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Leonardo Gandolfi

gandolfi123@yahoo.com.br

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Noli me tangere

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

Leonardo Gandolfi


 

Nota biográfica:

 

Leonardo Gandolfi nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. É Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal de São Paulo. Publicou No entanto d'água (7Letras, 2006), A morte de Tony Bennett (Lumme Editor, 2010) e Kansas (Megamíni, 2015). (Atualizado em 1.10.2015)


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Leonardo Gandolfi


 

Na velhice do mármore da pia


 

Na velhice do mármore da pia
o sangue derramado do carneiro
espera o que oclusivo o coagule
Implosão

Dizer isso é colocar
a mão sobre um dos teus ombros
despido agora pela esquerda alça da blusa

Ritual em que o texto noutros tons
vai operando o branco cinzento da pia
até que também seja a carne do animal morto
cortada sempre em planos transversais
Palavra

Ainda
a mão sobre um dos teus ombros

a mesma alça da blusa

O sangue derramado do carneiro
oferecido enquanto condição de leitura


 

 

 

Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

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Micheliny Verunschk

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo Gandolfi


 

Sete



O sal segundos antes
da chuva quando
e ainda
dependura no sobre ou senão
das coisas descalças
E de repente
o abrir da cavidade –
é na função sintática da queda
que se assalta o chão
e suas virtudes

*

Prostram-se os dias
e o que neles é de água
Espaço pulmonar de não poder
através e quando
o texto ósseo dos dedos
Lenta e novamente
dobra-se a voz enquanto e embora nela
algo a mais ou a menos se divida

O em volta e tangente
ao pé do ouvido te dizer

*

Lugar comum da boca
o sulco que estes dedos deixam
Dar e não receber
maiúsculo e mesmo assim
o no entanto dessa água
Promessa que prepara
na iminência de músculos
o motivo remoto do que desce

Teu tanto quando toca a extremidade
– areia num dos cantos do papel

*

A gravidade posto o peso esquerdo
das palavras
espera por dentro
da altura a areia
Semelhante desenho do oxigênio
o formato
e direção da pausa –
prosseguir
embora em subentendida calma
verso a verso teus insetos

*

Juntam-se a esses insetos diversos recursos
uns mais dispersos outros não
Desatadas as coisas descalças
e o que por distensão não só retorna
como também e quase ao mesmo tempo
avança
o senão põe aqui o sal e o sim
da última mudança de andamento

De cima contra o círculo de giz
inversa dor do céu o chão caber

*

Talvez
o tempo
decantando o movimento
separe dentro com os mesmos dedos
a queda
do que ainda cai
Providência e precaução
que não livram no entanto
teu percurso
do invisível resumo desse chão


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

Leonardo Gandolfi


 

a)



Como se o aceno contrastasse com a chuva
gota a gota a demora vai executando
um exercício solo com o que desce
Próximo e prestes alguém vem com as palavras

Preso às unhas
grãos de areia ou espera

*

A emulsão da sede
e de outros líquidos
boiando há muito pelas mesmas coisas
Perto daqui uma criança cai
da bicicleta e se converte na lembrança de quem lê
Pausa

Junto ao lago
a flor é quando e redor da boca

*

O coágulo ao fundo daquilo que fica
conforma-se à matéria do lagarto
e ao seu interior raio de ação
Como contraponto
a criança levanta-se da bicicleta

Em jejum
o lagarto procura na respiração
a sede e o sábado com que abre a flor

*

A água desce cortando em longitude
o miocárdio com os quais se movimentam
tanto o sal como o chão
Desce cortando repetidas vezes
até nela não ter mais duração
a boca

cuja sede encosta aqui


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

Leonardo Gandolfi


 

b)



O vestido florido da mulher sorrindo
tremula lentamente contra o vento
O mesmo vento que derruba as folhas da árvore
ou as leva para perto das palavras de quem vê
Daqui o pássaro dilata a aorta
trazendo até a derradeira artéria
a lentidão com a qual ao fundo se trombosa
o aneurisma das coisas que perturbam
o vestido florido da mulher sorrindo

*

Tanto que em qualquer pessoa
ser no entanto e por favor
porque enquanto for
ressoa o corpo
antídoto dor
Na areia atrás do espelho
a barba feita deixa esta ferida

Seis e quarenta – o café esfria

*

É quando os hematomas vão surgindo
primeiro na treliça do armário embutido
depois no movimento de abrir a janela
Anterior – o tamanho do sol verte
no parapeito em úlcera e carbono
a parte fisiológica do céu
Por dentro o pássaro é pouso
e palavra

*

Só o líquido da espera
deixa que o cérebro reparta sem promessa
a cartilagem das orelhas
A mesma de tubarões
num mar a contrapelo
onde de trás pra frente e sobre
o vôo do pássaro se ossifica
suturando a paisagem

Embora dentro – aguarrás e bile


 

 

 

 

 

17/11/2006