Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Benedicto Ferri de Barros 

benedictobarros@yahoo.com

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, resenha, crítica & comentário:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

Benedicto Ferri de Barros


 

Endereço postal:

 

Rua Heitor de Moraes, 409
(011) 3865-5684 
01.237-000 - São Paulo - SP

bdebarros@sanet.com.br

 

 

Biografia:

 

  • Membro da Academia Paulista de Letras e da Academia Internacional de Direito e Economia). Caipira do Vale do Paraíba, nascido em Formoso (São José do Barreiro), divisa com o estado do Rio, em 1920.

  • Casado, com bodas de ouro, 3 filhos, 8 netos.

  • Formado em Ciências Sociais pela USP, com viagens de especialização no mercado financeiro dos Estados Unidos.

  • Professor, jornalista, empresário, ensaista e poeta.

  • Lecionou política, economia e mercado de capitais, na USP e na Getúlio Vargas. Deu cursos de mercado de capitais nos maiores bancos brasileiros e por todo o Brasil.

  • Na área financeira, editou O mercado de capitais norte-americano, Mercado de Capitais e ABC de Investimentos, Dez Es-tudos sobre o Mercado de Capitais.

  • Colunista de O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde (Azambuja Leal) durante 29 anos, e colaborador de seus suplementos culturais.

  • Visitou os Estados Unidos e a Europa várias vezes e foi ao Japão a convite do governo japonês.

  • Sobre o Japão publicou Japão - a harmonia dos contrários e Viagem ao Japão. Tem inédito O caminho do japonês.

  • Como empresário, produziu mais de 5.000 unidades habitacio-nais e foi o introdutor no país da industrialização da la-ranja e do leite esterilizado.

  • Como poeta editou Rapsódia de Ouro Preto. Tem inéditos 4 livros de poesia, 4 livros de tradução de poemas da língua inglesa e um livro de ensaios e crítica: Poesia, poemas e poetas.

  • Tem 13 obras inéditas, entre elas Zig-Zag (noveleta infantil) e Apontamentos Filosóficos - e não coligidos, estudos de Economia, Política e Antropologia.
     

Seus livros inéditos de poesia, sobre poesia e traduções de poemas inglesas serão remetidos gratuitamente a quem os solicitar, via Internet, no endereço acima.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

Benedicto Ferri de Barros



Dedicatória
 

 

Leões passeiam sua juba imponente
à frente de teu esquálido esqueleto.
És um pedinte que tem fome,
sarnento fraldiqueiro, um cão sem nome?
Serás um homem? Um caniço pensante?
Um bípede sem penas, ou um rinoceronte apenas?
Sofres de angústia existencial ou medo, simplesmente?
És um obreiro do transcendental
ou só um inocente?
 

   

 

Culpa

Início desta página

Nei Duclós

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Antigona,detail

Benedicto Ferri de Barros


 

Provação

 


Já não tens pai, patrão, nem rei, herói, guru ou deus.
Ninguém de fora ou dentro que te dê certeza
e te ordene ou diga o que fazer.
Perdeste o útero materno, o lar, a taba, a igreja
e a nação, urbi et orbe, no universo,
não há lugar em que te possas abrigar - ou esconder.
 


Nem uma corda ou prancha, cabide ou salva-vidas
resta: nenhuma fé, rumo, ou cruzada
a que te possas agarrar para sobreviver.
Solto no espaço, rolando pelo tempo
é esta agora a humana condição:
és livre e só, sem opção.
 


Então, não tens escolha:
tens de encontrar teu próprio jeito de viver ou encontrar
a corda e o poste a que te possas suspender.
 

   

 

Um esboço de Da Vinci

Início desta página

Luiz Bello

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

Benedicto Ferri de Barros



Em louvor de Geia
 

 

O amor é um paradigma.
Nossa cabana, a Terra.
 


Lá fora no infinito
o Céu está povoado de demônios e dragões;
faminta, a Entropia, velha Górgone, caça
e ejeta como gelo cada pingo de calor;
na treva universal, Buracos Negros
pastam estrelas aumentando a escuridão;
o Caos transforma os astros em poeira
que de sujeira contamina o espaço;
na fuga das galáxias que se esgarçam
o Vácuo amplia indefinidamente a solidão;
corpos celestes em órbitas erráticas
como projéteis lançam confusão...
Trevas e frio, silêncio e solidão
          progridem entre escombros e destroços
      da guerra cósmica sem tréguas:
   o verdadeiro Inferno encontra-se nos Céus.
 


         O amor é o paradigma.
Nossa cabana, a Terra.
         Aqui se faz a Criação.
 

   

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

Início desta página

Erorci Santana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

Benedicto Ferri de Barros



Carta a Gerontion

 

 
—Veja bem: agora já não há tempo
de você se aborrecer. Outrora
ignoravas que cada dia ou hora
podia terminar ou não acontecer.
Não por viveres na eternidade
mas na fugacidade mesma de teu ser.
Ignoravas como as algas teus limites
e como os fractais, as formas fixas.
Como partícula de vida desferida
no caos do universo, não tinhas coordenadas
nem história, tempo ou conteúdo.
Pura energia, ignoravas tudo.
 


Entraste em expansão após o big-bang do teu nascimento
e assimilando luz violavas sem saber a entropia.
Foste o cantor de um hino à alegria
o construtor da ilha da utopia,
a Civitas Humana onde a felicidade se renovava a cada dia
ignorando a morte, a sorte, toda a coorte da anarquia universal.
Até que um dia, como Atlas, te deste conta do reverso:
que carregavas nos teus ombros o universo
que construías às custas de teu ser.
Que transformando a luz em carne e ossos
e a carne e os ossos em sonhos fractais
ingressaras no tempo, na história, no destino
dos que se tornam devedores da usura da entropia
que cobra sonhos ao preço de destroços.
Já não és moço mais entre os mortais.
 


