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Rubenio Marcelo

 

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Fortuna:

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Rubenio Marcelo nasceu em Aracati/CE, cresceu em Fortaleza (onde concluiu seus estudos). Escritor, poeta, compositor, crítico cultural e revisor. É membro efetivo da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35), e membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras. Autor de onze livros publicados e dois CDs, sua obra mais recente é o livro de poemas ‘Vias do Infinito Ser' (Ed. Letra Livre)Destacam-se também em sua produção, dentre outros, os livros autorais: "Graal das Metáforas", "Horizontes D'versos",  "Voo de Polens", e "Veleiros da Essência". Filiado à UBE-MS, foi Conselheiro Estadual de Cultura de MS. Participou a convite da I Bienal Internacional de Poesia (I BIP - Brasília), da Feira Literária Internacional de Tocantins (FLIT-2012), e recentemente da Feira Literária de Bonito (MS) e Feira do Livro de Brasília, dentre outras. É Advogado e reside em Campo Grande/MS. (maio/2017)

 

Link para o Face: https://www.facebook.com/rubenio.marcelo?fref=ts

 

 

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Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

     
 
Wilson Martins

 

Manoel de Barros
 

 

 

Rubenio Marcelo lança novo livro

 

Vias do Infinito Ser

 

Aconteceu em Campo Grande, na noite de 16/05/2017, em concorrido evento no Teatro Prosa do SESC Horto, o lançamento oficial do novo livro de poemas de Rubenio Marcelo: “Vias do Infinito Ser”, publicado pela Editora Letra Livre. Com aprovação do FIC-MS, a obra possui apresentação do prof. Paulo Nolasco (doutor em letras) e prefácio do crítico literário e poeta José Fernandes (prof. e doutor em letras), que assim afirma num trecho: “O livro ‘Vias do Infinito Ser’ se compõe de uma poesia profunda, marcada por forte dimensão metafísica, como requer a concepção de infinito a que o ser tem de conquistar durante a existência. Para isso, o jogo poético, tal como o existencial, se executa entre o finito, o concreto, o físico, e o essencial, abstrato, metafísico, infinito. Em decorrência, a leitura de cada poema não pode ser feita em uma sentada, mas sorvida mediante várias leituras, a fim de que se possa mergulhar na essência mesma da poesia e no sublime que ela
encerra. A viagem pelo poema, deste modo, assemelha-se à viagem do ser em busca do infinito. Tem de ser executada passo a passo...”.

Já o poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, timbra na orelha/aba do livro: “Na poesia de Rubenio Marcelo, em vez de o ser humano habitar o cosmo, é o universo que reside no homem. Tudo emana da força da poesia, e é com essa luz de dentro, deflagrada pelo poder do verbo, que subitamente as coisas ganham forma e novo sentido. Como se lê em um de seus poemas, “palavras saltam muralhas e viram estrelas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gerardo Mello Mourão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nauro Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alphonsus Guimaraens Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rubens Ricupero

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ascendino Leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Franz Cecim

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo

 


 

Veleiros da Essência

vêm de horizontes nunca vistos
e trazem à proa
o mapa das messes inabituais
num tempo infinito
de invictas bandeiras e constelações...
trazem o lábio astral e o astrolábio
das meditações azuis
que tecem sublimes mareações...
têm adriças de sol e cordoalhas de mitos
que atesam a fruição
de transcendentes singraduras...

 

chegam altivos e sem defensas
traçando itinerários
                      coesos
afinados com insólitas conhecenças...
transportam sagas ancestrais
e trazem nas gáveas
núncios de auroras ressurgentes...

 

com místicos galhardetes
mirando os destinos cor de nuvens
afagam elísios
que sibilam prelúdios e vilancetes
e sabem dos seus timoneiros
trajados de brim
em brancas manhãs...

 

planam em silêncio na crista do verbo
|atentos ao mínimo aceno|
ao barlavento da criação
entre códigos, gaivotas e plenilúnios...
singram íntimas dádivas
para ampliar as escotilhas do sonho
e plenificar faróis nos
e s t a i s
da vaguidade...

 

vêm do estro
para nos desancorar das ilhas perdidas
vêm para fecundar correntes
no estio das vigílias
e para nos (e)levar
à paz das alvíssimas florações
dos portos longínquos...

® Rubenio Marcelo

 

 
 
Sal da existência
I.
no latente diário de bordo
da estação das verdes aragens
desadormecem
revelações e sagas desveladas...
sangram clepsidras
e flutuam pontiagudos espasmos...
[antigas inquietudes avivam
o ventre nu da memória].
 
