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Erorci Santana 

erosantana@ig.com.br

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Alguma notícia do autor:

 

Foto do poeta, início de 2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

Albrecht Dürer, Mãos

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

Erorci Santana


 

Resumo biobibliográfico:
 

Erorci Santana (Erorci Ferreira Santana) nasceu em 23 de junho de 1960, no distrito de Penha do Cassiano, Comarca de Governador Valadares/MG. Radicado em São Paulo/SP desde 1974. Cursou Letras, com orientação para a tradução e interpretação da língua inglesa na Faculdade Ibero Americana de Letras e Ciências Humanas, em São Paulo. Associado da UBE – União Brasileira de Escritores, desde 1982, exercendo cargos na direção daquela entidade nos biênios posteriores a 1996, na qualidade de diretor e secretário-geral. Ex-editor do jornal O Escritor da UBE, encerrado no número 110, transformado em revista homônima. Atualmente, exerce o cargo de diretor daquela entidade. Poeta, publicou as obras em livro: Carnavras (Edição do autor, São Paulo, 1986); Estatura Leviana (Edição do autor, São Paulo, 1989), Concertos para Rancor (Scortecci Editora, São Paulo, 1993) e Maravilta e Outros Cantares (Alpharrabio Edições, Santo André/SP, 2001. Coordenou oficinas de poesia na Oficina Cultural “Luiz Gonzaga” e é membro da comissão julgadora do Mapa Cultural Paulista, desde a edição 2000, categoria Literatura, ambos projetos da Secretaria de Estado da Cultura, em São Paulo. Coordenou Encontros de Escritores em âmbito estadual e nacional, realizados pela UBE, com o concurso de expressivos intelectuais e artistas de todo o Brasil. Editou a revista Artaud’Art, em consórcio com o DCE/USP. Funcionário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.


Endereço Postal:

Rua São João das Duas Barras, 16-A
CEP: 08.270-070 - Itaquera, São Paulo – SP
Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

Erorci Santana



Ode quase triste a Paulo Colina


Bem-te-vi, Paulo Colina, infiltrado
naquela formação de guerra Qin,
moldado em terracota.
Soldado han ou anjo-músico
de Andrea della Robbia,
tu lembravas flores, violas, violetas,
com a licença de Agripino.

Que fazias tu em meio aos chins
subterrâneos, a pele negra contrastando
com a amarela? Que engenho arquitetavas
nessa geografia tão distante da savana,
longe dos tambores e atabaques,
tão distante de teus deuses africanos?

Teus deuses? Não os tinhas!
Não acreditavas nessas projeções
do espírito convulso e atormentado.
Acreditavas sim no amor
pelo tanto que abraçavas
da humana experiência, tanto a plena
quanto o seu resíduo – que não possuía
eleição o teu abraço, tanto afeto

por tão pouco. “O mais terno dentre nós”,
todos diziam. Sei também que acreditavas
em alguns reais demônios.
Não em tantos que pudessem
ensombrecer a sua inescusável
vocação para a alegria,
malgrado havê-los às mancheias,
de vis mutretas e inumeráveis truques,
alguns bem velhos, seculares,
avacalhando o paraíso,
desde que Cabral apontou no horizonte
com as suas pestilentas naus.

São os mesmos, ó Colina, redivivos,
maquiados, os que rondam
a vida civil e a República.
São as velhas hostes do mal,
esses coiotes perfumados com lavanda,
urubus de maneirosos gestos,
retórica vazia e sapatos reluzentes.

São os mesmos, ó Colina,
refratários na arte de somar e sublimar,
sempre prestos a botar no raso nossa gente,
que, atônita, indaga onde estão
os cornos do capeta, o rabo do inimigo,
os famigerados cascos retorcidos,
o cheiro de enxofre e de pocilga.

Enquanto isso, os ditos-cujos vêm pisando
de mansinho (como os santos),
sorrateiros, entram pela porta
dos fundos, da urna, da televisão,
vêm trazendo o desespero informe e indolor
aos lares, aos bordéis e aos sacrários,
movimentam o volátil capital e manipulam
o preço do grão, da proteína e do sabão
polindo as unhas em seus vastos escritórios
e regendo o aparato da fome e da carnificina.

Sei que tu pensavas poder exorcizá-los
não com os chicotes, com recusas,
pois que tu, eu e toda gente
carecemos apenas aprender a dizer não.
Não um não vociferante, mas aquele
do Mahatma, que ia simplesmente
sob o fogo cerrado dos obuses, dos fuzis
em corajosa e adversa direção.

Agora esse silêncio, o dobre desses sinos,
justo agora,
em que eu pensava te chamar
ao ritual de uns bons goles,
tu bebendo por nós dois, fique bem claro.
Tu, levando à língua a branca de rosário
e eu um desses xaropes infames e inodoros.

