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Linhares Filho

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Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:

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Maria Helena Nery Garcez

 

Maria de Lourdes Hortas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

 

 

Cussy de Almeida

 

 

 

 

 

 

 

Antônio Houaiss

 

 

 

 

 

 

 

 

 Carlos Augusto Viana

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

1.4.2007

 

Carlos Augusto Viana


O discurso lírico de Linhares Filho

 

A singularidade das artes reside em sua matéria, isto é, a natureza de seus instrumentos de realização. No caso específico da poesia, depara-se o sinuoso império da linguagem por que ela se tece.

Notícias de Bordo, ed. UFC, 2007,

169 páginas, R$ 20.00
 

O poeta, lavrador da linguagem, criador do estado poético, pode até não refletir sobre tais realidades, mas, intimamente, reconhece o alimento de sua missão; como, por exemplo´, na abertura do livro, com os versos de ´Notícias de bordo - poemas selecionados´: Sou, sobretudo, o que compõe sonatas / de luz e cores, com as notas do tempo, / para deleite da vida e alívio do mundo. / O que persegue pelo espaço, a cada metro, / emoções para o filtro do poema.

Compondo ´sonatas´, a partir dos rastros que a condição humana imprime nos espaços múltiplos de sua passagem, o poeta tanto rompe a crosta onde adormece a polpa que renova a existência como, através da sublimação, produz lenitivo e incentivo para as novas jornadas. Assim, passo a passo, lança seu olho sobre o que aos outros assoma como insignificante, tornando o mundo menos invisível.

Linhares Filho, poeta, sabe que a vida é um amealhar de perdas; dentre estas, a mais indelével, a mais inexorável, é a que nos apresenta a lâmina irremediável da morte. Esta, ao contrário da poesia, é o exercício da não-linguagem, uma vez que estende entre o vivo e morto uma ponte instransponível, uma escada, cujos degraus são líquidos silêncios. Quem olha um morto mastiga os grãos da incomunicabilidade; posta a lápide, advém a pólvora do nunca mais.

Mas, poeta, Linhares Filho comunica uma possibilidade outra: a recuperação, pelo discurso poético, do que o real palpável tira de nós, como um emblema de nossa precariedade. Assim, dribla o tempo e reordena, na vivência do sensível, com o ferro das letras, o que, então, impunha-se como falta. Tal atmosfera envolve o poema ´A minha mãe, habitante da morte´, conforme os versos:Tua branca rede já não se arma / para a sesta. Todavia guardo, / com o ranger longínquo dos armadores, / a placidez de teu sono, / a entreter o meu sonho. / No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave. / À mesa posta, entre o apetite e a lembrança / há uma cadeira sem dono. [...] / No silêncio noturno, não se ouvem mais / os passos cautelosos, com que fechavas / a janela que dá para a rua, / no entanto percebo, / na lã escura da noite, / o abrigo de teu xale.

O reencontro com a mãe, como se vê, dá-se no âmbito da subjetividade. Um tom de pacificação integra a atmosfera de todo o poema. Confrontam-se, assim, dois tempos - o da vida e o da morte - mas ambos estão impregnados da mesma sensação de paz. O encontro da vida com a morte é como o prolongamento de um estado de absoluta harmonia. O espólio materno compõe-se tão-somente de dois objetos concretos: a rede e a cadeira -e estes reproduzem, com a idéia de descanso e alimento, num lance antecipatório, aquele encontro da vida com a morte. O mais que abriga a memória do eu lírico são o gemido dos armadores, de uma janela, a cautela dos passos. Em tudo, assoma o inefável, o incorpóreo. O poema se fecha com uma sucessão de imagens, não só belas, mas, sobretudo, raras: ´no entanto percebo, / na lã escura da noite, / o abrigo de teu xale´. Trata-se, portanto, do encontro para o reencontro.

Se, no poema, o eu lírico recupera um momento com a mãe, sofre aquele, por outro lado, um instante de epifania: o xale, superpondo-se por sobre a noite, anuncia-lhe que ela, a mãe, o espera, com o seu amparo, quando ele receber, também, a visita da morte - representada, antes, num verso intrigante, hermético, mas, agora, penetrável, compreensivo: ´No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave´.