II.
há ilusões, tesouros e querubins
nas rotas dos albatrozes 
perdidos
há sortilégios e salmos esquecidos
em tardes carmins...
há pendões de segredos brotando
das lanças fincadas no tempo
demarcando ilhas
arenas e praças ressurgentes...
 
III.
inexiste a justificativa
do eco azul que excita o penhasco...
é inútil o penhor
      do asco que foi volúpia
      sem cópia pelos divãs... 
não há nenhuma razão no empenho 
                              e nas reprocuras 
que perecem no tombadilho sombrio das maresias...
não há rimas e romãs
nem travessias.
 
IV.
infindas esperas | em fendas | em eras |
já não reaprendem o que era
o cio das íntimas expectações
       nas quilhas dos dias... 
entre o cenho do devenir e a lividez do silêncio
um terçado espreita as horas...
|faz-se estio o entressonho|
 
V.
no aguardo da caravana do crepúsculo
a certeza medonha 
de anúncios e desolação.
em cristais transfigurados 
vem a brisa que edifica a lágrima
vêm os dardos que demarcam
               o sol da resistência
               o sal da existência.
                                 ® Rubenio Marcelo

 

 

 

O desguardador de dores
I.
em suas retinas 
as imagens imóveis não codificam
as ânsias que lhe habitam...
e não pela vez primeira
um sorriso urgente molda-lhe o semblante
adolescendo as esperas 
e contemplando o segredo das auroras...
 
II.
quais mármores espedaçados
suas palavras pedem o gume do vazio
pois os organogramas das manhãs
já diluíram o faro das suas reminiscências...
e mais uma vez os sabiás de voos dourados
que lhe gorjeiam e apontam o sol
desatestam o óbito do devenir
 
III.
sem surpresas
cortando o pulso das horas
lateja em sua fronte
a mesquinhez acrobática do cotidiano...
e novamente amadurece em seu olhar
o néctar que reinventa os jardins
que colorem os colibris do sonho
 
IV.
a flor negra na lapela do tempo
espreita os seus passos matinais
enquanto os arranha-céus da solidão 
ocultam o sorriso dos flamboyants...
e salvaguardando-se com silêncios
ele grita a liberdade
sempre 
assim...
 
V.
e assim ele segue
sempre
e
sempre
aguardando andores
desguardando dores...
 
 
                   ® Rubenio Marcelo

 

 

 
 
Contemplador de silêncios
 
I.
branco de sonhos
ele não brinca de senhas
e enovelando os flocos da solidão
busca a meada e o fio 
das nômades coerências da silencitude
 
II.
ausências retesadas não leem suas linhas
nem alinham suas mãos
que driblam o casulo dos desejos...
qual voo desfeito na falésia
é a sensação do agora
– há presságios lógicos refletidos no vazio
   das ruas minguantes que lhe acenam...
 
III.
acolhendo o lapso que apazigua a dor
ele recobra o estatuto da aurora
       e clareia-se em passos de cirandar...
comete dádiva dourada
e a tácita taciturnidade da surpresa
que instiga a desinquietude
pelos postigos da essência...
 
IV.
e tirando os véus do seu mergulho
ele renega as setas do delírio e da angústia
retornando ao imponderável instante 
fincado no  desvelo inconsciente
– seus pilares neurônicos latejam
    sem excessos e sem punhais...
 
V.
ante a libido esfarelada da emoção
e a pulsão das estranhezas reveladas
ele queima a carta de despedida
vai ao espelho
recolhe a lágrima banal e insana
reprime o transgressivo grito
desmelancoliza-se
reordena o seu vir-a-ser
e renova-se em estado de silêncio...
             ® Rubenio Marcelo

 

 

 
Gaivotas
Na barca veleira 
dos meus sentimentos
gaivotas pousam cansadas,
como a procurar as luzes efêmeras
das pálpebras do tempo...
Em revoadas, tecem auroras
no vértice das chegadas e partidas
que me eternizam lembranças...
Estas gaivotas
       me ardem palavras matinais
e, à noite, confundem-se
com as estrelas irrequietas
do meu espaço mental...
Deixam-me insone
para vigiar as minhas intenções
e o sarcástico segredo
do fogo dos desejos
ante as dádivas das direções anunciadas
pelos anjos sem trombetas...
Estas gaivotas
emprestam-me suas asas
para que eu sinta
|por entre as sombras das realidades caolhas|
a leveza de um novo olhar
no claro-azul das mutações circundantes...
Estas gaivotas
reinventam rotas nas minhas retinas...
Adornam a minha solitude:
entendem as certezas dos meus desalentos
e equilibram o voo
das minhas incertezas...
® Rubenio Marcelo

