados, sendo certamente um dos mais antigos em circulação contínua no nosso país. Qual a importância dos cadernos culturais?

SF – Inteiramente a favor. Pena que eu não tenha tempo para nada.

 

RM – por falar em Academia, qual o seu relacionamento cultural com os acadêmicos cearenses e com a Academia Cearense de Letras. Já pensou em concorrer a uma Cadeira na ACL?

SF – Já frequentei mais. Hoje, não. Um isolamento absoluto, sem motivos. Projeto nenhum de me candidatar a qualquer cargo.

 

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                                                                             Campo Grande/MS, maio/2015

  

 

SOARES FEITOSA, Francisco José, 19.1.1944, Ipu, CE. Editor do Jornal de Poesia, na Internet. Auditor da Receita Federal aposentado. Advogado e poeta. Reside em Fortaleza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13.6.2016