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Junot Silveira

 

 

 

 

 

 

Linhares Filho

 

 


Uma leitura de Saramago

Ensaio sobre a cegueira


 

Trata-se de uma alegoria como o são A Jangada de Pedra e Todos os Nomes, aquele sobre o iberismo e este acerca do projeto de busca ontológica. O livro em estudo também constitui um romance dissertativo, conforme o próprio título o indica e, portanto, um romance de aprendizagem como Nome de Guerra, de Almada Negreiros, e vários de Raul Brandão, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira e Clarice Lispector. O sopro do existencialismo ontológico, que ilumina atitudes do Modernismo e do Pós-modernismo, sente-se no Ensaio sobre a Cegueira,1 que é uma narrativa pós-modernista pelo assunto, por muitas técnicas usadas, notadamente o caótico conteudístico-formal, coincidentes com as do nouveau-roman. Ainda quanto à caracterização estética, verifica-se que essa narrativa apresenta alguns traços da tensão maneirista ("Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem" – p. 310) e certa atitude do Barroco não só pelo detalhismo algo conceptista mas ainda por privilegiar a visão. Além disso, há no texto uma intensa marca neo-realista que, pelas aberrações retratadas, descamba, às vezes, para um flagrante Neo-naturalismo. A ironia e o poético alternam-se, por vários passos, o que ocorre em toda a obra de José Saramago.

Pode-se indicar este tema ou síntese de trans-modelo2 para a narrativa: A exemplaridade trágica da cegueira como situação extrema de uma realidade adversa, que obriga o homem a ver melhor a sua essência, e como apelo à responsabilidade dos que enxergam. Focaliza-se no livro a gravidade e a confusão do mundo atual, em que a cegueira aparece muito bem empregada como o desvario da humanidade, portanto como metáfora da falta da razão nos homens. Os vários acontecimentos ficcionais em torno dessa cegueira "representam uma coisa para dar idéia de outra" segundo a estrutura da alegoria. Constata-se que, ao lado de uma narração rigorosa em seus detalhes, em que se descreve a ocorrência e as conseqüências desastrosas de uma epidemia inusitada e inexplicável, a de uma cegueira "branca" e não escura, vai-se insinuando o implícito de uma cegueira moral, verdadeiro objetivo da mensagem do livro. O autor apresenta um quadro horripilante de como o mundo ficaria com o agravamento dessa cegueira. Por suas próprias palavras, Saramago, numa entrevista, falando sobre o livro em causa, diz que nos dá uma "imagem do mundo em que vivemos; um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo."3

Não se pode deixar de fazer aproximações intertextuais entre o texto de José Saramago e alguns outros, diante da generalidade da cegueira no romance do escritor português. Também genérica é a senectude que há nos habitantes da vila do "anti-romance" Húmus, do simbolista Raul Brandão. Genérica, outrossim, é a loucura da população que Simão Bacamarte encerra na sua casa de orates, a Casa Verde, do conto "O Alienista", de Machado de Assis, sendo significante que, no Ensaio sobre a Cegueira, o lugar da quarentena dos cegos fosse um antigo manicômio: isso tanto lembra o conto machadiano como a implicitude da sem-razão das pessoas cegas. Quase genérica, ainda, é, a nosso ver, a "anormalidade" sexual de muitos textos da segunda fase da ficção machadiana, nos quais descobrimos uma latência sensual consciente,4 que constituiria uma camada ficcional, que se assemelha, embora concebida sob um intuito mais lúdico (delectare) e não tanto doutrinário (docere), como o de Saramago, ao alegórico da narrativa deste.

É digna de sublinhar-se a força de convencimento da linguagem do ficcionista luso, que torna verossímil o absurdo que propõe, construindo um texto com minudência de descrições, sutileza de detalhes, rigor de informações, equilíbrio de imaginação, só destilando, de raro em raro, sugestões da alegoria.

Passamos a anotar espécies de chaves de tal alegoria nestas doze passagens: Parece uma parábola, falou a voz desconhecida, se queres ser cego, sê-lo-ás. (p. 129) O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos. (p. 131) Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, (p. 135) levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam, (p. 135) Talvez eu seja a mais cega de todos, já matei, e tornarei a matar se for preciso. (p. 188) Mortos porque cegos, cegos porque mortos. (p. 241) [...] tudo o que pudesse servir para limpar um pouco, ao menos um pouco, esta sujidade insuportável da alma. Do corpo, disse, como para corrigir o metafísico pensamento, depois acrescentou, É o mesmo. (p. 265) Não se perca, não se deixe perder, disse, e eram palavras inesperadas, enigmáticas, não parecia que viessem a propósito. (p. 279) ao menos devíamos não ser cegos, disse a mulher do médico, Como, se esta cegueira é concreta e real, disse o médico, Não tenho a certeza, disse a mulher, Nem eu, disse a rapariga dos ósculos escuros. (p. 282) É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver, (p. 283) mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, Já estamos meio mortos, disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher. (p. 288) Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem. (p. 310)