 

 

 
            SOLITUDE
Hoje eu quero soltar meus cães-pastores
Pelas ruas desertas do meu ser...
Deixar minha cerviz espairecer,
Vivendo a solidão dos desertores. 
Eu preciso sondar os corredores
Que me levam – às vezes, sem querer – 
Às sombrias visões de um quefazer
Recostado na fronte dos andores...
Hoje eu quero somente a calmaria
Do florete que adorna a penedia
Que comprime o vão do meu pelourinho.
Nesta noite eu só quero os braços meus
Procurando o meu vulto. E peço a Deus
Pra que me deixe assim: um ser sozinho!
® Rubenio Marcelo

 

 

CELEBRAÇÕES *
[ao teu Dia, Manoel]
Aos resolutos voos de um impulso azul,
os segredos dos horizontes
buscam as escadarias tatuadas
pelas vibrações da essência...
Um pendão de silêncio
perfumador de visões
desenvelhece o final da tarde...
Indiferentes
ao teorema rudimentar do tempo,
caramujos e rãs
velam os recipientes das nuvens,
regam as estrelas com a seiva das avencas
e reinventam dádivas indormidas 
ante o estado de infinito
dos enigmas espelhados
no colo da noite...
Das varandas da madrugada
a lua desconhece 
edifícios e vitrais
e
aos poucos
dá lugar aos lírios...
Em seus destinos e acenos,
pássaros, pedras, 
árvores, ventos,
bichos e águas
celebram liberdade 
com borboletas
que rendilham o alvorecer
e restauram trilhas humanas...
Do chão festivo 
brota uma harpa em timbre de poesia,
reinaugurando o enlevo 
e anunciando
o dia...
– Teu dia, poeta!
 
                 ® Rubenio Marcelo
*Ao poeta Manoel de Barros no seu aniversário.
  (19/12/2013)

 

 
               E s p Ǝ l h o


ah 
este  espelho  reflete-me em cada traço
cada gesto
cada cor

na sala, no quarto, no banheiro...
ei-lo sisudo
a 
mostrar-me
o semblante

de cada dor.
há
uma dor que me reflete em cada espelho
cada sestro
sem compasso

na sanha da refrega, trafega
sobre tudo
a 
prostrar-me
invigilante

em cada passo.
 




                 ® Rubenio Marcelo

 

 

 

porto e navio

eu trago em mim um rio
               e assim sorrio,
lembrando que sou rio
               e mar também...

somar meu rio ao mar
               é bom, faz bem
e marca a dimensão
               de um sonho a fio...

em mim há sempre um porto
                [um desafio,
que é rio e mar] que ri
                de mim, pois tem
as minhas restrições
                 e, assim, também
sou navegante ousado
                 e sou navio...

® Rubenio Marcelo

 

 
 

CORUMBÁ

I.
alçar voo com a natureza,
aos olhos ardentes da branca estação,
embarcar na primazia
e singrar o rio Paraguai...
velejar a floração da paz
refletida nas messes
das águas e céus azuis
em harmônica meditação
com aves e camalotes...

II.
passear... conjugando sagas
entre paisagens e alamedas...
reviver símbolos vitais
em lúcidas evocações,
contemplar templos e monumentos...
aquecer-se...
fecundando os graais da essência.

III.
ao lume de invictos fanais,
desvendar arcanos horizontes
e percorrer as sendas
que abraçam o semblante do porto...
definir os segredos
de inesquecíveis imagens
e imaginar quanta história
está resguardada naqueles casarios...

IV.
nas telas naturais da beleza,
reinventar o enlevo,
flertar com os madrigais
que apascentam o sonho...
ser assim encanto e acalanto,
qual fauna e flora
do Pantanal...
ser luz e transcendência,
como o verso de Lobivar
e o traço de Jorapimo.
viver... viajar...
ser feliz
em Corumbá!


® Rubenio Marcelo

 

 

Velho relógio de parede

Ah, este velho relógio de parede
irritando as horas, imitando enoras
                      no convés do mundo,
tentando pôr os ‘ires e vires’ no ponto.
Minutos e segundos
que consomem nossos ouvidos,
enquanto as vidraças
sorriem dos supersônicos...

