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Maria do Carmo Vieira-Montfils

Poussin, The Empire of Flora

Poesia: 


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Alguma notícia do autor:

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Bio-bibliografia


Maria do Carmo Vieira nasceu em Lisboa, em 1952. Licenciada em Filologia Românica (1975), com mestrado em Literatura de Viagens (1996) e professora aposentada do Ensino Secundário (2014). Com um grupo de colegas, formou a Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT, 2015) integrando a sua Direcção.

Em 1985, ano da comemoração dos 50 anos da morte de Fernando Pessoa, criou, com os seus alunos de Português do 11º ano, um movimento em defesa da preservação do Café Martinho da Arcada, de que resultou a sua classificação de interesse público. Ainda com esses alunos, e outros apoiantes do movimento, fundou a Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada (APAMA,1987), a qual entre outras iniciativas promoveu o concurso (1987) e as obras de restauro do velho café (1990).

Como presidente da APAMA, coordenou, com Rui Mário Gonçalves, a publicação de um livro de pintura, de influência pessoana, intitulado Passo e Fico, como o Universo. Coordenou a fixação do texto de Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente de Fr. João dos Santos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999). É também autora dos livros Sobre Fernando Pessoa (1993), A Arte, Mestra da Vida (2008) e O Ensino do Português (2010) e co-autora de Reinventar Portugal (2012).

Formadora de Professores de Português em Instituições públicas e privadas, tendo sido a última formação no Instituto Camões, em Vigo, para professores de Português, de nacionalidade portuguesa e espanhola (Novembro 2014). Tem publicado, em jornais diários e semanários e em revistas, inúmeros artigos sobre o ensino do Português e o absurdo que significa o Acordo Ortográfico de 1990, e participado também em conferências, debates e entrevistas sobre as mesmas matérias.


(Texto redigido em 22.03.2023)

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils


 

From: "Maria do Carmo Vieira" <mcvieira@telupton.com>

To: <soaresfeitosa@secrel.com.br>
Sent: Monday, February 26, 2007 12:29 PM
Subject: Dedicatória


Poeta Soares,

O sentimento não precisa de muitas palavras... está aí a prova, nesta
DEDICATÓRIA!


Maria do Carmo Vieira

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

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Sergio Godoy

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Aurora Boreal


O que vejo
não passa de um lindo arco-íris no céu,
fugaz.
Sedutor espectro de luz
que um conjunto de circunstâncias faz
e que o acaso produz.
Assim como o acaso genético que sou,
à deriva em um mar de acasos
em que me decomponho
- ao vento dos eventos,
o acaso em que, no último momento,
morro,
fugaz.
Posso escolher a cor lilás
como minha preferida,
embora seja azul a mais querida,
mas isso não altera em quase nada
o meu peso.
Há que ver-se, um dia,
uma aurora boreal
de uma noite sem fim,
iluminar o ocaso,
varrer, em labaredas,
o céu cruel do acaso

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

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Regine Limaverde

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Sem Motivo


Queria um poema leve,
suave,
um poema como a neve,
branco.
Que, mesmo sendo manco,
fluísse solto, isento,
como o vento.
Um poema sem quotidiano,
sem nação,
como ouvir piano.
Um poema sem razão.


 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Inez Figueredo

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Canto Triste


A voz ártica do frio canta
e pergunta-me se existo.
Eu a deixo entrar
pela fresta da janela invulnerável.
Mas não insisto,
pois venho de um país do sul,
diferente,
embora também tenha Norte,
embora seja quente.
Isto parece-lhe inviável.
Outro pólo,
um sul tão frio,
isto parece-lhe improvável.
No entanto, é sua irmã que canta,
lá,
talvez em tom mais triste e sombrio.

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Adriana Zapparoli

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils


 

Esperança de Cactos


Vejo-te num vulto com teu mesmo andar,
em meio ao tumulto, em meu mal-estar.
Na confluência das ruas,
tua ausência aparece
nas mesmas roupas só tuas.
Teu vago olhar não te conhece.
Não me viste...
Acho-te em meu devaneio,
em um outro país.
Estou triste
por onde vagueio,
mais do que sou feliz.
Minha voz, quando falo,
queres dizer-me adeus,
eu te calo.
Sussurros ateus, que não são teus,
eu me confundo,
não os quero meus.
Guardo seco e santo o meu pranto.
Eu me inundo
como cactos
de esperança.
 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Roberto Gobatto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Fresta


Dizem que há estrelas lá no céu,
a não sei quantos anos-luz,
que não existem mais,
embora possamos, ainda, vê-las,
fulgurantes,
em noites de estrelas...
Mas o céu está mudo, nublado,
o ar parado ameaça temporal.
Onde andará minha estrela?
Minha guia e guardiã,
minha irmã,
onde andará?
Muito longe ou muito perto?
Existirá ainda?
Ou será apenas a sua luz que ecoa no espaço?
Sua ausência é infinda
em noites de mormaço...
Bradai aos céus, ó trovões!
Derramai todo pranto, ó nuvens!
Abri-me ao menos uma fresta para o infinito...

