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Adriles Ulhoa Filho 

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Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ticiano, Salomé

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

Adriles Ulhoa Filho


 

Nota biográfica:

 

Adriles Ulhoa Filho nasceu em Paracatu, Minas Gerais em 05 de setembro de 1937.

Membro da Academia de Letras do Noroeste de Minas, onde ocupa a Cadeira nº. 6, cujo patrono é Virgílio Martins de Mello Franco.

Bancário aposentado, residiu por 28 anos em São Paulo, SP. Reside atualmente em Belo Horizonte, MG.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

Adriles Ulhoa Filho


 

1º email:

Psi, a Penúltima

 

Caro poeta Feitosa,
 

Ontem foi dia de ler o Psi, a penúltima da sua magnífica lavra de poemas. Encantadora, fa-bu-lo-sa mesmo a sua fábula! Seria desrespeitoso com o amigo dizer que é psi-cografia. Estaria negando a sua autoria, passando-a para alguém do lado de lá, não é mesmo? Mas como você contou em uma das suas entrevista que a coisa veio de estalo cheguei a pensar nisso: só alguém com muito tempo e paz para mandar uma dessa de supetão.

Desculpe a brincadeira que não pude evitar. Cutuquei o incrédulo!
Bem, Poetão, gostei muito de ver as fotos da 3ª Cururuzagem que você promoveu. Que belo exemplo para nosotros vis vítimas da maldição das estantes, que ainda não desprendemos do nosso egoísmo, nosso falso-amor pelos livros possuídos. Mas tenho esforçado para divulgar - e praticar - esse seu exemplo.
 



 

2º email:

Panos Passados:

 

Amigo Feitosa,

 

Estava eu hoje a percorrer a relação dos seus poemas, buscando os ainda não havia lidos, e fui cair (que sorte!) no Pano. Confesso que fiquei até engasgado (Ih! será que esta palavra tem, no Ceará, o mesmo sentido - sem voz - cá de Minas?

Bateu saudade da infância, no noroeste de Minas, onde nasci. É região que comparo, no período de seca, à do interior do nordeste brasileiro: quente e de chuvas incertas. Ora chove muito, ora é grande a estiagem que causa grande sofrimento aos sertanejos, apesar de possuir a região vários córregos e rios, mas que vão aos poucos secando. Virando esgotos das cidades, e das mineradoras.

Mas, as suas águas-de-beber, águas-de-brincar, águas-de-viver, fizeram-me lembrar da velhas cisterna de minha casa (mais de 10 metros de profundidade, perfurada e calçada de tijolos pelo poceiro Pedro Capeta) e que até os anos 50 era a principal fonte d' água para o consumo doméstico.Bati foi muito sarilho!

Também, quantas vezes com o pano passado,  montado no lombo do meu piquira, ou sentado no celim da Hercules do meu irmão, vi minha rota camisa inflar às minhas costas!! Deu saudade!

Coisa de velho, no range-rede, com diz o Riobaldo.

Obrigado por mais esta!

 

Um grande abraço.

 

Adriles

 


3º email:

 

Soares Feitosa,

Poeta?! Como adjetivar esse proficiente criador de belezas?

Recebi, caro amigo, os esperados papé e saboreios bem ao estilo sucuri. Devagar... devagarinho, para não acabar logo e não perder o sabor.

Já passei pela encantadora Caixa Postal 317, e por aquela outra, a 3065, do poeta Ascendino Leite na sua viagem para cutucar a onça.

Passei também pela caixa de fósforos (sua Auschwitz) com os pobres besouros aprisionados, roncando, imitando os antigos rádios de botão de girar. Pesquei muitos corrós (aqui em Minas chamamos mesmo de tilápias) que comi assados ao espeto.Que belas imagens! (De darem inveja ao fantástico mexicano Juan Rulfo de Pedro Paramo e  dos contos Planalto em Chamas). O seu (SF) Joelhos & Mel, é também maravilhoso!

Já repassei a maldição das estantes e espiei um monte de vezes as fotos da educativa função da Biblioteca Cururu distribuindo livros. Que beleza! Parabéns, outra vez.

Ontem, no final da tarde, após sofrer com o meu Flamengo, foi a vez de apreciar o Estudos & Catálogos - Mãos, e aprender um pouco de arte e de letras serifadas. Catálogos e tarefas, d`Ele e d`Ela, tudo abarrotado de muita inteligência. Tenho de ler várias vezes para aproveitar bem,

Femina, O prisioneiro, Architectura...

Bem, já tomei muito o seu tempo...e também ainda não li Do 4º Panfleto, o que preciso fazer.  

Envio-lhe meu agradecido abraço.

Adriles

Link para Psi, a Penúltima

 

Link para Panos Passados

 

Link para Joelhos & Mel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

Adriles Ulhoa Filho


 

Do tempo...


Sou do tempo, seu moço,
que os campos e espaços
eram livres.
Podíamos por eles caminhar
sem receio de abordagens:
“por invasão de propriedade”
“suspeição de má intenção”
ou,
“ter que pagar pedágio”.
Do tempo de liberdade
verdadeira,
sem adjetivações.
Do tempo de subir
e descer livremente ladeiras,
falando aos barrancos piçarrentos.
De banhar nos córregos,
pescar piabas,
e do dormir cedo.
Do tempo
que o próprio tempo
consumiu...


BH - 04/04/2005

 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Nirton Venâncio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

Adriles Ulhoa Filho


 

O casarão


I

Era um lindo casarão de fazenda!
Adobes crus e madeiras de lei - lavradas a machado e enxó,
trabalho de negros escravos e de oficiais carpinteiros.

Muito trabalho certamente! Muito suor...
Muitas vidas ali perdidas. Muitas lágrimas derramadas!

