Jornal de Poesia

Virgínia Schall
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Dados Biográficos 

        Virgínia Schall, mineira de Montes Claros, psicóloga, com mestrado em neurofisiologia(UFMG) e doutorado em educação(PUC-RJ), é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, onde ingressou em 1981, sendo chefe-fundadora do Laboratório de Educação Ambiental e em Saúde (LEAS), do Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. Seu trabalho inclui a coordenação e criação de novos materiais educativos relacionados às ciências da vida e da saúde, alguns dos quais adotados pela FAE e pelo Ministério da Saúde, como a coleção "Ciranda do meio ambiente" e o jogo "Zig-Zaids". Concebeu o projeto original do Espaço Museu da Vida da Fiocruz, atualmente em implantação, congregando equipes multidisciplinares. Descobriu uma nova planta moluscicida, útil ao controle dos moluscos transmissores da esquistossomose, tendo obtido recentemente uma patente pelo processo de utilização da mesma. Tem cerca de 45 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais e 6 livros infantis, a maioria de divulgação científica. 

        Pelo seu trabalho, recebeu o prêmio José Reis de Divulgação Científica, do CNPq (1991). Como poeta, embora sem livro publicado, tem algumas poesias premiadas, publicadas nas antologias dos concursos de que participou. Recebeu  em março/96, o Prêmio Raul de Leoni, de poesia, da UBE(União Brasileira de Escritores), e em 1998, teve um poema premiado no concurso de poesias da Academia Feminina Mineira de Letras, Belo Horizonte. Tem 6 poesias incluídas no livro: Poetas de Manguinhos (Editora Fiocruz), 1997. [Notícia de dezembro de 1998] 



ÍNDICE DOS POEMAS: 
    ESTRANGEIRA 

    A noite é a mesma em todo um lado do planeta 
    e nela ocupo um lugar único 
    personagem entre tantos a compor a cena humana 
    sob o foco de luz de uma sala comum. 
    Nada há por sofrer, nada é urgente 
    os meus estão bem e eu aparento realizada 
    o cão me olha sereno por sobre o tapete 
    a filha organiza retratos na gaveta 
    a música encanta o ar fresco entre buganvílias rubras 
    de minha varanda camarote aberto para o mundo 
    descortino cintilâncias a tremular nas águas noturnas da lagoa 

    A noite é límpida e eu, lúcida 
    espreito a vida e escrevo 
    para entender d’onde vem tanta melancolia 
    de quem deveria estar a fruir esta harmonia 
    mas se debate trôpega à procura 
    tão plena de desejos e perguntas 
    disfarçando o coração inquieto 
    que teima em viajar por ontens e futuros. 
    Absorta em sonhos e platônicos amores 
    adentro atmosferas e penumbras 
    aspiro perfumes de outras eras 
    prenúncio de cálidos encontros. 

    Oh vida que escorre pelo dia 
    prestes a concluir-se para sempre 
    nunca mais será hoje outra vez 
    disso eu sei tão quanto aqui estou 
    e no entanto, esbanjo o presente 
    viajante estrangeira do meu próprio momento. 
    Haverá um tempo em que a memória dessa cena 
    será saudade e tristeza 
    por não tê-la vivido por inteiro.

            BEIJO 

            sua boca 
            uva rubra 
            roça meus lábios 
            e por segundos 
            somos murmúrios úmidos 
            seiva cósmica 
            de línguas 
            púrpuras 

PERSONA 

Minha alma feminina 
é tão antiga 
como o cheiro da terra 
que a chuva molha 
perfume milenar 
essência almiscarada 
que em muito mais de mil noites 
arde à espera. 
 

          SEGREDOS 

          D’onde veio a vida 
          a cavalgar esferas 
          a espiralar-se em galáxias 
          retorcendo-se em hélices? 

          D’onde sua memória 
          no eco sussurrado das ondas 
          nas odes sonoras das conchas 
          murmúrios ancestrais da existência 
          a borbulhar por  entre espumas 
          na cristalina taça oceânica? 

          D’onde o misterioso rumor 
          de marés  e corações pulsando 
          a embalar em sonho e sono 
          o silêncio oculto de um momento 
          a despertar-se súbito do nada? 

          Vida, que chega e sopra 
          suspira, se esconde e se revela 
          em entranhas secretas 
          concêntricas 
          completas. 

          Vida que em mim se indaga 
          e a par de tanto mistério, soberana 
          se emociona. 

 

Os poemas acima foram publicados em: Poetas de Manguinhos, Editora Fiocruz, 1997 
 

MINAS DE NATAL

Virgínia Schall

Minas nasceu assim:
Tesouro entranhado sob o recorte montanhoso
A luz se fez ouro por debaixo de seu manto
E a água teceu fios, matizes de teias, véus de seda congelados
Engendrando gemas de pedra, chão de arco-íris cristalizado
Entre verdes vales, cordilheiras e cascatas.

Minas renasceu assim:
Prenúncio engalanado de barrocos traços
Pela arte humana cinzelada
Como tela rara
Singrando céus em linhas sobrepostas
de torres e telhados.
Prelúdio de vidas entrelaçadas
Ao ouro, que recobriu de fé altares e amores
E  às palavras, que esculpiram hinos e poemas
Geminadas à música, sublime e rara.

A gente de Minas nasceu assim:
Talhada em ferro e amansada em fé
Retrato entrevisto na voz de seus múltiplos poetas
E em sua música, incenso de entranhas da terra
Som galáctico, uivo do universo
Que das igrejas voa ao mais alto
Ecoando no infinito, elevando-se em mito
Um misto de cristal da terra e cristal faringeo.

No Natal, Minas canta em voz de coro de meninos
Evocando a imagem de um outro menino
Que parece aqui nascido
Pousado em topázios e turmalinas
Trazendo nas mãos, gotas de amor em chuva
Amor sonorizado em fé por ondas cristalinas
Amor que no Natal resplandece
E que no gesto de entrega solidária
Herdado por sua gente, transparece
Um encontro do tesouro da terra com o tesouro d’alma.
 

 
 
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