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Ruy Vasconcelos

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Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ticiano, Magdalena

 

Crepúsculo, William Bouguereau (French, 1825-1905)

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Ruy Vasconcelos



Bio-bibliografia


Ruy Vasconcelos é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade de Fortaleza (Unifor), autor de Errante e Peregrino – Vida e Obra de José Albano, Edições Demócrito Rocha, Fortaleza, 2000; poeta presente em Nothing the Sun Could Not Explain – 20 Contemporary Brazilian Poets, Sun & Moon Press, Los Angeles, 1997 entre outras antologias.

 

 

 

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Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Ruy Vasconcelos


Arqueologia dos Sítios Futuros

I.
escavo um lago
onde céu
sobre cal
pérgolas
hífen
dos corpos

II.
no ar
marinho
escavo
um lugar
entre
cipós e tranças
algas
e palha
o sol
vertendo
sombra para
um bonsai

III.
avante
tuas pupilas
escavo
flavas alvas
araxás
ante-salas
da alma

IV.
escavo
uma casa
na rocha, onde
partiremos
o mesmo
fôlego verde
de quaresmeiras

V.
com vagar
e luzes indiretas
escavo
nove peças
mobiliadas
(vamos nos
deitar em
cada)

VI.
nos galhos
escavo
ao inverso
um nó de
barro para
estar lá
desde calor

VII.
escavo uma
calçada de
vidro
e pés-ante-pés
saltarmos dela
para
o trapézio
da casa

VIII.
sem pulsos
escavo mangues
calmarias
sequer
cristais
refletem
o açafrão de
teus olhos

IX.
escavo
noite e chuva
limpa e leve
nódos de bambu
vincos de
lençóis, ondas
de lagoa
um bonsai

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Ruy Vasconcelos

O Povo, Fortaleza, Ceará, Brasil


 

Entre o jornalismo e a literatura

 

 

O Poder e a Peste — A vida de Rodolfo Teófilo. 
Livro do jornalista e escritor Lira Neto. Edições Fundação
Demócrito Rocha. 226 páginas. R$ 28,00.

 

Em nossa recém-democracia de uma década, uma palavra gastou-se com velocidade: cidadania. De tanto ser usada em sofisma nas campanhas políticas, na publicidade institucional, seu peso foi tão retirado, que hoje ela paira no espaço da mídia como uma folha-seca desferida por um bom cobrador de faltas. Sua densidade, antes plúmbea, hoje está mais para bola de pingue-pongue. E, desferida sem propriedade, vai e volta sobre o balcão barato do marketing.

Nesse meio tempo, a história, este forte esteio de ética e cidadania, não vem sendo capaz de nos oferecer ou resgatar muitos modelos de participação verdadeiramente cívicos. Pode-se pensar em muito poucos nesse sentido: Anita Garibaldi? Castro Alves? José do Patrocínio? Euclides da Cunha? Mário de Andrade?

O tom geral com que é tratada a figura pública no Brasil — nos livros, no teatro, no cinema — também não ajuda muito. D. João VI vivia a traçar frangos. D. Pedro II, um valetudinário, quase um autista diante da realidade. Santos Dumont, um dândi efeminado cheio de achaques. Que fazer se o que nos chega dessas personagens é raramente uma representação mais complexa e menos caricatural? Há muito pouco por onde colher imagem. Nossos espelhos foram trincados em sete vezes sete anos de azar. 

Neste contexto, o livro O Poder e a Peste, A Vida de Rodolfo Teófilo, do jornalista e escritor Lira Neto, surpreende. Por nos colocar diante dos olhos a figura singular do sanitarista e escritor cearense Rodolfo Teófilo (1853-1932).

As condições sanitárias das cidades brasileiras no final do século passado eram terríveis. Tifo, cólera, febre-amarela, varíola. Em 1862, a cólera vitimou quase um terço dos seis mil habitantes de Maranguape, cidade nas cercanias de Fortaleza. Em 1878, a varíola mataria um quinto da população da capital cearense.

Rodolfo Teófilo, filho de médico, conviveu desde o berço com essa realidade pouco auspiciosa. Cedo ficou órfão. Teve de trabalhar como caixeiro e suportar humilhações. Driblou-as. Mais tarde, diplomou-se em Farmácia, em Salvador. Ao regressar a Fortaleza, sintetizou uma vacina contra a varíola e, praticamente sozinho, sem qualquer respaldo governamental, muito ao contrário lançou-se à tarefa de imunizar toda a cidade.

O Poder e a Peste traça o perfil desse Dom Quixote cearense. A biografia não se furta à tarefa de nos apresentar também um personagem complexo, marcado pela contradição. Teófilo era adepto das teses positivistas e das concepções raciais de Nina Rodrigues. Acreditava mesmo que as mazelas sociais brasileiras e o atraso do país se devia ao caldeamento das raças. E, ainda assim, lutou diuturnamente para salvar a vida da "sub-raça bárbara" que entendia encontrar ao redor.

