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Nicolau Saião

nicolau19@yahoo.com

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

Um esboço de Da Vinci

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Nicolau Saião


 

Bio-Bibliografia


Poeta, pintor, publicista e actor/declamador, nasceu em Monforte do Alentejo em 1946. Vive desde os três anos em Portalegre.

Exerceu a profissão de ajudante de meteorologista no Serviço Meteorológico Nacional. Foi administrador-delegado e chefe-de-redacção do semanário “A Rabeca”. Actualmente é o funcionário responsável pelo Centro de Estudos “José Régio”, adstrito à Casa-Museu.

Como pintor participou em mostras de Arte Postal em diversos países (Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Mali...), além de ter exposto individual e colectivamente em diversas localidades (Paris, Lisboa, Porto, Elvas, Tiblissi, Portalegre, Messina, Borba, Campo Maior, Sevilha...). Organizou, com Mário Cesariny e Carlos Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso”, patente no Teatro de Xabregas e na Soc. Nac. de Belas Artes ( tendo traduzido diversos autores incluídos no livro-catálogo) e, com João Garção, a mostra de mail-art “O futebol”.

Colaboração diversa em jornais nacionais e regionais e em revistas literárias e artísticas: “Ler – revista do Círculo de Leitores”, “Colóquio-Letras”, “Apeadeiro”, “A Cidade”, ”Bicicleta/Mandrágora”, “Bíblia”, ”Jornal de Poetas e Trovadores”, ”Callipole”, ”A Xanela” (Betanzos), “Abril em Maio”, “DiVersos - revista de poesia e tradução” (Bruxelas), “Albatroz” (Paris),“Mele” (Honolulu), “AveAzul”, “Espacio/Espaço Escrito” (Badajoz) e, agora, “Agulha” (Fortaleza, Brasil).

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”(Rádio Portalegre), um dos programas mais ouvidos das rádios regionais lusitanas. Está representado em diversas antologias de poesia e pintura.

Traduziu “Os fungos de Yuggoth” de H. P. Lovecraft e “Vestígios” de Gérard Calandre, bem como poemas avulsos de Benjamin Péret, Derek Soames, Jules Morot, Emílio A. Westphalen, Jacques Tombelle, Edward Burton, Philipe Dennis, Juan Ramón Jimenez, Philip Jose Farmer, etc

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro "Os objectos inquietantes” (Editorial Caminho).

Livros, além do citado: “Flauta de Pan, “Os olhares perdidos, “Assembleia geral”, “Passagem de nível”, “Os labirintos do real“ - publicados. “Cantos do deserto”(poemas relacionados com o deserto de Tabernas, Espanha), “As vozes ausentes”(crónicas e textos diversos), “As estrelas sobre a casa”(teatro), “Em nós o céu”(novela policial), “Escrita e o seu contrário”(poesia) - em preparação. “Nigredo/Albedo – o livro das translações” - a sair.

Proferiu conferências e palestras sobre arte moderna e literatura em Portugal e no estrangeiro.

Em 1992 a Câmara da sua terra natal outorgou-lhe a designação de cidadão honorário de Monforte e, em 2001, a gerência do município portalegrense atribuiu-lhe a medalha de prata de mérito municipal por ocasião da homenagem relativa a trinta anos de actividade cívica, artística e cultural.

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Com João Garção e Ruy Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no “O Distrito de Portalegre” de Março de 2000 até Julho de 2003.


[Carlos Santos]
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Nicolau Saião


 

Tableaux


I

Estão os dois sentados e olham pela janela quase sacada. Sabe-se que ao longe haverá árvores pequenas poças de água entre os arbustos, algumas pedras caprichosamente dispostas. Tratar-se-á dum cenário? O que um tem a dizer: “Saiba, senhor Pessoa que me lembro confusamente de artimanhas e coisas realmente vergonhosas, embora tudo isso se misture com pedaços de pa-lavras capazes de redimir os silêncios consentidos”. Resposta: “Livre-se do habitual, deixe passar o tempo. Omnia in uno. Lege, lege, lege, relege, ora, labora et invenies”. O que diz o outro, antes de passarmos a coisas mais directas: “Se é um fingidor, di-lo enquanto poeta. Portanto, não é um fingidor, dado que tal asserção é fingimento - o sinal do infinito é como uma fita de Moebius. Use enquanto estiver fresco”. Resposta:” Não sei ama, onde era. Nunca o saberei. Sei que era Primavera. E o jardim do Rei...”. Pergunta, ou antes, afirmação dupla: ”Se é poeta, é para queimar. Se é poeta, sirva-se dele como pisa papéis”. Afirmação do segundo, ou antes, pergunta simulada:” Você não é suficientemente rápido. Cuidado com as sombras das casas que rodeiam as pequenas baías, de noite ou no pino do Verão”. Resposta rápida, posto que sussurrante: “É no orvalho que as vilas se desfazem. Aldebaran quatro pontos. Espectro astral desenrolado
na direcção Norte-Noroeste. Outros morrem. A verdade...”. Per-
gunta entrecortada, ou antes: cortante, um vozeirão como de alguém à beira de rebentar: “Dirija-se a Sírius oito. Você só tem
direito a uma secretária na Rua dos Douradores (consultar mapa da
cidade de Lisboa, para melhor referenciação) - atenção às flores
dispostas sobre o velho aparador de madeira envernizada”.
Durante vários minutos mais nada se ouve. Contudo, umas figuras
esfumadas passam lentamente, espalhando um ténue luzeiro. Ruídos confusos, como de cadeiras partindo-se em cabeças ou cascas de lagostins quebradas pelos dentes vorazes de comensais numa pensão da Baixa Lisboeta.