A primeira passagem insinua, como as demais, que a cegueira do romance é metafórica, espiritual e depende de uma acomodação ou uma anuência da vontade. A segunda sugere ser um processo a cegueira, culminando com a instalação definitiva da doença, e responsabiliza o medo, que é sintoma de nossa época, pelo aparecimento de tal moléstia. A terceira suscita a cegueira como embotamento da razão, por ver a luta como idéia fixa de apaixonado, caso em que se retrata o egoísmo. O quarto passo, uma fala do médico oftalmologista, intertextualiza a afirmação de Vieira de que os "olhos são as janelas da alma" e sugere que, se eles se perderam, a alma sumiu, ou seja, a essência do humano extinguiu-se. A quinta passagem citada, voz da mulher do médico, a personagem que, por sua responsabilidade, por seu espírito solidário, de serviço ao semelhante, não cegou, reconhece a culpa do homicídio, ainda que este fosse por humana vingança, ainda que por justa defesa do coletivo. A sexta passagem coincide com a concepção do vivo morto, que anula o fantástico das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Acrescente-se a essas reflexões esta complexa afirmativa confirmatória da alegoria do livro na voz do velho da venda preta: "Quem vai morrer, está já morto e não o sabe". (p. 196) No sétimo trecho, o pensamento da mulher do médico, captado pela onisciência subjetiva do narrador, confunde a alma com o corpo, mostrando que na limpeza exterior aproveita o interior, e fazendo ressaltar-se o metafísico da alegoria. O conselho do oitavo passo é emitido pelo escritor, personagem que se identifica com o narrador, e adverte a mulher do médico a continuar firme em sua bondade e em sua missão de ajuda, pois isso é que significa não se deixar perder. As palavras dele, ditas "inesperadas, enigmáticas", parecendo sem "propósito" apontam para o sentido implícito da alegoria. O nono passo põe em dúvida a concretude e realidade da cegueira. O décimo corrobora o sentido do primeiro. O décimo primeiro aponta para a necessidade da recuperação, da cura, que é uma ressurreição metafórica e, na contestação da mulher do médico, há o aceno da esperança do ressurgir. O último trecho citado insinua que a cegueira de que se trata, não é definitiva nem real, mas alegoricamente um estado e, nos paradoxos maneiristas, encontra-se a confirmação mais cabal de que existe um sentido sotoposto para a cegueira no romance.Muito significante da falta de identidade das pessoas é a técnica do anonimato das personagens, que são conhecidas por profissões, por algum sinal exterior ou por alguma ocorrência existencial. O incêndio, descrito com exemplar coerência, significa baliza entre duas situações, mudança de estrutura ou recomeço, e pode lembrar, intertextualmente, desde incêndios famosos como os de Sodoma e Gomorra e o de Tróia até os mais modestos, porém significantes, como o de A Selva, por Ferreira de Castro, o de O Barão, por Branquinho da Fonseca, ou o de A Paixão, por Almeida Faria.

A dessacralização, própria da obra de Saramago, encontra-se, no livro em estudo, sob dois aspectos, o da concepção de que os humanos é que criam a divindade ("as imagens vêem com os olhos que as vêem") (p. 302) e o da insinuante suposição de uma impiedade e improvidência divinas ("esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver.") (Ibidem)Ocorrências dignas de nota no romance são a violência dos cegos "malvados", quadrilheiros; o flagrante da cópula do médico com a rapariga dos óculos escuros, ao serem os dois observados pela mulher dele; abnegadas reações de compreensão dessa mulher diante do que observa entre os amantes; o ato comovente do cão das lágrimas, que solidariamente as enxuga com a língua, ao descerem pela face da mulher do médico; e as confissões amorosas, recíprocas, do velho da venda preta e da rapariga dos óculos escuros.