Ah, este relógio antigo...
Nele, o tempo desconhece
a velha engrenagem humana
na parede pregada
e sem ponto de fuga;
      nele, as luvas das jornadas
      renegam a impontualidade
      do cantar dos galos...

E, a intervalos
nem tanto regulares,
há sempre algo a nos dizer
que o tempo não se assusta
diante do espelho,
nem sente falta de um divã na sala de estar,
tampouco se impressiona
ante as acrobacias de um raio de luz.

Em ponto de cruz,
o tempo borda imagens,
à frente das carruagens
cerzidas com norte incerto,
       perdidas num longo deserto...

Com tato, a noite traz o ponto de contato
aos bichos e paisagens,
            aos seres e edifícios,
                      aos desenleios e desejos.
A penumbra é o ponto alto: acomoda as cores da vida...
Nas avenidas, velhos semáforos medem o caos;
no mar, os rastros do plenilúnio
dão o ponto de equilíbrio
do sentimento cadenciado pelo mesmo vento
que proporciona o fecundo voo de polens
e o susto breve da donzela na escadaria...

E, na parede fria,
o enfadonho relógio a refletir o tédio
e a repetir
a mesmíssima
toada,
qual uma ciranda de ganidos
que demarcam um ponto.

Isto é ponto de honra
e nunca se abala.
Relógio de ponto
em ponto de bala.

Relógio sem pulso
a pulso na sala;
qual ponto-limite
ou ponte de sal...

Um tanto torto,
em ponto morto,
sem ponto
a/final.

® Rubenio Marcelo

 

 

Na ponte pênsil do inconsciente

 

Frenéticas ideias,
decifrando nuvens no azul do instante,
desenham com ênfase e êxtase
o sentido das múltiplas sombras
nas águas tristes do camaleônico rio
e vasculham
    as entranhas
       de estranhas sensações...

enquanto o oceano mastiga o sal
inato de suas aventuras,
um grito intraduzível
                    demarca
o palco da fúria dos ventos
e o reflexo dourado dos girassóis

em capítulos

instintivos

de fecundação...

olhares tingidos

                  num misto de fogo
                  e solidão
perdem-se nos labirintos
das paisagens

entre/laçadas e consumidas
nos parapeitos das horas...

os fragmentos dos sóis coloquiais
descem a impura ladeira

nas correntezas do tempo

em ímpeto
levando verdes ramos de sonhos
para o lugar-comum
das ilusões...

 

 

                    ® Rubenio Marcelo

 

 
 
 

 

PARCELA

   1.
   no azul do poema
   a luz da canção
   agora um clarão
   antes tão pequena
   não mais quarentena
   que se encastela
   agora eu e ela
   no leme do dia
   rumo à escadaria
   cantando parcela...

   2.
   assim, infinito
   nessa plenitude
   meus pés, amiúde,
   procuram o grito
   perpassam o mito
   ardente aquarela
   aurora e estrela
   que já predestinam
   sazões que sublimam
   à luz da parcela...

   3.
   
oh tempo-verdade
   gravando o eterno
   já não mais hiberno
   a outra metade
   oh fertilidade
   que tudo revela
   com justa cautela
   quero ressurgir
   para refletir
   cantando parcela...

   4.
   
no bico do corvo
   deixei o meu múnus
   e os importunos
   punhais do estorvo
   agora não sorvo
   profana querela
   há porta, há cancela
   colunas, mansão
   adeus solidão
   no tom da parcela!

   5.
   permanentemente
   honrarei o rito
   quesito a quesito
   manhã, sol-poente
   se dente é por dente
   ardente é aquela
   retina que zela
   o perfeito instinto
   no áureo recinto
   do canto-parcela!

 

            ® Rubenio Marcelo

 

 
 
Velessências


que venha na nudez e no silêncio
das intuições indecifráveis
o acorde ressurgente 
que desperta o ritmo
das partículas do íntimo liberto...

      e esta liberdade une confidências
de caminhantes 
e engenhos de destinos...
esta elevação
restaura o mister
das alvas embarcações
que demarcam pilares azuis e brancos
no verde brilhante dos enleios
               renovados...

testemunhar o segredo
das paisagens levitadas 
no pomar das inéditas claridades
é velejar o essencial
anunciando  
as parábolas erguidas nas asas da manhã
e o prelúdio dos pássaros
que re/pousam na ramagem dos sonhos...

nos mares ou nas avenidas
há o leme
o traçado confidencial
o horizonte nas persianas do tempo
a quase-súplica do desconhecido
as mutações...

repentinas incertezas
                    não desconstroem 
a rota da primazia que alimenta o eterno...
sempre haverá  ilhas
no ventre livre do cotidiano
e sempre há o vento nas rosas
                   e a rosa dos ventos...
– há sempre a viagem
   e o rumo
   para o mirante das conquistas...

para todo o sempre
há um porto
e um veleiro
uma lira e uma chama
na amplidão inexplorada
          de cada navegante.