- Vê bem: já não tens tempo mais
de te aborreceres. Dobraste teu destino ao teu querer:
de luz apenas construíste um homem.
E essa luz que te alimenta e te consome
o bom, o belo e o verdadeiro
muito além de estrelas que cintilam e se extinguem
cria o Kosmos, que jamais termina. Jamais.
 

   

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

Início desta página

J. Romero Antonialli

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

Benedicto Ferri de Barros



Palimpsesto baseado em Maria
(Fragmentos de portulano para o terceiro milênio.)
 

 

Redigo o que
de mil maneiras já foi dito.
Raspada a crosta e o limo do macróbio
encontra-se o infante que sorria,
a cria, o criador e o incriado.
A aurora se repete a cada dia.
 


I
Dela, Maria, parti.
Não era nosso lar então
mais que uma cabana
na boca do sertão mégalo-metropolitano.
À porta nossos filhos dançavam de alegria
pela franquia que ganhavam do complexo edipiano.
Alguns usavam tangas e outros batucavam num piano
anti-diluviano a algaravia de um rock americano.
 


De anos-luz medidos em parsecs de distância
pelo meu rádio-portátil celular
me vinham de outra kalpa seus vagidos.
(ou seriam gemidos de um orgasmo?)
Ocultos no oceano Internético
hackers frenéticos arrasavam com ruídos
os meus ouvidos meramente humanos
obstruídos por coisas sem sentido.
 

 


II

 


O patrimônio cresceu no anonimato.
Perdeu-se o nome do inventor da roda
de quem fundiu o ferro e do primeiro tecelão.
Trocaram-se por mitos a marca do artesão.
Que importa o autor de dons se são gratuitos?
Onde andará o hausto do primeiro artista
que inoculou sua alma no caniço
e a transformou em música perpétua?
Que benefício acresce o nome à secreta alegria
do poeta que para a eternidade
gravou as renas nas paredes das cavernas?
A que ou quem, proveita a fama de modernidade?

 


III

 


Não vejo o chão juncado de cadáveres.
Todo o estrume dos homens que viveram
e o adubo dos homens que morreram
viraram húmus. E o sangue e os esqueletos
inumados, mesclados à luz tratada pelas plantas
pelas aletas de borboletas circulados
a Terra fecundaram. Criaram a seiva
do edênico jardim em que habitamos.
- Inda duvida? Toma uma rosa entre tuas mãos e olha.
 

 


IV

 


Que Éden do passado subsiste
que oblitere a memória da fome, da miséria
do fratricídio a que chamou-se glória?
O Éden é simplesmente o amuleto, o farnel,
o passaporte da mente na árdua caminhada pela história
que leva o peregrino do presente ao porto de chegada.
 

 


V

 


A enxurrada de utopias levou todos os ídolos
cuspidos em agonias como escarro.
Passou um novo dia.
Reconciliadas a cultura e a zoologia
primevas criaturas, animais e plantas
agora vivem do acalanto humano.
Deixou de ser perpétua a morte, o exílio, o esquecimento
guardados indeléveis na memória humana.

 


VI

 


Nel mezzo del camin ... - chegando quase ao fim
da caminhada, assobiando pela escura selva
da tragédia humana me deparou a eterna sombra
iluminada que estranhamente seguia sempre à nossa frente na jornada.
E quando a interpelei, chamando-a de
- Mestre,
me respondeu:
Eu sou o teu espelho, simplesmente o Homem,
primo do macaco, parido por mulher e destinado à morte,
alvo da sorte e sem nenhum poder divino ou sobrenatural
exceto distinguir o bem do mal, o certo do errado,
o belo e o feio - e assim criar - a deus ou a mim mesmo.
Surpreso me atrevi a interpelá-la novamente:
- Serás um novo deus?
- Não, respondeu, o demiurgo apenas de teu eu - o Homem,
a quem chamaste alguma vez de Prometeu
ora de Orfeu, candeia humílima, que apenas ilumina ao se queimar.
 



VI

 


E ao me ver contrito e assoberbado pela missão
de ter de iluminar o mundo com tão escassa luz,
me advertiu: - Não sou um novo mito, sequer um evangelho.
Não necessito de apóstolos nem discípulos, meu velho.
Não há missão. Sequer obrigação. A árvore reside na semente
e a semente ignora o tempo: após milênios pode germinar.
Cada mente só dá o que puder e, como a mulher,
supera a pena e os trabalhos de parir pela alegria de criar.
 

 


VII

 


É necessário dar o derradeiro salto
chegar à derradeira negação
reconhecer o caos e aceitar o acaso
a fim de continuar-se a construção
que dê abrigo e sentido
ao que não tem.
Nenhum.
 

 


VIII

 


Do argonauta navegante ao aeronauta, o astronauta e o internauta
passou um só instante.
amor levanta um monumento que se alteia
além de toda onipotência.
Por alquimia se funda o reino unido
do bom, do belo e o verdadeiro.
No universo atroz, glacial, vazio e sem sentido
vai-se criando o canto da poesia:
imortalize a transiente rosa em tuas mãos:
diz simplesmente - é bela a rosa
 


9 de Setembro de 1998.
 

   

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

Início desta página

Ricardo Alfaya