II

Os mesmos de antes. O primeiro usa agora fato completo e chapéu
de funcionário de Câmara Municipal (um ar de medo ou de cobardia,
mas é apenas simulação). O segundo anda lentamente de um lado
para o outro, como se estivesse com dores de dentes. Pergunta:
“Octavio Paz nunca será criado de café na Brasileira. Hoje ser-
vem-se da poesia para esmagar a poesia. Qual a medida exacta do
amplexo vital do engenheiro Álvaro de Campos?”. Resposta: “De al-
go fui concebido/amigos/De mim vos digo/o certo e o inútil/Como
água lustral/desordenada/em vilas mexicanas ou/andinas”. Pergun-
ta: “Como se atreve? O revelado não é paralelo, nem igual, ao
desocultado. Onde se encontra Christian Rosencreutz? ”. Resposta
lenta: “Certamente que não/em Almada, Montijo ou Durban(South Africa)”. Pergunta, sinistra ou emoliente: “Curve já para Veja. A-
guente no transferidor beta seis o ruído de uma torneira a pin-
gar num quarto de solteiro. Sabe o que fazer agora? “. Resposta:
“Querida menina: provavelmente feliz. Talvez mãe. Porque não o
haveria de ser? Uma chávena vale pelo que vale.”. Pergunta, que
poderá funcionar como epílogo: ”Muerte, muerte, onde está tua vi-
tória? Mudem-no p’rós Jerónimos e não se fale mais nisto. Agora
em vôo rasante para Cisne ou Lira trinta e cinco”.
 

 

 

 

Hélio Rola

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J. Romero Antonialli

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

Nicolau Saião


 

Pessoa Inúmero

Aos Irmãos de H.


O que me interessa em Pessoa (máscara)
seja ele Fernando, Alberto ou Álvaro
é o ar grego e geométrico da sua casa
- casa dos seus versos exteriores -
onde as plantas terrenas, totalmente terrenas
com que enfeitou os seus dias e noites
aguardam sonolentas no calor do dia
a música, as abelhas, a lenta putrefacção
da clara Natureza na noite nascente.

Parece que escrevia bem o inglês
(descobriram isso, embora não seja seguro
depois de falecer)
tão bem que os rostos de Tennyson,
Shelley, Whitmann, Shakespeare
e alguns outros indistinguíveis
vieram pousar sobre o seu rosto engelhado:
numa aldeia galesa os habitantes
julgam recordar-se dum fantasma de gabardina
que numa tarde foi segundo consta avistado
por velhos, crianças e amáveis mulheres
andando entontecido pelas ruas sem destino
sombra aqui, sombra acolá
- o que era, aliás, apenas fingimento.

Por cá evidentemente sua-se de novo
o ranho, o esperma e o sangue dos poetas
(carrascão, ginjinha, uísque e soda?)
a sério e a brincar
o que dá jeito expressão serenidade.
Algures, num jardim real, o neófito agoniza
ombro com ombro, barba com barba
para que a chama da candeia luza ainda
numa rua onde nunca choverá
Algures, um laranjal incendeia-se de repente
e as aves partem em bando
mas já frias como dobrada à moda
de nenhures. Numa sala
um gato absorto olha o mostrador dum relógio
olha sem entender
e numa certa janela um lenço acena de vez

E a figura de arame de Pessoa (máscara)
dentro dum automóvel de brinquedo
na velha estrada de Sintra
que não existe, nunca existirá
- e por isso, ó minha alma, é bem real -
despenha-se explodindo no coração

do Mundo (ausente).


in “Palavras – sete poetas portugueses contemporâneos”

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), João Batista

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Ledo Ivo

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Nicolau Saião


 

Onze instantâneos arcangélicos

ao Floriano Martins


1. Em cada dia que nasce o mundo transfigura-se. Os quatro reinos da Natureza renovam-se a cada momento. E onde as linhas se juntam e separam é que fica o fogo dos tempos. As paisagens do mundo do pintor são por vezes inomináveis, pois dependem da existência animal dos universos dentro de tudo, incluindo os infernos sociais.

