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Nei Duclós

nei@consciencia.org

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bernini_The_Rape_of_Proserpina_detail

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

Bio-bibliografia:


Nei Duclós começou a revelar sua poesia a partir de 1969, quando foi para praça pública expor poemas junto com outros autores. Reuniu primeiro estes trabalhos em duas coletâneas mimeografadas e depois no seu livro de estréia, Outubro. Seu segundo livro - No Meio da Rua - foi apresentado por Mario Quintana e o terceiro (No Mar, Veremos) por Mario Chamie. É jornalista profissional desde 1970, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos de comunicação do País. É doutorando em História pela USP.


Livros publicados:

  • Outubro (IEL/RS, A Nação, 1976)

  • No meio da rua (L&PM Editores, 1980)

  • No mar, veremos (Editora Globo, 2001)
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

Outubro


Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos

Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto

Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)

Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
outubro
 

 

 

 

Bernini, Apollo and Dafne, detail

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Micheliny Verunschk

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

Tornei-me passos


Tornei-me passos
em busca da aurora

Belo como geada
acordei enrolado num cobertor
que o sol dourava
nos terrenos baldios
da minha estrada

As cidades construíram
muros à sua volta
mas com cordas
escalei pedras
e penetrei nas entranhas
de concreto e praças
 

 

 

 

Bernini_Bacchanal_A_Faun_Teased_by_Children

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Clotilde Tavares

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

No meio da rua


A casa do passageiro
é o meio da rua
por isso esse ar de loucura

por isso esse andar
de banda. essa voz
que inflama. esse olhar
de lua

por isso essa dor que
não recua

A cama do passageiro
é o amor de campanha:
armar o dia
manter o fogo
cobrir a fuga

por isso esse chamado
quando passa adiante
essa vontade
que alguém lhe acompanhe

O medo do passageiro
é sentir-se um estranho
por isso sorri
enquanto morre de fome

(ele nasceu, teve um sonho
mas o caminho, longo demais
lhe rouba o sangue)

No meio da rua
o coração do passageiro
bate o o bumbo


 

 

 

Ticiano, Magdalena

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Adail Sobral

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

Senha


Somos nós, os pescadores
que fizemos do rio uma casa
e de todos os rios, uma pátria

Somos nós, os pescadores
que cruzamos cidades amargas
com os remos fora d’água
e o rosto lavado em sal

Somos nós, os pescadores
Que nos reunimos em silêncio
ao redor do amanhecer
com o sol preso na mão
e a rede tensa

Somos nós o horizonte
onde aportarão os exércitos
sem direção

Levantar um braço, então
será o bastante
 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Cleópatra ante César

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Rubenio Marcelo

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

Tarde


Lá longe no horizonte
nasce a força da vogal sem nome
Voz do sobrenatural encontro
entre Deus e seu espelho

Imagem torta de espontâneo corpo
que interrompe o vôo permanente
Sombra não revelada pelo olho
colhida como flor para si mesmo

Surpresa do Criador quando se cansa
da infinita paz de estar atento
Lá nasço eu na minha fonte
De janela aberta e rádio aceso
 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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Maria Georgina Albuquerque

 

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

A propósito de Architectura, de Soares Feitosa

 

 

Um dia, o barro


Amor, risco
de areia.
Casa, futuro
suor.

Poema: pássaro
virá do vento
soprar o barro.
O traço em busca
do próprio torso

Depois de breve
mergulho
a palavra
cala

A palma toca telha
e  tijolo.
O dedo molhado
sonda o deserto.

 


 

[Leia o poema Architectura]

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Donizete Galvão

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

O RIO NÃO MORRE

“ También se muere el mar” (Garcia Lorca)
“Aquele rio era um cão sem plumas” (João Cabral de Melo Neto)



Não se mata um rio
como não se enterra
um morro
Como a fogueira
não se põe no bolso
Como um leão
não pede socorro

Um rio terminal
é a soma da baba
do rebanho
viscoso no que tem
de sono
aéreo no que tem
de sonho

O mar recebe o rio
feito de escombros
O mar pode morrer
(Netuno exangue)
Não por obra do rio
que guarda o sopro
Envenenado talvez,
mas nunca morto

Um rio sobrevive
sem suas vertentes
Um rio pode seguir
sem ser corrente
Um rio não é a escama
de nenhum peixe

Ele será sempre o rio
da minha infância
O Uruguai antes
do saque
touro frente à lua
surra de gigante

Nesse rio sem fim
mora meu povo
Cobre de minuano ao frio
Charrua de invencível
lança

Não se mata um rio
O sol não cabe
numa estante
A eternidade acampou
e faz a ronda

 

 

 

 

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Regina Lyra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

CAIXA CORAL



Adiei o mundo que no escuro
preparava o bote – coral na caixa
preta do destino

Sem descobrir
o código – cobertor de ruído
sobre o túnel –
acordei diante do trem
em direção ao corpo
preso na ferrugem

Nenhum desvio
salvou-me do som
despedaçado do violino
Adeus dos outros,
feito pão mofado
na mesa posta de um cortiço

Acolheu-me a musa
no lado oposto à vida
com o olhar mortiço
para quem ficou encarando
a minha sorte

Ela escolhe e fisga o coração
de quem não morre
Para o resto – o inconformismo
em mar de inveja repulsivo –
ela tem o olhar que petrifica

Fósseis na mira da Medusa
fogem do Tempo, rosto final
do Medo, que assoma
como surda carruagem

Enquanto somem, a seiva
interminável cobre o sonho
que guardei no bolso
Carne oferecida à eternidade

 

 

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

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Carmen Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), A morte de Sócrates

 

 

 

 

 

Nei Duclós


 

É BOM O MAR



É bom o mar
não ter dono
Não ser potro
nem mordomo
Poder engolir
Netuno
Espumar sal
das esferas

Ninguém pasta
no seu dorso
Nenhum nó
ata sua vela
Gávea que traz
no bojo
Bóia que a flor
navega

Como repasto
de pedra
Como fermento
de estrela
São peixes
fora do espelho
São aves
em assembléia

O bom do mar
é que dançam
numa volúpia
serena
os versos feitos
por anjos
que estudam
com muito esmero

o mar, esse Deus
travesso
que se bobear
pega praia

 

 

 

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

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Marina Leitão

 

 

 

21/10/2005