O valor existencial-ontológico do livro é muito forte e coordena-se com o sentido da alegoria, pois se insere bem no âmago do ensinamento da mensagem. A falta de liberdade como aquela a que se submeteram os cegos na quarentena das camaratas, impedindo-os de se realizarem como pessoas, alia-se à força das circunstâncias, como a fome e as necessidades sexuais, levando muitos a atos escabrosos, a aberrações, a crimes. A falta de identidade humana é conseqüência daquela cegueira coletiva, que leva a esta reflexão: "uma pessoa se habitua a tudo, sobretudo se já deixou de ser pessoa, e mesmo se não chegou a tanto". (p. 218) Quanto ao poder do circunstancial, que se incorpora à essência humana, não esquecer a ponderação de Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minha circunstância e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim."

É de admirar-se que a rapariga dos óculos escuros, "que não passou por estudos adiantados", tivesse a intuição do ontológico, a essência ou o espírito, que o médico se propõe ver nos olhos das pessoas, caso volte a enxergar: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." (p. 262) Mas é a mulher do médico que, na sua responsabilidade e na sua ajuda aos semelhantes, cumpre a missão de testemunha e de exercer o Mitsein heideggeriano5 (Ser-com-alguém, por extensão Ser-com-os-outros), porque ela é "a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o." (p. 262)

A noção de que a linguagem funda o Ser6 insinua-se em alguns passos. A figura de um escritor como personagem, a registrar os acontecimentos do mundo da cegueira e a refletir sobre aspectos de linguagem, sugere essa noção. Tal personagem confunde-se com o narrador no registro desse mundo, sendo ainda significante o fato de, em vários pontos da narrativa, a terceira pessoa heterodiegética misturar-se com uma primeira pessoa do plural homodiegética ou mesmo autodiegética,7 processo algo caótico, pós-moderno, pelo qual o autor se insere, numa espécie de lirismo comunitário,8 na problemática diegética e ontológica da efabulação do romance. Este diálogo entre o escritor e a mulher do médico sobre a inutilidade do adjetivo faz-nos concluir que o poder expressivo da linguagem funda o Ser: "Quer dizer que temos palavras a mais, Quero dizer que temos sentimentos a menos, Ou temo-los, mas deixámos de usar as palavras que os expressam, E portanto perdemo-los". (p. 277)

Por outro lado, questiona-se a própria Literatura por meio da força da circunstância. O princípio da imortalidade da obra desaparece, se a cegueira geral elimina a possibilidade de consumidores da arte literária ("Mas escreveu livros, e esses livros levam o seu nome, disse a mulher do médico, Agora ninguém os pode ler, portanto é como se não existissem.") (p. 275) E as diferentes pregações na praça são uma babélica manifestação, que representam o caos. Isso e o fato de faltar o discurso da organização, que havia entre os cegos comandados pela mulher do médico, constituem uma contribuição da alegoria em termos de linguagem.

Mas, como toda navegação e todo descobrimento devem ter o seu escrivão da frota para dar significação ao ato, toda epidemia e toda catástrofe devem possuir o seu comunicador, a lavrar, com linguagem fundadora, a escritura dos fatos. Daí que, assim como se concebeu, no Ensaio sobre a Cegueira, um quadro horripilante da falta de razão dos homens do mundo atual, imagina-se a recuperação coletiva da visão num visionarismo feito de louca esperança, uma utopia poética que coroa a alegoria desse monumental romance, a indicar aos homens como é doce e pacífica a lucidez de quem sabe enxergar, para que se salve o mundo. Esse visionarismo acena para a possibilidade, embora tênue, de uma reconstrução do universo, anulando os efeitos da assertiva da própria voz do narrador: "a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança". (p. 204) Desse modo, o último verbo da epígrafe, oriunda do Livro dos Conselhos – "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" – deve de ser lido com plurissignificação: fixa a atenção, observa; corrige, remedeia e, sobretudo, recupera.Trata-se, pois, de um dos mais impressionantes e bem construídos romances de José Saramago, em que técnicas narrativas pós-modernas se colocam a serviço de uma mensagem humanística de primeira plana e atual, iluminada por uma atitude existencial-ontológica e veiculada por um narrar alegórico, em que o extraordinário se equilibra artisticamente com o verossímil.


 

Referências Bibliográficas

1. SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Utilizaremos essa edição para referências no corpo do trabalho, indicando-se a página competente.

2. Cf. PORTELLA, Eduardo. Fundamento da investigação literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1974. Trata-se do modelo aberto do entre-texto, que é a tensão entre texto e pré-texto ou entre língua e linguagem, noções expostas e discutidas nesse livro.