E por isso é que a noite e o dia são da mesma cor.

2. É do fundo do passado que as velhas obras nos olham, inquietas, aguardando a nossa palavra definitiva. A nossa existência está para além de Altamira, do Parténon, das tábuas de Kirsh e dos pomares de Belleville – mas é dentro do artista e das suas moradas ocasionais que a claridade se decanta.

E por isso é que o dia e a noite não se misturam.

3. Estamos rodeados de presenças – de pessoas e de coisas, de palavras ora estranhas ora familiares. Que teremos de maravilhoso para lhes dizer? De revelador, como um sulco numa rocha do paleolítico? Eis que o pintor decide pôr-se ao trabalho: as portas abrem-se por um momento luminoso e, logo após, cerram-se de novo. O que ficou, pobre coisa multicolor, será o seu pão e o seu vinho interiores e secretos - e o artista mais não pode fazer que olhar com as mãos a tremer os continentes fabulosos que entreviu.

E é então que percebe que noite e dia têm a mesma forma.

4. O corpo é um mundo incógnito que há que revelar na sua inocência de pedra e de madeira, mas só se não existem imagens virtuais na nossa mão e nos nossos olhos, O quotidiano do pintor é tão natural como uma cadeira, um gato ou um lápis – mas só se o que subjaz à sua busca são os sete continentes da fábula.

O dia, a noite, a amargura dos momentos são lugares muitas vezes só de passagem.

5. Só da nossa experiência esquecida poderemos tirar a forma mais exacta, como se uma voz velada nos permitisse traçar num papel frases adormecidas.

6. É na calma fecunda do dia-a-dia, na frescura das horas profundas que o artista encontra os tempos em que a vida retém a cor das madrugadas sombrias e das noites longas e palpitantes de desconhecido. Os demónios não se movem, o pincel reteve-os como uma árvore ou um muro de quinta.

7. O mundo tal como se vê ou se sente pode caber num bolso, donde depois se solta como um lenço manchado pelos dedos do artista. Mas é preciso que se saiba mergulhar entre os destroços que as existências dos outros deixaram nas ruas.

8. O pintor anda pelas ruas e reconhece o traçado do passado próximo. As memórias existem em todas as direcções, são simples e belas, terríficas ou indiferentes – e a mão do artista treme e adeja como que para lembrar a si mesmo que a naturalidade é afinal a mãe dos segredos que aprendeu.

9. Nas ruas por onde o pintor se locomove há outras figuras que lhe são paralelas: constitui matéria de má-consciência pretender que o artista tenha algo a ver com todas elas. Se há gentes cuja estrutura lhe é próxima, outras há que apenas são matéria de vómito ou de incógnita.

10. A chuva acontece na realidade e na fantasia, o sol existe em reinos diversos, da ficção ao facto concreto. Mas o que é que isso significa? Assim como o lixo é o que subjaz à civilização, o que está por detrás da existência doméstica e social é aferido de minuto a minuto pela nossa consciência do sagrado. No fundo, os momentos absurdos reconstituem uma existência passada algures e plasticamente recriada. Como se o dia e a noite fôssem apenas matéria para quadros de género.

11. Os pintores nunca mentem, mesmo quando pensam o contrário. Os anos encarregam-se de os aniquilar – e então a verdade que acharam desaparece – ou de os confirmar – e então tudo se torna possível. Porque, afinal, vai-se pelo mundo com dois olhos, dois ouvidos, vários pares de mãos e muitos pés diferentes: indagando, reflectindo, comparando. No fim, o que se conseguiu de certeiro, de fértil? Apenas alguns segundos de inteira alegria, algumas imagens cercadas de escuridão. Mas esse pouco é o penhor da nossa realidade, aquilo que não se deixa aos corvos e aos girassóis. Tudo está, bem vistas as coisas, para além do que se julgou possuir, mas não será esse o sinal perfeito duma meditação como um pequeno sinal de cor numa tela destruída pelo fogo?


S. Cristóvão do Atalaião, Abril de 1987
 

 

 

 

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Natércia Campos




 

21/11/2006