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Tércia Montenegro

Theodore Chasseriau, França, 1853, The Tepidarium

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Contos:


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

Da Vinci, Homem vitruviano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake, Death on a Pale Horse

 

 

 

 

 

 

Dellano Rios

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

22.6.2008

 

 


 

Para além dos gêneros

 

 

Uma das principais autoras cearenses das últimas décadas, Tércia Montenegro lança novo livro e discorre sobre a escrita literária

Tércia Montenegro é daquelas autoras que mergulham na literatura. Não a encara como hobby e fez dela sua profissão - leciona literatura e fez nesta área seus estudos acadêmicos. A escritora não se mostra muito interessada nos debates que insistem em colocar homens e mulheres como que em lados opostos em um campo - no caso, literário. O que não quer dizer que ela desdenhe da discussão ou deixe de ter um posicionamento a respeito.

Uma das principais vozes das novas gerações da literatura cearense, Tércia Montenegro acredita que os preconceitos existentes são de outra ordem. “Não acho que tenha sofrido preconceito por ser mulher. Acredito até que isso tenha me dado um destaque, já que era a única mulher desta geração, a mesma do Pedro Salgueiro”, avalia. “O preconceito que sinto é por ser nordestina, da dificuldade de achar uma boa editora, que distribua nossos livros”, crítica, fazendo eco a uma reclamação recorrente.

A expressão literatura feminina é olhada com certa desconfiança, “se você estiver falando em ‘feminina’ no sentido de existir um conjunto de características fixas, como se toda mulher escrevesse dessa maneira”. Tércia questiona considerações do senso comum, que veria na escrita das mulheres uma tendência maior ao psicologia e ao intimismo. “O que quero dizer é que as características não são permanentes. Por acaso, uma pessoa negra faria uma literatura diferente dos demais escritores apenas por ser negra?”, questiona.

“Existem estudos estilísticos, estatísticos até que pretendem fazer um levantamento sobre as escritoras. Eles podem chegar a alguns dados, como, por exemplo, que as mulheres adjetivam mais que os homens. É algo interessante, mas pense no leitor comum. Ele sente isto quando está lendo? Acho que não”, comenta. Tércia Montenegro deixa entrever que sua preocupação é outra, com o texto e o leitor.

E foi em sua condição de leitora em contato com o texto que se aconteceu seu despertar literário. “Quando comecei a ler, lia mais autores que autoras por uma questão de quantidade, pois o universo de homens publicando era maior. Com isso, fui criando uma idéia de que a literatura era meio que um território masculino. Eu tinha essa vontade de contar histórias, mas era como se meu sexo me impedisse de ter uma carreira futura. A epifania aconteceu quando li, aos 12 anos, ‘Antes do baile verde’, da Lygia Fagundes Telles. Eu via o nome feminino, a foto da Lygia e os contos fenomenais. Foi como, se a partir dai, houvesse uma permissão: as mulheres podem escrever. Foi o que me livrou do fantasma que tinha criado”, relembra a escritora.

Seguindo os passos: E foi com autoras como Cecília Meireles e Clarice Lispector que Tércia Montenegro herdou seu gosto pela literatura infantil. Às 17 horas, ela lança seu terceiro livro para crianças, no auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste. “Vítor cabeça-de-vento” foi ilustrada pelo artista plástico Glauco Sobreira. Tércia apresenta um conto, mais “leve” que sua literatura adulta, protagonizado pelo imaginativo Vitor.

 

 

 

 

Manoel de Barros

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

 

São Jerônimo, de Caravagio

 

 

 

 

 

Tércia Montenegro


 

Salomão


 

Começo pelo título — Salomão — que, à primeira vista, já traz a sensação das coisas grandiosas, guardadas no inconsciente: o rei de Israel, sucessor de Davi, edificando o Templo, deixando as marcas da sabedoria na história do Homem. A impressão se confirma. Salomão, negro-moleque, resíduo do escravo e do divino, caiu “direto dos deuses”. Sua trajetória é a dos oprimidos do Novo Mundo, nos caminhos de arrastar os pés e os grilhões. A liberdade — bem amada — era quase um sonho balançando nas águas, preso no navio negreiro.

O mar e o morro — limites que não passam de mentiras a esses homens, visionários, instintivos, imortais.

Cada movimento é parte da Canção dos Séculos, como um grito primitivo, a palavra borgiana — desconhecida. A Canção do Mal (ou da Vida) é a própria letra que se perdeu do verso, fugiu da rima. Ainda resta a esperança do Menino Maiúsculo contra a humanidade, esfinge devoradora (“Decifra, negro, me decifra o enigma!”) O novo tempo se anuncia. Está edificado agora o tempo das coisas eternas. A obra, a palavra — a letra! — é a sabedoria. E Salomão é o rei-guerreiro, raça nova e perene, rompendo fronteiras. Salomão é um grito. Infinito. Ressoa nas mentes, como uma canção perdida.
 



Ticiano, O amor sagrafo e o profano, detalhe

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