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Marília Gonçalves 

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Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia da autora:

 

Marília Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

 

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Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

Marília Gonçalves


 

Biografia:

 

Nasci em Lisboa 1947, na avenida da República.

Menina comecei a dizer poesia fui notada na escola, pela directora, senhora de tendência republicana (assim se dizia na época, o que era dizer muito já) convidada a festas locais, declamava igualmente em todos os aniversários ; um dos primeiros poemas que disse foi «A Balada da Neve» de Augusto Gil,( mas as crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim) do mesmo poeta e quase na mesma época disse também «O Fiozinho da Fonte» e ainda hoje a minha grande dúvida sobre a existência de Deus vem do sofrimento das crianças.

Com cerca de doze anos era muito menina quando certa tarde ao voltar do liceu deparei em vendedor fortuito, numa bancada de livros usados com livro de banda desenhada de edição brasileira, sobre Castro Alves, sua obra poética, sua vida, sua obra humana . Na primeira adolescência, nascida em família antifascista, em pleno salazarismo, e guerra colonial, como ficar alheia ao todo generoso de Castro Alves. Com ele aprendi a força da palavra, eu que dizia poesia desde muito menina, seleccionando sempre poemas com sentido de fraternidade e libertação, compreendi, melhor que nunca, a força da poesia. Hoje mulher, poeta, não esqueço minha veemente paixão pelo menino poeta libertador de escravos. Castro Alves não foi apenas grande poeta, embora menino foi um grande homem. E ainda hoje ao visitar os sites que lhe fazem referência os meus olhos marejam-se, e a mesma voz que ouvi menina balbucia: meu amor.

Vim para França em 62, para preparar a vinda de meu pai, eis preso político perseguido pela pide, aqui comecei a trabalhar aos14 anos.

Mais tarde na Associação dos Originários de Portugal disse poesia, Nesse mesmo palco onde Luís Cília empunhando guitarra, denunciava a guerra colonial

Fui militante anti-Salazar no Bidonville De St Denis, (amarga escola, o sofrimento de irmãos, e das crianças, acima de tudo, o delas)

Com 19 anos casei e voltei a Portugal . Aos vinte anos morreu o meu primeiro filho logo após o nascimento.

Em 73 Fiz parte da direcção do Círculo Cultural do Algarve

Em 1977 por razões de saúde de um filho, viemos para Paris e por aqui ficámos. Vim a Fazer parte do Rádio Clube Português de Villejuif, Voltei ao palco em espectáculos onde eram actuantes principais Paco Bandeira, Carlos do Carmo, Arlindo de Carvalho, compositor para quem escrevo poemas-letra de canções. Tenho 3 filhas e um filho, que adoro.

Tento saborear a vida no que vai dando de bom e mau, para avançar em mim, mas contemplação de paisagem de alta beleza, pode transformar meu estado de espírito e levar-me a verdadeiro júbilo.

Em 1985 faleceu meu pai, esse extraordinário filtro de humanidade, que sempre o mundo me parecia mais belo e são, enquanto existiu.

De temperamento anarquista, o meu amor pelo próximo é meu autocontrole e acima de tudo esta esperança- herança, a mais valiosa que meu pai me transmitiu, de que o ser humano, leve o tempo que levar, acabará por encontrar a sua via. E será finalmente fraterno e bom.

Marília Gonçalves
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

Marília Gonçalves


 

Monto cavalos de prata

 

 

Monto cavalos de prata
Agarro crinas de vento
Minha égua desbravada
Salta barreiras de tempo
cascos a fender as nuvens
minha montada exultava
pássaro de fulgentes plumas
sobre seu dorso poisava.
Sobre a garupa de cinza
Meu corpo nu avançava
Como réplica da brisa
Ou nauta que mar levava.
Minha égua água marinha
Inebriante licor
Meu olhar nu te adivinha
Corolário aberto em flor.
Venci atalhos de frio
No teu valente arquejar
Meu cavalo corredio
Rio a procurar o mar.
O teu orgasmo de luz
Incendiou as estrelas
Numa explosão que seduz
Versos, pautas, aguarelas.
Contigo vôo e voando
Atinjo o êxtase enfim
Ó meu cavalo de prata
De asas abertas em mim.