                                    ® Rubenio Marcelo

 

 
 
Entes e mentes


I
plena mente
mente clara
claramente
ara a mente
  – s e m e n t e . . .

II
entrementes
mente rala
raramente
aclara a mente
– dormente. 

1.
mentes plenas
plenamente
patentes...

2.
mentes-geenas
pequenas
veem-se somente
| veementemente | 


                                                            ® Rubenio Marcelo

 

 
 
Nascença

A generosidade a duras penas
não vale a pena: é atitude vã.
Esta virtude só existe apenas
naquele que a pratica em mente sã.

Assim, guardadas proporções e cenas,
acontece também, cada manhã,
quando nascem prelúdios, cantilenas,
versos, vértices, sóis, flautas de pã.

O sol nasce pra todos (isto é vero),
porém, de sol a sol, em tom severo,
a musa do parnaso sentencia:
  
–  Que só tem poesia aquele ser
que já nasceu com ela pra viver
num renascer dourado a cada dia! 
                              

                                 ® Rubenio Marcelo

 

 
Fecundidade


dos seios nus
da 
Poesia
gotejam
os mistérios
que alimentam
a 
eternidade...

                                     ® Rubenio Marcelo

 

 
Caravelas 


E descubro nestas caravelas
as paisagens levitadas em sintonia
com os pássaros e estrelas...
naturalmente translúcidas
não precisam de carta das marés
talvez das auras que arejam  o espírito
e  edificam passadiços para
a estesia do ser... ...
de repente
milhares de milhas são vencidas
sem as incursões de corsários
e sem os rangidos 
das noturnas lendas dos mares

nos ares
os ecos azuis dos vilancetes
desancorados das amuradas
e refletidos nos rochedos flamejantes
convocam os ventos
para turnos extras de renovos 
e para embalar a solidão 
das sonâmbulas nuvens
cravejadas de elegias...

e vejo sobre o convés principal
destas caravelas
vistosos cavaletes 
              com telas tridimensionais
              e nelas 
prismas e pincéis de sóis
a delinear símbolos lúdicos
e a recriar elos de primazias intermináveis...

há códigos discretos
nas velas dianteiras destas caravelas...
inconvencionais mensagens
                  [quais champanhas 
                  com sabor de segredos]
aos legítimos
navegantes da essência.


                                 ® Rubenio Marcelo

 

 
   
VOO DE POLENS

Que se fecundem corações e mentes
e fortemente pulsem horizontes
em novas fontes grávidas de voos
buscando os ventos ou os flamboyants...

Em tons vibrantes, ritos plasmam céus,
descobrem véus e polinizam flamas:
são anagramas dos meus ideais
e os madrigais que flertam minha voz...

De fora em foz, os meus diversos portos
vislumbram hortos, saem das vindimas 
em férteis ímãs de sublimações...

Que as florações insones sejam cantos
e que estes tantos versos resolutos
concebam frutos doces como o sonho!

                                     ® Rubenio Marcelo

 

 

Parceria

 

O chão pode ser céu no canto alado
que tece o infinito em parceria...
A ave voa e pousa... e, neste estado,
um par sem outro par o que seria?

Asas e pernas traçam sempre um fado
moldando a cor da noite e o sol do dia...
Assim, talvez em tom predestinado,
o passaredo brinca em sintonia...

E cai a tarde... e novamente a noite
vem pra velar do vento o seu açoite:
da paz deixando eventos à mercê...

O mágico pulsar de um cata-vento
o que seria se faltasse o vento?
E a brisa sem o mar seria o quê!?

 

                                                      ® Rubenio Marcelo

 

         SORRIR...

 

Quero sorrir, contigo, dos momentos
que flertam nossos olhos inda acesos;
sorrir da dor que vem em passos lentos
e nos faz ser assim tão indefesos...

Quero, na floração dos meus intentos,
sorrir, contigo, cânticos coesos...
Quero sorrir da tez dos desalentos
e contigo mirar sonhos ilesos...

Quero, contigo, ser um só sorriso,
pra sentir da leveza o tom preciso
e, sorrindo, entender sinais quaisquer.

