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Maria do Carmo Vieira-Montfils
<mcvieira@gosympatico.ca>
Poemas extraídos do livro "Janela Virtual":
  1. Aurora Boreal
  2. Sem Motivo
  3. Canto Triste
  4. Esperança de Cactos
  5. Fresta
  6. Instinto Imortal
  7. Luto
  8. Mãos Pretas
  9. Nevasca
  10. O Casamento
  11. O Perdão
  12. Poesia Ùtil
  13. Reticências
MARIA DO CARMO VIEIRA-MONTFILS, mineira de Belo Horizonte, reside atualmente no Canadá.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
SEM MOTIVO

Queria um poema leve,
suave,
um poema como a neve,
branco.
Que, mesmo sendo manco,
fluísse solto, isento,
como o vento.
Um poema sem quotidiano,
sem nação,
como ouvir piano.
Um poema sem razão.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
CANTO TRISTE

A voz ártica do frio canta
e pergunta-me se existo. 
Eu a deixo entrar 
pela fresta da janela invulnerável.
Mas não insisto,
pois venho de um país do sul, 
diferente,
embora também tenha Norte,
embora seja quente.
Isto parece-lhe inviável.
Outro pólo,
um sul tão frio,
isto parece-lhe improvável.
No entanto, é sua irmã que canta,
lá,
talvez em tom mais triste e sombrio.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
FRESTA

Dizem que há estrelas lá no céu,
a não sei quantos anos-luz,
que não existem mais,
embora possamos, ainda, vê-las,
fulgurantes,
em noites de estrelas...
Mas o céu está mudo, nublado,
o ar parado ameaça temporal.
Onde andará minha estrela?
Minha guia e guardiã,
minha irmã,
onde andará?
Muito longe ou muito perto?
Existirá ainda?
Ou será apenas a sua luz que ecoa no espaço?
Sua ausência é infinda
em noites de mormaço...
Bradai aos céus, ó trovões!
Derramai todo pranto, ó nuvens!
Abri-me ao menos uma fresta para o infinito...

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
LUTO

Hoje, finalmente, quero despedir-me de ti.
Não que não te queira mais ao meu lado,
para escutar-me,
nas minhas aventuras, nas minhas descobertas,
nos meus lamentos e alegrias.
Em nome de um valor mais alto que o meu egoísmo,
deixo-te partir para os campos da felicidade,
com que sempre sonhaste.
Por tempo demais te retive.
Em sonhos, vi tua imagem,
senti teu abraço.
Em livros que li,
em cartas que escrevi,
vi teu pensamento.
Encontrei-te no brilho das estrelas.
Sei que tudo tentaste para me consolar.
Mas precisei desse tempo
para aceitar tua partida.
E mesmo isto compreendeste.
Precisei sofrer muito, 
mas afinal entendi que tens o teu caminho
que é só teu.
E que deve ser percorrido com alegria.
Perdoo-me de minhas culpas,
pois sei que me perdoas.
Seja a tua felicidade
a minha paz.
Hoje, finalmente, quero despedir-me de mim.
Não que não queira mais ser como eu era,
quando estavas aqui.
Em nome de um valor mais alto que a morte,
retomo a vida.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
POESIA ÚTIL

A minha poesia é inútil.
Mas continuo a escrever
talvez por algum motivo fútil...
Vaidade, prazer,
penitência, dor,
amor...
Versos existenciais,
outros circunstanciais,
não menos experienciais,
povoam meu pensamento.
Queria dar-lhes uma função
para o bem da humanidade,
para o seu desenvolvimento.
E que coubessem numa canção
com toda a serenidade.
Quem sabe se eu defendesse uma causa,
se eu falasse contra o racismo,
se eu lutasse contra o egoísmo
e o individualismo...
o mundo faria uma pausa?
A minha poesia é inútil.
Mas continuo a escrever
talvez por algum motivo fútil.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
O PERDÃO