A cumeeira alta e quase todo o teto sem forro,
dava gosto ver a arte!

Nos quartos, forros de esteiras
pardas, bonitas...Um trançado de bambu.

Ripas de buriti, bem serradas - de boa largura,
ligando roliços caibros de pindaíba-do-brejo.

Telhas coloniais enormes e pesadas,
pelo tempo patinadas em variadas cores.

Assoalho de tábuas negras: landim, sicupira...vinhático,
largas, compridas, lisas, de tanto o pano passar.
Rangiam sempre ao pisar!

De grossas aroeiras os esteios de sustentar portentoso teto.
Vigas de angico, pau d`óleo e do duradouro jatobá.

Paredes rebocadas e pintadas à cal.

Portas altas, largas, de uma só folha, sustentadas por dobradiças de ferro-batido,
e que se trancavam por taramelas..

Sala, quarto, corredor, quarto, quarto...
Vários quartos!

Enorme copa!
Mesa grande, ladeada por comprido banco sem encosto.
Armário escuro de madeira nobre,
mesa pequena, e filtro de barro(ou era um pote? não sei!)

Canapé e redes para o cochilo - para a sesta, no canto do vasto varandão.
Janelas!Quantas janelas!Com vista para o pomar, com vista para o curral!

Junto à copa uma despensa com tulhas de cereais.
Prateleiras suspensas, com queijos e rosadas rapaduras.

Outro corredor, outra despensa e, só depois, a alta cozinha.
Piso de ladrilhos encardidos, paredes negras, fogão de lenha,
forno de barro...Picumã!

O terreno em declive desde a copa até a cozinha formava um grande porão.
Porão de vários cômodos de variado usar:
depósito de ferramentas, arreatas,
guarda de velhos móveis e de utensílios fora de uso.

Fervilhava vida no casarão!
Peões, vaqueiros e agregados, toda hora a discutir, toda hora a circular.

Visitas chegavam sempre:
- Olá!
- Bom dia! Como está?
- Tá bão?
- Vamos entrando!
- Senta aí!
- Toma um café? Coei agora!

Lida intensa.
Gado inquieto na mangueira, carro de boi cantando no morro,
suados cavalos atados no moirão defronte a casa.

Tinha festas no casarão!
Lembro-me até de uma. Não sei se baile, pagode, ou forró!
Talvez um simples arrasta pé festejando um aniversário,
e que varou a noite toda.


II

Depois...
Depois veio o tempo.
Passando, passando... passando!

O tempo passando e as pessoas passando!

E o fim do casarão.

Foi ficando triste e feio, semi abandonado!
Paredes mostrando os rubros adobes
na falta de bons cuidados.

Buchas e são caetanos invadem e sobem às paredes.
Juá bravo, assa-peixe, unha-de-gato e caruru espinhento,
aproximam-se da casa.

Uma ponta de telhado não resiste,
e cede ao peso
de enorme borá (mija-fogo).

Caixa d’água vazando noite e dia,
a água de serventia mandada lá do Grotão,
Despenca!
Cai do jirau e se espatifa no chão.

Assisti
(triste obra do destino a que não fui convidado)
uma de suas últimas vigas descer!
Mais de sete metros se estrondando no chão!

Nada falei, mas engoli seco.
Engoli grande tristeza

E pra não restar mesmo nada,
veio uma máquina barulhenta
(trator de lâminas afiadas)
e aplainou todo o lugar.

Revolveu todo o chão antigo
numa fúria sem motivo, sem nenhuma razão de ser.
Em busca de um tesouro que ali diziam ter!

Buscariam naquele chão uma arca do tesouro?
Algum pote com moedas?

Nada encontraram por certo, pois era só ilusão!
Tesouro, nunca existiu, pois nada ali foi enterrado.

Corrijo. Existiu e já foi tirado!
Foi retirado e com juros do que se plantou na boa terra!

E veio o eu-menino, chegou e disse pra mim:

“O tesouro era a casa, seu bobo, as dores, e alegrias das muitas vidas ali vividas!”.


BH - 13/05/2003

 

 

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

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Pedro Lyra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Adriles Ulhoa Filho


 

Restauração


Gosto de andar por suas tortas ruas,
recolocando coisas nos seus lugares:
as velhas pedras,
as velhas casas,
seus velhos postes,
adro da igreja...
E suas escadas.
Reergo monturos, cavo buracos,
Arranco asfalto e recoloco grama.
Tudo,
na rapidez que o pensamento pode.
Dou voltas,
desfaço ruas,
pinço aqui, colo acolá.
Replanto árvores,
(e companheiros)
que fazem falta
no seu moldurar.
Abafo sons
para ouvir o sino,
e o bater amigo de
uma cancela.
Ignoro ruas (novas),
desço ladeiras (empoeiradas),
em direção ao Córrego
de águas cristalinas.
Escuto o galo,
ouço os cachorros,
gargalhadas,
alarido de crianças,
e o mugido ao longe de uma velha vaca.
Atravesso quintais,
de frutas-fartas
e delicio com os seus sabores.
E vejo o Morro (1) que não mais existe,
E vejo a Praia (2) que também morreu!
Apago as casas erguidas no Alto (3),
só para ver a Lua grande sair.
Dar boa noite
e se despedir do sol.
Reponho as cores
simples,
singelas,
dos casarões que se abraçam.
Refaço o banco do jardim da Igreja,
e nele sento com a garota linda,
de sorriso lindo,
que me estende os braços.


BH 29/09/2003.

(1) Morro do Ouro
(2) Praia do Lajedo
(3) Alto do Córrego


 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Yeda

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Márcio Catunda

 

 

20.04.2005