Na tenda dos misteres que eu persigo
e nos sóis do amanhã, quero contigo
sorrir também do pranto que vier...

 

                          ® Rubenio Marcelo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo entrevista o

o poeta Soares Feitosa,

editor do Jornal de Poesia

 


 

Aproveitando a visita recente do amigo poeta e advogado cearense Francisco José Soares Feitosa, entrevistei-o, aqui em Campo Grande, abordando assuntos literoculturais e, claro, falando sobre o seu “Jornal de Poesia”, o maior acervo poético em língua portuguesa no país, site (www.jornaldepoesia.jor.br) editado por ele há quase duas décadas.  Residente em Fortaleza, Soares Feitosa, como é conhecido, é autor dos livros ‘Réquiem em Sol da Tarde’ e ‘Psi, a Penúltima’. Aplaudida pelo público e pela crítica nacional, a sua obra traz elogios de nomes como Jorge Amado, Thiago de Mello, Ivan Junqueira, Manoel de Barros e tantos outros. O ícone da crítica literária brasileira, Wilson Martins, assim asseverou acerca da verve de SF: é um poeta lírico de harmônicas universais, inclusive as sugestões místicas; é também um saudosista, na medida em que são por natureza saudosistas os temas históricos e as evocações sentimentais, inspiração para belos poemas...”.  A seguir, trechos da nossa recente entrevista:

RM – primeiramente, gostaria que você definisse, de forma concisa, o poeta Soares Feitosa. 

SF - Tenho 71 anos. Vivo em meio aos livros, papeis e letras desde os primeiros dentes. Fui criado dentro de uma sala de aula: minha mãe, mestra-escola de antigamente, tangia uma classe com não sei quantos alunos, da Carta de ABC ao terceiro ano, dentro de casa; era a nossa casa. O Estado pagava o aluguel e permitia que a professora habitasse a casa, desde que a sala principal fosse reservada aos alunos. (Vila da Telha, atual Monsenhor Tabosa, Ceará). Depois, aos 13 anos, catapultado direto do sertão para uma pólis grega, a biblioteca do Seminário de Sobral. Haja deslumbramento: Júlio Verne, o Tesouro da Juventude, uma biblioteca que não tinha tamanho. Incluso um livro de astronomia com algumas deusas gregas, os braços nus e amplo decote às espinhas do adolescente. Ah tempo! Em suma, fui criado nesse ambiente: o prazer de ler, olhar, escutar, espiar... perguntar para-dentro. Como se fosse pouco, minha mãe tinha um pé de farmácia e, para embrulhar os remédios, assinava o Diário Oficial, de preço módico para os funcionários, de modo que eu, menino, dispunha de jornais à vontade para riscar e recortar letras. Ainda hoje é assim, vivo cercado de papéis. Garatujo. Sempre garatujei. Ainda que sem papel algum. Sem papel? Sim. O exercício. 

 

RM – qual a importância da literatura, especialmente a poesia?

SF - A poesia é essencial. Há uma poesia suprema, do sacerdotal, dessa permanente negociação com os deuses, sobretudo com os não-acreditados que, pior, são os mais terríveis. Os textos sagrados (todos!) são de pura poesia. De tão forte poeticidade que a gente nem a percebe.

 

RM – que mistério habita a face da arte poética? O que vem a ser poesia?

SF -  O estado poético é ver as coisas pelo lado noite. Pelo lado dia, hão de ser vistos os problemas da sobrevivência, habitar, comer, empregar; falar com os políticos, pagar as contas, correr atrás dos velhacos, essas coisas. Ver com os olhos da noite pressupõe uma dimensão não-racional, de enlevo, acendimento e ascendimento. Mas não estou dizendo que ninguém possa trabalhar à noite, nem poetar durante o dia. Desconfio que os cegos, mas eu era apenas míope, sempre usei óculos, tenham, os cegos, grande facilidade pela noite. Há, no estado poético, um enxergar que não é dos olhos. O homem primitivo, antes de descobrir o fogo, tinha a noite para o entretenimento e os medos do existir. Veja, no nosso interior, naqueles tempos de uma escuridão bem sertão, dizíamos: «Menino que mente de dia cria rabo». Ou seja, de noite, pode; de dia, não; mentir. Parece que o poético passa pelo lúdico, os medos, as fantasias, o sacerdotal e a esperança. “Ela vai voltar”, dizemo-nos preferencialmente de noite; que nunca volta, Ela; e quando volta, irreconhecíveis, ambos. É assim mesmo: de dia, no escritório, você encontrará o advogado, sério e profissional, mas de noite, ainda que de dia, este aqui, eu mesmo, um traquinas que brinca, dança, corre, pinta e borda, ainda que sem sair do canto, sem mexer um dedo, um único músculo.