Tu bem sabes que tornei-me abstêmio,
não é Paulo? Tu bem sabes
que bati em retirada pra salvar
o que restou de sanidade e o couro,
cavando uma distância mui cobarde,
lejos del pueblo y de la tequilla,
nossos dois ferais amores.

Também sabes quão difícil é não beber
do tonel dessa país, não é Paulo Colina?
Estar dentro do povo e tão distante
em discursos vãos e vãs filosofias,
não sei se para rir, para sofrer.

Nem se diga das mulheres, pois que essas
apenas vem pedindo provimentos uterinos,
louvações. Quando fartas, saciadas, somem
na neblina, na fumaça dos ardentes corações.

Justo agora esse teu rosto de argila.
Que destino dar
aos teus sete instrumentos musicais,
ó meu Colina?
Que sei eu de barro e de homens,
de sutis artesanatos, de burilamentos,
se só li poetas pobres e aprendi
dois ou três versos do primeiro testamento?

Esse barro, esse homem, ó Colina,
são só frágeis matérias, são reversos,
são candangos
no canteiro de obras do universo.
O tempo tece as suas urdiduras, endurece-os
e engendra as suas rachaduras.

O barro de que és feito
já não treme em cozeduras.

A tua argamassa não transpira mais
sob altas temperaturas.

Já não tens saudades de ninguém,
nem as adiadas nem as prematuras.

Não te perdes mais
na intrincada geometria dos enigmas,
não há mais vindima nem estigmas
nos ecos do teu vozeirão, Paulo Colina.

Entanto, teu silêncio é prenhe como o dos casulos.
Nele subjaz o ensaio para irromper a beleza,
ainda que condenada, ainda que fugaz.

O teu silêncio revela os loucos e as crianças.
Nele o homem ganha vulto, cor e diapasão.

 

   

 

Franz Xaver Winterhalter. Yeda

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Fábio Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

Erorci Santana


 

O prazer revisitado


Há prazeres em demasia
na desordem do dia.
Pode-se comer chocolate, beber, fumar,
cantar blues, dançar samba e foxtrote
depois chutar lata numa rua vazia,
às cinco, naquele lusco-fusco
em que não se sabe noite mais,
ouvindo o primeiro apito
das fábricas e a zorra dos gatos,
na escandalosa corte de uma fêmea
ou na disputa de um devoluto
esqueleto de sardinha,
admirar a tez e o formato
das mulheres no metrô de São Paulo,
de modo platônico ou cúpido;
com alguma audácia, puxar papo,
dizer-lhes frases galantes,
uma bobagem qualquer sobre o tempo,
o quasar, o pulsar, o buraco negro
ou sobre o desenho do hipocampo.
E se delas emanar promissores acenos,
algo assim como um retalho de sorriso
que dê algum sentido à química dos corpos
e amplie nossa estreita geografia,
lícito é fazer a elas propostas obscenas,
amá-las com êxtases e desenvolturas
mais adiante, em qualquer lugar,
pois serve o muro, o catre
a fenda lunar. Na paisagem insólita
ou no lugar infame
o exercício do amor é mais bonito.
Prestante, bom, saudável,
seja sempre cultuado e praticado,
à moda índia, lusa ou grega,
coleante, scherzo, allegro, socado, espremido,
ainda que a sombra da fome e do vírus
ameace o seu mister tão cintilante.
Toda flor, todo sumo,
qualquer corpo divinal, entreaberto,
um convite ao mistério insondável
da estrela que trazemos no peito, incandescida.
Serve para conúbio a merceeira, a jornaleira,
a gondoleira, a coleguinha ao lado,
a musa e a prostitantra: bandalheira
nos liberta e felicita, vai bem
em qualquer retábulo de mármore,
franja silvestre ou ângulo do verão
abaixo destes trópicos, a um tempo
mui safados e mui tristes – seja minha
a alegria; se quiseres, sirva-te do pranto.
Os tímidos poderão sonhar com Sharon Stone
de modo viril, gaiato ou trêfego
ou virar de lado e dormir
sem contrato com as auroras,
que o futuro é um absurdo compromisso.
Pode-se lustrar os sapatos na praça
ouvindo o canto dos passarinhos,
pensar que a vida afinal, não pode ser má
se existem engraxates, sapatos, passarinhos.
Podemos dizer frases de Artaud ou de Nietzsche
para nós mesmos, pois recitar os loucos,
compõe a ronda de ser sozinho.
Renunciar ao diálogo com a suburbana
mais cortejada e bonita, às paixões,
à luxúria, como faziam os filósofos,
encher a cara e chorar amor perdido,
amor bandido, amor traído, qualquer amor
triturado na máquina cotidiana,
com sua carga de dor, seus emolumentos.
Pode-se forrar a cama e deitar
à espera da boa morte ou sopesá-la
à distância e louvar não havê-la
irmã, mãe ou consorte,
enquanto se prega botão num casaco velho.
Renunciar, à máscara
que nos distancia dos políticos
e nos aproxima daquele santo, o Francisco.
Com algum sacrifício, renunciar à rosa,
à fulô agreste, mas não à primadona Rosa,
à Rosinha dos Cataventos, a qualquer
róseo quadril abaixo dos quarenta e cinco
nivelando o macho em sua primitiva
equação e o reduzindo
a uma alegre operação aritmética.
Mas sempre é tempo de esvaziar
o tambor do revólver, cegar
o gume da faca: tempo de o ódio ceder
e o amor exalar
o primeiro suspiro pela vida qualquer,
a do homem, do pirilampo, do rato.
Sempre é tempo de festejar a pujança,
redimir satanás, a bactéria, a barata.
Pode-se trancar o quarto, fechar
o caderno de exercícios,
ouvir e sonhar que são suas
as canções de Sinatra, Jobim e Lennon.
Santo Zeus! Deus dos homens!
Quantos são os pequenos enlevos
e os grandes embevecimentos!
Tudo que o dinaro dé, bicho de pé,
cerveja gelada, boi na invernada, muié pelada,
mandar às picas a poesia hierática, quer dizer:
aportar no sol do verso, como fez Cabral;
exumar Adão do barro como fez Manoel.
Diz a lenda que é permitido
fingir-se de morto e azarar o coveiro;
fingir-se santo e traçar a mãe do terreiro.
Quede maior volúpia que plantar
couves num canteiro de quintal,
saciar com seus talos a fúria larval
pra que o mundo preserve
a beleza e a borboleta.
Mors-amor é tudo é permitido:
o sacro e o profano, memória e olvido,
entortar o sim, dizer NÃO,
a mais formidável palavra
em todos os dicionários, a inaugural,
comer o idioma com farinha,
hablar tupi or not, desdizer,
botar esquadro no inimigo, trabalenguas
em seu crepúsculo ou inventar
um idioma todo seu, mas ditirâmbico,
adequado ao contato de terceiro grau.
Pode-se fingir leitura em livros vagabundos,
achar predicativos em nossos poetinhas
enquanto se trama uma maneira
de ludibriar o fisco ou passar incólume
pela próxima encruzilhada ou semáforo.
Quase me deslembro: assoviar qualquer canção,
rolar na grama com os cães, os índios e as crianças,
rir em velórios, peidar em cerimônias,
desmontar as arapucas e soltar os passarinhos
nos prados e nas praças, prover os engraxates
com dinheiro suficiente para a compra de sapatos,
honrar a natureza com assédio sexual.