Esse homem obstinado ainda encontrou tempo para escrever 28 livros; aderir à causa abolicionista; militar na Padaria Espiritual; espécie de agremiação literária que, mais pelo comportamento irreverente de seus membros e menos pelo teor do que escreveram; antecipa o modernismo no Brasil; e, como se não bastasse, foi inventor da cajuína; não só do produto, como também do nome.

Narrada de forma anedótica, mas inscrevendo as anedotas dentro do contexto da macro-história da época, o livro esboça um vigoroso painel da sociedade brasileira do início do século. Um percurso que inclui a abolição dos escravos; que, no Ceará, deu-se quatro anos antes de no restante do Brasil; a queda da monarquia; o apogeu e decadência da oligarquia Accioly; a instigante mobilização popular em torno da figura de Marcos Franco Rabelo; o curioso episódio da Sedição de Juazeiro, envolvendo o legendário Padre Cícero e seu sinistro braço político, o deputado Floro Bartolomeu – que, no Rio, urdiu com o todo-poderoso caudilho gaúcho Pinheiro Machado o rearranjo do jogo oligárquico no Ceará; o flagelo das secas; a migração dos cearenses para a Amazônia; e, claro, as terríveis epidemias.

O livro está escrito num registro leve, didático; mas longe deLira Netovulgar. Salta à vista o sistemático emprego de termos e expressões com um certo travo arcaico-regional. Estas expressões assomam como um recurso muito efetivo. Coisas como "bodejado", "papangu", "visagem", verbos como "brechar", emprestam o condimento necessário para que a biografia drible tanto a chatice da tese acadêmica como a eventual planura da reportagem jornalística. O fato de ser fartamente ilustrada com fotos de época parece clamar também pela leitura dos mais jovens.

Alguns episódios são narrados com perícia artesanal. É o caso do lúgubre trecho em que, durante uma epidemia de cólera, Teófilo leva o corpo de uma irmã mais nova para o cemitério dentro de uma caixa de costura; ou do que propositalmente estoura uma garrafa de champanhe sobre os convidados de seu patrão, o Barão de Aratanha; ou mesmo como quando ao assumir a direção da Padaria Espiritual, um reduto de boêmios inveterados, não só muda o local das reuniões de um café para sua própria residência, como substitui a cerveja pela cajuína.

Mas, sem dúvida, os trechos mais significativos são os que tratam da verdadeira cruzada que Rodolfo Teófilo empreendeu contra a varíola. Sua devoção à causa é tocante. Ele chega a montar um posto de vacinação (ou vacinogênio) em sua própria residência. E, vai além, percorre à cavalo os cortiços da periferia de Fortaleza, e atinge o cúmulo de inventar histórias de santos, autoproclamar-se agente do governo ameaçando com multas, ou, em última instância "comprar com o dinheiro do próprio bolso o consentimento dos mais renitentes" à vacina.

Rodolfo Teófilo tomou sobre os próprios ombros uma responsabilidade do Estado. E não fraquejou. Mesmo quando o próprio Estado, por conta de mesquinharias da política local, tratou de descreditar seu esforço junto à população. Seus livros não conhecem reedições há muito e seu nome é muito pouco conhecido para além das fronteiras do Ceará. Numa época em que cidadania provavelmente sequer era um termo da moda, este homem tinha a exata noção do que isto significava. E não a
vendeu barato. À exemplo de Odele, a pequena porta-bandeira da Liga Feminista Franco Rabelo, que, em janeiro de 1912, na chamada Passeata das Crianças, sitiada pela cavalaria e sob a ameaça de balas perdidas, restou impassível no centro da praça até o final da carga. Seu retrato, a mais bela foto do livro, parece estranhamente atual.

Desde o equilíbrio invulgar do texto que viabiliza sua acessibilidade, passando pela coleta de expressões regionais, o suporte da iconografia e o registro romanceado do livro, Lira Neto faz com que tudo conspire para um atrevimento maior: o de tomar um tema da província e inscrevê-lo numa perspectiva mais ampla. Talvez dela esteja um tanto ausente a própria palavra de Rodolfo Teófilo; muito pouco citada ao longo da obra. E se em parte isto é suprido pelo tom romanceado da narrativa, como quer o autor na introdução, este ainda não é recurso o bastante que justifique a
omissão.

De qualquer modo, o mérito maior de O Poder e a Peste está em desprovincianizar o Brasil. Em abolir a fronteira do local. E habilmente. Afinal, como diz Robert Creeley, "o local não é um lugar mas um lugar em um certo homem"; a parte desse lugar para a qual ele tem sido impelido ou trazido pelo amor, para dele dar testemunho".

 

 

Manoel de Barros

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), João Batista

 

 

 

 

 

22/09/2005