 

RM – a poesia tem a mesma vez que a prosa no cenário literário brasileiro?

SF – Prosa sem poesia é apenas um relatório, um BO, para usar a linguagem policial, uma bula de remédio, uma receita de bolo. Pegue qualquer dos grandes autores, de Euclides da Cunha a Saramago e verá que o texto só aparentemente é prosa, mas poesia, pura poesia, da melhor. O leitor percebe. Canudos não se rendeu/. Exemplo único em toda a história/, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo/, na precisão integral do termo/, caiu no dia 5, ao entardecer/, quando caíram/ os seus últimos defensores/, que todos morreram//. Eram qua­tro apenas:/ um velho, dois homens feitos e uma criança/, na frente dos quais rugiam/ raivosamente cinco mil soldados... De Saramago, um dia peguei uma página à toa de O Evangelho Segundo Jesus Cristo e a coloquei em estrofes, procurando ritmo e batimento. Ah, meu caro Rubenio, Rosa é outro. Guimarães Rosa, sou capaz de “ler” o Rosa inteiro pela via poética, de ponta a ponta. Anote aí, por seu favor, em definitivo: Não existe prosa. Só existe poesia... Prosa não-poética, por favor, é relatório. Melhor uma planilha de números e algoritmos. O arranjo sobre Saramago está aqui: http://www.jornaldepoesia.jor.br/1saramago8.html

 

RM – a atual poesia brasileira segue por caminhos fecundos ou por ríspidos descaminhos?

SF – Muita enganação por aí. Dos concretos e dos minimalistas. Aforismos e outros bobajais. O pior é a enganação. Não há salvação fora dos clássicos.

 

RM – levando-se em conta as tendências que a poesia já trilhou nas sendas da linguagem, o que está faltando acontecer?

SF – A resposta está nas anteriores: ou o texto é poético ou inexiste.

 

RM – o incremento da poesia nas salas de aula e o fomento das oficinas de criação poética seriam opções necessárias para melhorar o índice de leitura no nosso país?

SF – A leitura de poesia, no Brasil, é suprida pelo sacerdotal. Em tempo: não sou religioso. Leio o texto sacerdotal — de qualquer credo — em busca da beleza. Mas isto é assunto para muita cerveja que já nem as bebo por conta do diabetes querendo comer meus pés. Controlo a glicemia com absoluto fervor... vá comer os pés do demônio! Não os meus. Nem os seus.

 

RM – a crítica literária é importante para a poesia nacional? Qual a referência atual nesta área?

Sim. A respeitabilidade de Wilson Martins, dentre uns poucos. Outros hão de surgir. Não é fácil.

 

RM – como aconteceu o seu primeiro encontro com a poesia?

Olhar, ler, ver, escutar, sentir... desde que me entendo no mundo. De escrever, só aos 50 anos, o meu primeiro texto, inédito, Siarah. Foi um represamento. Sem motivos para represar. Simplesmente não tinha nenhuma vontade de escrever. Sequer a tentativa. Muitos amigos simplesmente não acreditam e dizem que tenho armazéns de cadernos… Tenho não. A vontade de escrever chegou aos 50 anos. Vez por outra chega de novo. Pego o computador e escrevo. No computador. Desaprendi a empunhadura manual para escrever. Desde os tempos da máquina de escrever, auditor da receita (concursado Fiscal do Consumo aos 20 anos; Banco do Brasil, também) que me impus à máquina. Faz um tempão, não sei quantos anos, que não escrevo uma linha. Nenhuma frustração por isto.

 

RM – o que você acha mais importante: a inspiração ou a transpiração? Que força incita a criação do poeta Soares Feitosa?

SF – Tem que ter a inspiração. Como é que chega, isto eu não sei.

 

RM – qual a sua opinião acerca da efervescente onda poética que circula na internet? Qual o futuro da poesia?

SF – Muito boa essa onda. O nível de leitura é crescente. Estamos melhores. Sou a favor.

 

RM – Quais livros e poemas da literatura brasileira podem ser considerados imortais?

