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Manuel Sérgio   

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

 

Henry J. Hudson, Neaera Reading a Letter From Catallus

 

 

 

 

 

 

Goya, Antonia Zarate, detalhe

 

 

 

 

Manuel Sérgio


 

Carta ao Soares Feitosa

 

Lisboa, 23 de janeiro de 1997

Meu caro Soares Feitosa (ou melhor, meu caro Poeta)

Ainda não estou ligado à Internet, mas já estou ligado fraternalmente a si, porque sou seu leitor e admirador.

Se o mundo fosse dos poetas, como o Soares Feitosa, então seria verdadeiramente Natal!

Segue justamente um livro de minha autoria. O livro pouco é, mas a simples oferta que significa a muita admiração pelo baiano-cearense "Cidadão do Mundo", Soares Feitosa.

Ex corde,

Manuel Sérgio
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

Manuel Sérgio


 

Com dedos de luar


Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada


Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório


Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), girl

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Edna Menezes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

Manuel Sérgio


 

Senhor


Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida


Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia


Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus


Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus


Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

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Andréa Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Manuel Sérgio


 

Maria


Maria trazia no ventre um menino. Para ela que enchia
as horas pensando no filho nascituro, o menino era um ser
sobrenatural. Por isso, num ritmo apressado de passos,
voou pela paisagem doce da Galileia, a comunicar
a sua prima Isabel que, dentro em breve, daria à luz.
E fê-lo num tão cândido hino de amor à vida
que a prima rasgou os lábios num canto rubro de admiração:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!
Maria respondeu com o Magnificat, onde se reconheciam ecos de todas as mães do Mundo. E nem sequer uma palavra
de incerteza lhe murchou os lábios. Os sonhos das mães
não têm princípio nem fim...

 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Yêda Schmaltz