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Culpa

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

Luís da Silva Araújo


 

Femina, de Soares Feitosa


 

Meu amigo, li os Poemetos. Não posso falar deles com a leveza que você fala por dois motivos: primeiro, porque me falta o jeito; segundo, porque, depois que aqueles figurões falaram... eu vou dizer o quê? Eu não ousaria porque não sou besta e de bobo só tenho o jeito de falar e de andar, ainda assim porque sou mineiro...

Mas tem um problema, meu amigo, eu não posso resistir e,Ruth, by Francesco Hayez assim, como quem não quer nada... Rapaz... que maravilha essa negação de FEMINA. Essa negação a que chamo falsa, mentirosa, porque você disse não quando dizia sim. E o sim não foi porque o dissesse, que na verdade, ele não está explícito, mas pela idéia positiva que você arrancou a cada "não", quando foi capaz de materializar toda a sua ânsia, todo o seu desejo e toda essa agonia por essa mulher que parece fugir, talvez queira fugir, ou esteja deveras fugindo, e que você a conserva na essência daquela abstração que, agora, se tornam toda a matéria para a sua vida.

E o "modo mulher" - a meu ver - não é outra coisa senão uma armadilha, como o néctar, como o pólen e como o doce de que se revestem as plantas carnívoras, só para agarrar as carnes que elas precisam comer... E finalmente, quando o poeta diz que lavou a alma, aí é que ele não lavou nada... porque se aqueceu em todos os calores, se envolveu com todos os sons, se perdeu em todos os rastros e se benzeu na profanação duns olhos. Aí é que ele não lavou nada, meu poeta amigo, que perdido estava no túnel dos espelhos, na miríade das imagens que se encaixam, infinitamente, uma dentro da outra na superfície do vidro como fora uma areia movediça que engole um corpo para não devolvê-lo nunca mais... e não podia lavar nada... Pra mim, meu amigo, uma jóia, e não sei dizer mais que isto.

Mas eu vou ler mais vezes. Preciso encontrar umas coisas ali. E eu sabia, meu caro amigo, que aqueles livros eram só um excerto... afinal, eu não vi a numeração das páginas?

 

Vai um abraço.

Luís

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

Luís da Silva Araújo


 

Soneto


Sinto faltar-me a vida no momento
em que percebo como estou doente
porque de mim, ó Deus, o complemento
está faltando pois está ausente...


Sinto o meu peito sufocar contrito
na (ho)ra mesma que me foge o alento,
num desespero que explodindo em grito
desmistifica até meu pensamento.


Porque me falta nesta vida impura
o que mais quero e que (a)té já tive
e mais não tenho e que preciso agora;


Pois a ilusão cruel que em mim perdura
é que enlouquece a minh’alma que vive
na perdição do amor que foi (em)bora.


CPE-MS, 28:12:93
13:05

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

 

 

 

 

 

Luís da Silva Araújo


 

Soneto


Vivi vagando (ao) longo dos anos
na tentativa de achar o motivo
para quebrar os grilhões do cativo
que eu próprio fui com os meus desenganos.


Corri paragens em busca de alento
para encontrar a razão da alegria:
toda a certeza de um raro momento
que (ao) Demônio ou a Deus eu pedia.


Mas não achei nos lugares que andei
a recompensa com que (eu) sonhara
nem a alegria que andava buscando.


E na verdade, que foi que eu achei?
- Mero suplício que a nada compara,
que lentamente me vai sufocando...


CPE-MS, 29:12:93
01:06


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Luís da Silva Araújo


 

Soneto


Sonhei um dia um sonho verdejante
num paraíso de beleza e flor
em que eu passava como um viandante
que ruminava (o) seu dissabor.


Pois que difícil pra mim era ver
do paraíso todo aquele brilho
quando encontrava (eu), só (em)pecilho
ao que eu queri(a), e até pra viver...


Porque no sonho (o) que eu vi foi tédio
que desgastou (a) minh'alma cadente
nos descaminhos de vil falsidade.


E na ilusão que eu estou sem remédio
faz-se moléstia o meu sonho candente
de fogo feito, de sal e ruindade.


CPE-MS, 29:12:93
13:09


 

 

 

 

 

 

08.09.2005