SF – Antônio Frederico Castro Alves no alto do céu! Por falar no Menino — assim o chamo em livro inédito, Salomão, este monumento, A Cachoeira de Paulo Afonso! A miscigenação brasileira está lá, com quase cem anos de antecedência sobre Gilberto Freyre: Lucas, moreno e altivo; Luísa e seus atributos em cravo e canela: "Mimosa flor das escravas!/ O bando das rolas bravas/ Voou com medo de ti!..." Castro Alves retrata, neste poema Brasil-essência, todo a nossa bastardia, a morenidade de Cotegipe, Floriano Peixoto e Machado. Lucas, filho da escrava com o senhor, assassinada pela sinhá. Os meus olhos louros e o cabelo pixaim, este tão Brasil brasileiro de pai desconhecido. Veja, poeta, esta paisagem que ninguém lhe descreve igual:  "Os poldros soltos — retesando as curvas, —/ Ao galope agitando as longas crinas". E a escravidão, a mancha ao infinito, drama atual — favelas — mais forte em Cachoeira, porque mais sublimada, do que no Navio. E a ironia, a canoa à beira do precipício, mas é assim que ele diz: "Semelha um tronco gigante/ De palmeira, que s'escoa.../ No dorso da correnteza,/ Como boia esta canoa!" Boia? Ele a despeja lá embaixo, veja: "De tua vaga os turbilhões barrentos. /A canoa rolava!... /Abriu-se a um tempo o precipício!... /e o céu!..." Por isto mesmo é que se fala tão mal de Castro Alves. Ele abusou. O Navio teria sido suficiente. A Cachoeira excede a todas as medidas da genialidade.  Em qualquer tempo, em qualquer lugar do mundo.

 

RM – sobre o site Jornal de Poesia, por que este nome e qual a sua maior satisfação em mantê-lo há quase vinte anos?

SF – Com os blogs, quando o autor, ele mesmo faz a sua divulgação, o Jornal de Poesia perdeu a força de arauto, na frente, gritando bem alto: Vejam este poeta! E abria oportunidade a todos, principiantes também. Formei ali um acervo monumental. Os planos hoje giram em torna da divulgação do livro em inteiro teor. Tenho um acervo de quase mil livros de poesia digitalizados, mas só vou colocando à medida em que o autor autoriza, como é o seu caso, poeta Rubenio, quando, recente, coloquei o seu belíssimo poema do pai, o Rosto do Pai, do seu livro mais novo, Veleiros da Essência.

 

RM – certa vez, há quase uma década, você falou: “o livro de papel tem uma mística, um simbólico absolutamente insubstituível”. Ainda pensa assim?

SF – O livro continua com a mesma mística. O papel é insubstituível. Veja, aqui no escritório, tenho uma impressora a mais para imprimir o “inteiro teor”, a colocar debaixo do braço, riscar, anotar, rabiscar, nos processos mais complicados, na minha atividade de advogado. Na tela, ainda estou treinando. O mesmo, na poética. Claro que imprimi o seu poema do pai, Desculpa-me, pai!, botei-o debaixo do braço, embaixo da rede, caneta de riscar ali perto, futucando e varejando… é assim que leio. Veja, do meu único livro, PSI, A PENÚLTIMA, de 1997, tenho apenas um exemplar. Digitalizei-o e coloquei na Internet, mas não é a mesma coisa de entregar para um amigo o livro em papel e tinta. Estou reeditando-o com o nome Dedicatória… aguarde o seu. (Esta entrevista, vou imprimi-la antes de remeter. A ler no papel, amassá-la, manuseá-la, sei lá mais o quê, essa mística da coisa escrita no meio físico, desde os tempos, lápides e pergaminhos).

 

RM – a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras mantém aqui, no Jornal Correio do Estado, já há mais de 43 anos, o seu Suplemento Cultural publicado ininterruptamente aos sábados, sendo certamente um dos mais antigos em circulação contínua no nosso país. Qual a importância dos cadernos culturais?

SF – Inteiramente a favor. Pena que eu não tenha tempo para nada.

 

RM – por falar em Academia, qual o seu relacionamento cultural com os acadêmicos cearenses e com a Academia Cearense de Letras. Já pensou em concorrer a uma Cadeira na ACL?

SF – Já frequentei mais. Hoje, não. Um isolamento absoluto, sem motivos. Projeto nenhum de me candidatar a qualquer cargo.

 

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                                                                             Campo Grande/MS, maio/2015

  

 

SOARES FEITOSA, Francisco José, 19.1.1944, Ipu, CE. Editor do Jornal de Poesia, na Internet. Auditor da Receita Federal aposentado. Advogado e poeta. Reside em Fortaleza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22.3.2017