3. SARAMAGO, José. In: BERRINI, Beatriz. Ler Saramago: o romance. 2. ed. Lisboa: Caminho, 1998. p. 135

4. Cf. LINHARES FILHO. A metáfora do mar no Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978. Cf. Idem. Ironia, humor e latência nas Memórias Póstumas: Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1992. Nesses livros o autor expõe e discute esse conceito.

5. Cf. HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução Márcia de Sá Cavalcanti. Petrópolis: Vozes, 1988. p. 164 e segs.

6 ______. Introdução à metafísica. Introdução, tradução e notas Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969. p. 168

7. Cf. GENETTE, G. In: REIS, Carlos, LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988. p. 118 e segs.

8. Noção equivalente ao que Cassirer define: lirismo como "situação humana prototípica." Cf. CASSIRER, Ernst. In: RICARDO, Cassiano. Algumas reflexões sobre poética de vanguarda. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1964.

 

 

Elaine Pauvolid

 

Eleuda Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ana Mary C. Cavalcante

Jornal O Povo, Fortaleza, Ceará

Do amor e seus Drummonds

Poeta de sete faces, o mineiro Carlos Drummond de Andrade foi desprezado em seu amor. A crítica literária o preteriu em favor da palavra mesma, do sentimento do mundo. Para reparar o dano, o professor e escritor cearense Linhares Filho lança O Amor e Outros Aspectos em Drummond, hoje, no Ideal Clube

Ana Mary C. Cavalcante
da Redação


[27 04h09min]

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

(''Poema de Sete Faces'', Alguma Poesia, 1930)


Difícil imaginar que o autor de livros como Amar se Aprende Amando e de versos assim: ''Amor, a descoberta / de sentido no absurdo de existir'' tenha pecado contra a natureza humana. Pois imaginaram.

''Acha a crítica que o amor seria despiciendo em face dos temas maiores - a própria poesia. Poesia essa que ele, como tema, questiona. A crítica acha que temas maiores de Drummond são o aspecto social, o metafísico e a busca do ser (o existencial-ontológico) - nos quais o amor está inserido. E acham que o poeta, em toda sua obra, buscou menos o amor do que isso aí. Eu só acho que ele, ao lado desses temas maiores, se vinculou muito ao amor, de ponta a ponta da sua obra. O amor, em Drummond, orienta muito o aspecto existencial-ontológico (a realização do ser) e está muito presente, sobretudo, nos últimos livros''.

A nova leitura é do professor e escritor cearense Linhares Filho e resulta do Doutorado em Letras Vernáculas (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1981). O estudo vem a público com o livro O Amor e Outros Aspectos em Drummond (Editora UFC), que será lançado, hoje, no Ideal Clube.

''Parto da obra em si - do chamado método operocêntrico - para, depois, me ajudar com os aspectos extrínsecos à literatura: o sociológico, o psicológico, o filosófico, etc. Faço isso utilizando dois grandes métodos: (primeiro) o existencial-ontológico, ou seja, o método hermenêutico. Em sentido restrito, a interpretação do texto ligada aos parâmetros do existencialismo-ontológico (sobretudo, aos parâmetros da filosofia de Heidegger) e, em sentido amplo, a interpretação de modo geral. Depois, o outro método: o estilístico-retórico, ligado aos estilistas espanhóis. Vou fazendo o levantamento dos esquemas do autor e chegando da micro-estrutura à macro-estrutura para uma definição global em que o juízo de valor deve prevalecer. Juízo de valor que se baseia na resposta à pergunta: 'Houve criatividade?. Mais ainda: 'O texto interpreta o homem?'.

Meandros acadêmicos que buscam extrair o supra-sumo e, traduzidos para o senso comum, revelam outra face do poeta de Itabira - apontado como expoente do Modernismo.

''As linhas do texto é o que, talvez, na concepção de Drummond, fossem 'as impurezas do branco'. Mas vamos buscar, como críticos, o 'branco das impurezas'. O que é fornecido pelas entrelinhas e não, propriamente, pelas linhas do texto... Esse caminho dele, percorrido em toda obra, em relação ao amor - amor que vai orientar tudo mais na obra. Depois - esse outro aspecto não é descoberta minha -, a aporia de Drummond, a dúvida dele dar prevalência a um indivíduo, ou ao exterior. Antônio Cândido focalizou muito esse aspecto: Drummond esteve se debatendo com inquietudes para determinar a matéria da sua poesia. Ora ele privilegia o indivíduo, o lirismo, ora o exterior, o social... Que outras coisas eu vi que outros não viram? Esse relacionamento mais profundo com Fernando Pessoa, Camões, com outros poetas da literatura portuguesa. Por incrível que pareça, o poeta moderno Drummond cultuou muito o velho Camões. Ele soube fazer isso muito bem: amparar o erudito sem deixar de ser moderníssimo. Drummond é um parâmetro de modernidade''.