Mas não se iluda, meu leitor sincero, meu irmão,
o preço do paraíso é a eterna perseguição.
Há hordas mercenárias
querendo desbotar os teus retratos,
lacunar a coleção de figurinhas
tomar posse da bituca do cigarro,
chamar teu nome no meio do sarro,
quebrar teu santo de barro,
dar descarga no teu sonho lindo.

Querem apagar o teu arquivo,
ensombrecer teu riso,
esfregar no teu nariz
a pletora das proibições.

Furte beijo, assovie e chute lata,
engrosse a passeata,
mas escreva: vão tentar
te dar emprego e gravata,
vão botar o teu retrato
na lista dos procurados
e teu precioso corpo na fila da necrópsia.
Teu gozo será tua aniquilação.

 

   

 

Bronzino, Vênus e Cupido

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Marília Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

Erorci Santana



Evocação do Tietê


Tietê, banzeiro bandeirante generoso,
que se ofertando em gérmen, floração,
ao nado,
recebeste em paga os ácidos saturados
da untuosa traição do grão-tinhoso.
Tietê, filho in memoriam adotado,
o avô que poderia ter sido,
o pai que perdi enfartado, o que

pedindo abrigo pelas águas fatigadas
obteve por herança um sarcófago
de peixes mumificados.

Tietê, paisagem fluvial agônica,
que tiveste tuas águas fustigadas,
tornadas torvas, conspurcadas
pelo homem e sua pestilência crônica.

Quem vai vingar tua morte rubra, Tietê,
ou resgatar do abismo a tua flama indizível?
Quem irá livrá-lo da lama, do jugo
desse império de coisas sucumbidas?

Tietê, o ex-rio que me ensinou
a amar o amor de Mário,
o primeiro dos Andrades,
pois amar se aprende amando.

Pus minha nau em tua noite escura.
Solitário, te navego: périplo
sob a luz aldebarã, à procura
de tua árdua manhã, Tietê,

toda a beleza que, negada, se encerra
no teu risco sujo sobre a terra.


Leia também:
"A Meditação sobre o Tietê", de Mário Andrade


 

   

 

Michelangelo, Pietá

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Luiz Rufatto, foto de Simone Rufetto

 

 

 

20.01.2005