Cavalgam pequenos potros
sem ânsia de bem ou mal
de tanto correr despertam
o instinto vegetal.
Uma poldra toda branca
na imensidão que é a noite
pariu aceso galope
entre águas, ervas, areias.
Era um vôo parecido
com um bibe de criança
erguido em nuvens azuis.


Na floresta adormecida
sobressaltaram-se breves
as folhas que pareciam
pequenas aves que leves
ao menor sopro do vento
mínimo silêncio triste
estremeciam no balanço
de braços mudos e verdes.


Mas em assomo surgido
lesto, inesperadamente
os potros foram partindo
filhos da luz e do vento.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Lau Siqueira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

 

Marília Gonçalves


 

Sou negra hindu pele vermelha

 

 

Sou negra hindu pele vermelha
árabe, persa asiática
morena, branca, amarela,
sou incolor, aquática...
Sou rude como montanha
sou macia como arminho
tomo qualquer forma estranha
de cada irmão que adivinho
Sou feita de ar e de sol
de luz, de sangue de vento,
tenho a voz dum rouxinol
a soltar-me o pensamento.
Sou mistura conseguida
do humano universal
fecundo fruto da vida
porque a vida é natural.
 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Slave market

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Elaine Pauvolid

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), A Classical Beauty

 

 

 

 

 

Marília Gonçalves


 

Chamar por ti, Poesia!

 

 

Chamar por ti, Poesia! Poetas estro, musa, em defesa da cidade, pedir-te verve e força duradoura, que a batalha é de brio, de amor logrado, um grito na cidade obscura, aberta a desaires e esquecimento. Lisboa te chamaram, cidade que atravessou os tempos, épocas, a história, resistiu a cercos e à fome, viu investir suas muralhas, viu séculos de gesta, Restelos de advertência, poetas de faces veras, a soluçar à porta de tuas verdades; heróica foste resistindo. A voz de teus bardos te guiava, rumo a ti, à tua construção, quando nos ares se desfiava em luz, cidade rosa, cidade flor, amor cidade. Resististe, que afinal a força é resistir, e nas longas noites, as tertúlias eram ainda voz tua, a percorrer os bairros e os becos, nossa cidade de sede

Que o Tejo apazigua ou acomete, cidade de portos e de canoas que te levam no longe, à tua procura, cidade, de partidas e chegadas, quando chegas a ti?

Muito haveria a dizer, pelos teus prédios, as tuas velhas casas (não estarei a recordar a Velha

Casa desse grande génio da música em Portugal, que é António Vitorino de Almeida) e quem não tem uma velha casa a lembrar a infância, aqueles que a povoaram e não voltam mais?

As tuas velhas casas, teus belos edifícios, que o tempo afronta, como larva a desfazer-te na nossa lembrança, a paisagem humana vai-se perdendo, modifica-se até nela não nos reconhecermos, preservemos pois a voz das pedras que abrigaram nossos avós; guardemos

A memória de seu esforçado viver, preservando a beleza das construções que nos deixaram, que nos dignificam e nos distinguem, de outras vivências, de mérito, sem dúvida, mas nestas paredes que desabam estão inscritos os sonhos dos que nos precederam, está o nosso próprio reconhecimento cultural e regional, em suma o eco de tudo o que nos fez, e tantos poetas cantaram, Lisboa, reconhece-se pela paisagem, pelas colinas, pelo Tejo, mas também pela luz que doira as suas casas, porque as pessoas, de cidade em cidade, cada vez se parecem mais umas com as outras. Preservemos pois aquilo que nos diferencia e enriquece, o que não deve perder-se, o nosso Património arquitectónico.

E que a voz dos poetas nos guie e dê alento, para defender a história de uma magnífica cidade:

LISBOA
 

 

 

Inocência, foto de Marcus Prado

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Barros Pinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Marília Gonçalves


 

Quem levou de mim


 

Quem levou de mim
Ânfora d’oiro
Teus sonhos de antemanhã
Se esquife fenício ou moiro
Sepultou como tesoiro
A esperança temporã .


Altera antiga cadência
Perverte o olhar do tempo
Vai ao âmago da essência
Da sementeira do vento.


Quando nada mais te resta
Além da fímbria do dia
Devora e palcos e festa
E tristeza e alegria


Morde a vida com os olhos
A espelhar tanto caminho
Como colheita de abrolhos
Na tua cama de arminho.
 

 

 

Bernini_Bacchanal_A_Faun_Teased_by_Children

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Lilian Mail