O frescor do vento
do perdão isento
entrou pela porta,
corou-me a tez morta,
sufocada de prantos,
tantos
que nem sei.
Eterno aprendiz
dos erros que faço,
que fiz,
retomo meu passo,
sou feliz.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
MÃOS PRETAS

As mãos pretas
de todos os dias,
que cozinharam para nós,
Anas, Lúcias, Marias,
eu saúdo em alta voz!
As mãos pretas,
Antônias, Angelinas, 
sem asas,
que limparam nossas casas,
que lavaram,
passaram, engomaram,
Etervinas, Joanas, Malvinas,
quero a todas louvar!
Mãos pretas
de alegrias,
que nos levaram a passear,
quando éramos meninas,
pentearam nossos cabelos.
Às mãos pretas
de todos os desvelos,
uma homenagem,
humildemente,
à sua coragem,
um clamor veemente
para a glória
à sua memória.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
O CASAMENTO

Que direi do casamento?
Eu, que sou feliz
porque quis...
No meu pensamento,
resta, ainda inteira,
alguma coisa solteira,
que é minha amiga
- a solidão sem par.
Ora ela se esconde
em algum lugar,
ora passeia de bonde.
Antiga,
ela vagueia
muito além do prazer, 
no caminho de um trilho.
Ela aprende a viver,
falar, calar,
em seu idílio,
aprende a amar,
a solidão sem par.
 

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
INSTINTO IMORTAL

Por que dói tanto a morte de perto?
Por que o pranto?
Não seria o certo?
Que instinto ancestral,
em tão frágeis apriscos,
repudia seus riscos?
Que lei natural nos faz tão tristes?
Não seria o normal?
E por que dói tanto
esse instinto imortal?
 

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
AURORA BOREAL

O que vejo
não passa de um lindo arco-íris no céu,
fugaz.
Sedutor espectro de luz
que um conjunto de circunstâncias faz
e que o acaso produz.
Assim como o acaso genético que sou,
à deriva em um mar de acasos
em que me decomponho
- ao vento dos eventos,
o acaso em que, no último momento,
morro,
fugaz.
Posso escolher a cor lilás
como minha preferida,
embora seja azul a mais querida,
mas isso não altera em quase nada
o meu peso.
Há que ver-se, um dia,
uma aurora boreal
de uma noite sem fim,
iluminar o ocaso,
varrer, em labaredas,
o céu cruel do acaso.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
ESPERANÇA DE CACTOS

Vejo-te num vulto com teu mesmo andar,
em meio ao tumulto, em meu mal-estar.
Na confluência das ruas,
tua ausência aparece
nas mesmas roupas só tuas.
Teu vago olhar não te conhece.
Não me viste...
Acho-te em meu devaneio,
em um outro país.
Estou triste
por onde vagueio,
mais do que sou feliz.
Minha voz, quando falo,
queres dizer-me adeus,
eu te calo.
Sussurros ateus, que não são teus,
eu me confundo,
não os quero meus.
Guardo seco e santo o meu pranto.
Eu me inundo
como cactos
de esperança.

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
NEVASCA

Veio uma treva branca e o seu silêncio.
Por um estagnado segundo,
eu fiquei só
e Deus.
O branco apagou sombras,
casas, árvores, a vida
e tudo o que é sombrio.
Todo esboço se desfez.
Na página branca,
o caminho se esvai
em sua infinitude.
Por um estagnado segundo,
o Grandioso envolveu a minha pequenez
e a minha solidão.
Por um segundo.
- Essa nevasca já dura tanto tempo...

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Maria do Carmo Vieira-Montfils
RETICÊNCIAS

Eu vou deixar assim,
meu poema sem fim,
para a terra natal...
Se ele tem suas rimas,
por simples coincidências
e meras reticências,
é certo, não terá 
nenhum ponto final...
Ai, saudosas colinas
das cidades de Minas,
enfeitadas de ruas,
de casas e cafuas,
de gente do meu jeito,
que eu guardo no meu peito...

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