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

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Regine Limaverde

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Instinto Imortal


Por que dói tanto a morte de perto?
Por que o pranto?
Não seria o certo?
Que instinto ancestral,
em tão frágeis apriscos,
repudia seus riscos?
Que lei natural nos faz tão tristes?
Não seria o normal?
E por que dói tanto
esse instinto imortal?


 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Inez Figueredo

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Luto


Hoje, finalmente, quero despedir-me de ti.
Não que não te queira mais ao meu lado,
para escutar-me,
nas minhas aventuras, nas minhas descobertas,
nos meus lamentos e alegrias.
Em nome de um valor mais alto que o meu egoísmo,
deixo-te partir para os campos da felicidade,
com que sempre sonhaste.
Por tempo demais te retive.
Em sonhos, vi tua imagem,
senti teu abraço.
Em livros que li,
em cartas que escrevi,
vi teu pensamento.
Encontrei-te no brilho das estrelas.
Sei que tudo tentaste para me consolar.
Mas precisei desse tempo
para aceitar tua partida.
E mesmo isto compreendeste.
Precisei sofrer muito,
mas afinal entendi que tens o teu caminho
que é só teu.
E que deve ser percorrido com alegria.
Perdoo-me de minhas culpas,
pois sei que me perdoas.
Seja a tua felicidade
a minha paz.
Hoje, finalmente, quero despedir-me de mim.
Não que não queira mais ser como eu era,
quando estavas aqui.
Em nome de um valor mais alto que a morte,
retomo a vida.

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Adriana Zapparoli

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils


 

Mãos Pretas


As mãos pretas
de todos os dias,
que cozinharam para nós,
Anas, Lúcias, Marias,
eu saúdo em alta voz!
As mãos pretas,
Antônias, Angelinas,
sem asas,
que limparam nossas casas,
que lavaram,
passaram, engomaram,
Etervinas, Joanas, Malvinas,
quero a todas louvar!
Mãos pretas
de alegrias,
que nos levaram a passear,
quando éramos meninas,
pentearam nossos cabelos.
Às mãos pretas
de todos os desvelos,
uma homenagem,
humildemente,
à sua coragem,
um clamor veemente
para a glória
à sua memória.
 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Roberto Gobatto

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils


 

Nevasca


Veio uma treva branca e o seu silêncio.
Por um estagnado segundo,
eu fiquei só
e Deus.
O branco apagou sombras,
casas, árvores, a vida
e tudo o que é sombrio.
Todo esboço se desfez.
Na página branca,
o caminho se esvai
em sua infinitude.
Por um estagnado segundo,
o Grandioso envolveu a minha pequenez
e a minha solidão.
Por um segundo.
- Essa nevasca já dura tanto tempo...
 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Roberto Gobatto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



O Casamento


Que direi do casamento?
Eu, que sou feliz
porque quis...
No meu pensamento,
resta, ainda inteira,
alguma coisa solteira,
que é minha amiga
- a solidão sem par.
Ora ela se esconde
em algum lugar,
ora passeia de bonde.
Antiga,
ela vagueia
muito além do prazer,
no caminho de um trilho.
Ela aprende a viver,
falar, calar,
em seu idílio,
aprende a amar,
a solidão sem par.

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

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Regine Limaverde

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



O Perdão


O frescor do vento
do perdão isento
entrou pela porta,
corou-me a tez morta,
sufocada de prantos,
tantos
que nem sei.
Eterno aprendiz
dos erros que faço,
que fiz,
retomo meu passo,
sou feliz.


 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Inez Figueredo

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils



Poesia Útil


A minha poesia é inútil.
Mas continuo a escrever
talvez por algum motivo fútil...
Vaidade, prazer,
penitência, dor,
amor...
Versos existenciais,
outros circunstanciais,
não menos experienciais,
povoam meu pensamento.
Queria dar-lhes uma função
para o bem da humanidade,
para o seu desenvolvimento.
E que coubessem numa canção
com toda a serenidade.
Quem sabe se eu defendesse uma causa,
se eu falasse contra o racismo,
se eu lutasse contra o egoísmo
e o individualismo...
o mundo faria uma pausa?
A minha poesia é inútil.
Mas continuo a escrever
talvez por algum motivo fútil.

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Adriana Zapparoli

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils


 

Reticências


Eu vou deixar assim,
meu poema sem fim,
para a terra natal...
Se ele tem suas rimas,
por simples coincidências
e meras reticências,
é certo, não terá
nenhum ponto final...
Ai, saudosas colinas
das cidades de Minas,
enfeitadas de ruas,
de casas e cafuas,
de gente do meu jeito,
que eu guardo no meu peito...
 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Roberto Gobatto

 

 

 

 

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