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Myriam Fraga 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, crítica, resenha e comentário:


Alguma notícia da autora:

 

Myriam Fraga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

Myriam Fraga


 

Reconhecimento da poesia de Soares Feitosa

 

Francisco José Soares Feitosa, 50 anos, cearense, com passagem pelo Recife, até o ano passado jamais escrevera um poema. De repente baixou o santo — ou o daimon — e o verbo cristalizou-se em poemas de personalíssima feitura a mostrar sentimento e erudição, pois se não era de escrever, Feitosa era de ler (e muito!). E o que era represa fez-se catarata, torrente explodindo por todos os lados, enchendo laudas e laudas com seus rios de tinta.

Soares Feitosa é um homem de muitos instrumentos. Nascidos nos sertões, hoje passei com segurança no reino da informática e ao tempo em que a poesia se revela corre em editá-la no computador, que vai transformando em livros artesanais, quase cadernos de poesia, que passa a distribuir entre os que julga interessados e interessantes. Por conta dessa atividade, hoje coleciona uma seleta fortuna crítica onde ponteiam nomes como Gerardo Mello Mourão, Francisco Brennand, César Leal, Nauro Machado, Artur Eduardo Benevides e outros expoentes.

Como não se forma público apenas com poetas e críticos, Soares Feitosa ampliou seu círculo de possíveis leitores e passou a enviar poemas a personalidades da vida pública brasileira. Alguns responderam a seu apelo com entusiasmo, outros protocolarmente educados, mas qual não foi a surpresa do nosso poeta ao receber uma mensagem Rubens Ricupero, de próprio punho, onde o ministro assinala com muita propriedade a impressa causada pela leitura dos poemas, fala de suas próprias incursões "pelo mundo inesgotável da poesia", cita Erza Pound e finaliza carinhosamente com "abraços poéticos".

Tomando conhecimento desse fato, começo a crer que realmente vivemos um momento muito especial. Temos um ministro da fazenda que, além de crer em Deus, também crê na poesia. A ponto de, em meio a tantas atribulações compromissos, ter tempo de escrever pessoalmente a um poeta quase desconhecido! Talvez seja um sinal de que ainda é possível ter esperança.

 

[A Tarde, 25.8.1994, Myriam Fraga, coluna Linha D'água]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

Myriam Fraga


 

A cidade


Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.


Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.


Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.


Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.


E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.


Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.


Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

Myriam Fraga



Maria bonita


Esta noite em Angico
A brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.


Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como quem lava
A casa;
Águas frescas na tarde.


Tuas limpas carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.


Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar,
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira.


Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos


Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.


Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabes desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?


São teus olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.


Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.


Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.


Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto do sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço.


Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata,
Sou a ponta
De teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
sou teu leito
De angico e alecrim


Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.


Sou tua fera. Sussuarana
No escuro — bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme.
Sou o parto
Da morte que te espreita.


Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.


Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.


Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.


Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,


A noite é vasta.
Vem devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.


Teus beijos como
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.


Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
— Fúria e falta —
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele de meu peito
Esta fome sem data.
 

   

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Weydson Barros Leal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

Myriam Fraga


 

Salomé


Tantos anos depois
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...


— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.


— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.


Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.


A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.


Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.


O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.


Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.


O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.


Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.


Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,


Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.


E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.


Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
 

   

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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Maurício Matos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Antonia Zarate, detalhe

Myriam Fraga



Sete poemas
 


I
 


Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.


Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.


Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.


Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.


Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,


O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo


A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.



II
 


... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços


E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.


Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.


Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,


Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.



III
 


Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...


Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.


Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,


Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos


Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama


O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.



IV
 


Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.


Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.


Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...


Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?


Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?


Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,


Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde


Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,


Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!


Sem norte, sem destino, sem chegada...



V
 


Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...


Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.


Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.


Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,


Aves reinventando minhas mágoas.



VI
 


Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?


E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?


Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos


Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?


Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,


Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,


Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...


E este gosto de viver
Como quem morre.



VII
 


Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...


Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...


Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.


Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.


Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.


Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,


Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.
 

   

 

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João Scantimburgo