O Amor e Outros Aspectos... também oferece ao leitor uma visita ao cotidiano poético drummoniano, com capítulo de abertura sobre as fases do escritor mineiro. Há, ainda, textos da safra do poeta Linhares Filho e novos estudos dos derradeiros livros de Carlos - Corpo (1984), Amar se Aprende Amando (1985) e Farewell (póstumo, 1996). Palavras-acessórios.

''(No livro) há três momentos principais. Primeiro, 'O amor antes do tempo' (presente em Boitempo, Alguma Poesia, Brejo das Almas). O poeta se depara com o amor de um modo intuitivo: é o menino, o adolescente que adivinha o amor, mas ainda não tem consciência bastante dele. É aquele amor inquieto, do menino e do adolescente que não sabe o que seja o amor, mas sente qualquer coisa que descreve como algo que o leva para o sexo, para a apreciação da mulher. Num segundo momento, 'A tortura e o consolo do amor' - o amor, aí, seria ambíguo. E 'O amor em seu tempo' é o amor da madureza, que poeta encara como algo aprendido pelo espírito, mas já não é tempo físico de amar. Quando o físico já não atende aos reclames do espírito, o espírito sabe amar''.


E é a melhor fase, a da madureza? (Uma pergunta que, por força do assunto, confunde professor e homem).

''Você está perguntando a mim se eu considero a melhor fase? (risos) De certa forma, hoje é uma fase até interessante, inclusive, com a possibilidade de você reativar as forças com certas drogas... É uma fase que deixa você com uma certa serenidade, um certo amadurecimento, uma certa quietude para saber das manhas do amor. Inclusive, é uma fase em que ele (Drummond) escreve Corpo - que, pelo título, sugere muito erotismo, quando é um texto mais metafísico do que, propriamente, erótico. Um texto de completa madureza, em que ele está disposto a amar, sabe o que é o amor, embora o físico não acompanhe os reclamos do espírito. Uma frase muito interessante dessa fase: 'Amar, a descoberta de sentido no absurdo de existir'. Isso diz tudo da posição existencial-ontológica dele, em que o amor é a única coisa que se salva na vida''.

Em síntese,

''O que ele (Drummond) concebeu sobre a excelência do amor dando sentido à vida é o que vai ficar. Como ele diz: 'O meu amor é tudo que morrendo, não morre todo. E fica no ar, parado'. O poeta fica pela grande lição que ele nos deu a respeito não só do amor, mas da experiência do homem. Acima de tudo, a experiência poética que ele nos deu. É a poesia de Drummond, pela valorização que nos deu da palavra que, acima de tudo, fica e vai valorizar os temas que ele explorou. Tem uma potencialidade muito grande de arte para orientar a vida humana, para orientar a busca do ser - que é infinito''.

SERVIÇO:

O Amor e Outros Aspectos em Drummond (Linhares Filho. Editora UFC, 148 páginas. R$ 15,00) - lançamento, hoje, às 20 horas, no Ideal Clube (Avenida Monsenhor Tabosa, 1381, Meireles). A professora Odalice de Castro e Silva, do Departamento de Literatura da UFC, apresenta o livro. Também haverá a participação do grupo Versos de Boca e do Coral de Câmera do Ceará.



O AUTOR

Linhares Filho, 63, ensina Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC). Poeta e ensaista crítico, é também Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ, tendo publicado seis livros de ensaio (sobre Machado de Assis, Fernando Pessoa, Miguel Torga e Carlos Drummond de Andrade). Desde 1980, integra a Academia Cearense de Letras e a Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro.


O LIVRO

O Amor e Outros Aspectos em Drummond é uma publicação que se insere nas comemorações do centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). A festa maior será em outubro próximo, mas, desde o ano passado, o País se organiza para o aniversário. Em Fortaleza, Linhares Filho é um dos responsáveis pelo calendário de celebrações da data, vinculado à UFC.

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