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Artur da Távola

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Poesia :


Resenha, ensaios, crítica & comentário:


Fortuna crítica:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Artur da Távola


 

À Soares Feitosa



Grato pela suspresa de "Poemetos". Como aprecio o verso contido e quintessencial comoveu-me o "Femina", de alto e elevado erotismo quando fruto de amor. Nos poemas discursivos, compadre que sou do Thiago de Mello, percorri com você a troca vivencial e o acompanhei sobretudo na emoção com o Assum Preto. A primeira vez que o ouvi, criança ainda, fui à taquicardia e às lágrimas.

Sempre Mais,

Artur da Távola

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

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Rubens Ricupero

 

 

 

 

 

 

 

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Artur da Távola


 


Soneto Inascido


O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

 

Artur da Távola


 

Retrato


A dolorosa
e lenta
refeição do velho.
Sopas e papas insepultas
voracidade morta
lassa obrigação de alimentar.

Saliva é cuspe
o cuspe é baba
na dócil refeição do velho.

A lentidão exasperante
de quem come para não morer
e morrerá porém. Só

A dolorosa
e benta
refeição do velho.

A carne insulta-lhe
a indecisão do dente,
dor e cansaço no deglutir.

Tudo é torpor ou gole
na fome sem sabor
da refeição do velho.


 

 

 

Ticiano, O amor sagrafo e o profano, detalhe

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Lilian Mail

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

Artur da Távola


 

Autismo


O tédio que não revelo
resvala e vala na taquicardia
do sorriso emoliente
em minha ativa participação.
A morte, amiga de infância,
palpita vida na força do meu viver.
Sou segredos, dons, acasos e órfão,
silenciados em músicas e pickles.
Meu menino, a cirurgia, aquele cão, o não,
a morte do pai e minha irmã
moram anônimos
no quarto e sala da alma.
Falo o que calo
sinto o que guardo
sob outro eu igual ao mim
bem melhor, porém.
Mas autista.
O sexo implícito, o tesão abissal,
a gula mamada,
a timidez flatulenta,
jazem no fundo do meu mar.
Escafandro-me, debalde.
Calo constatações,
blasono brilhos
suicido sonhos,
calafrio-me a colher náuseas
e navego fés esperançosas.
Sou sem teto de onde salto
para o chão do não ser.
Minha blandícia
quem acarinhará?

 

 

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

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Micheliny Verunschk

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

Artur da Távola


 

O Peixe


Cego e sagaz
tudo vê e nada sabe.
Mudo e falaz
é lâmina sem espada,
folha elegante de matéria
do abissal silêncio onde reina sem querer.

O peixe cumpre rituais
que desconhece.
Pecilotérmico,
é faca, escama, escuna
de peso levitado e fléxil.
Respiração sem ar.
O peixe escamoteia a inércia
e re-inaugura
a gratuidade do movimento
que o conduz à não direção
onde se esconde, copula,
e consome o invisível.

 

 

 

William Blake, Death on a Pale Horse

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Myriam Fraga

 

 

15/01/2007