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Barros Pinho 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

Barros Pinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Barros Pinho



Psi a penúltima: a poesia de Soares Feitosa

 

Caro poeta

A sua poesia telúrica recebe a influência benéfica do Homero brasileiro, Gerardo Mello Mourão, que como você sabe trabalhar o clássico e o lírico sem as extravagâncias que ferem o poema moderno.

Há em sua poesia um forte compromisso com a palavra: a energia da palavra é indispensável ao equilíbrio técnico e formal do poema. O conteúdo de sua poesia se aprofunda em raízes que se alastram pelos ancestrais do poeta alcançando não só o sol da tarde e sim do amanhã do amor e a sensualidade tão arraigadas na alma nordestino, Poesia forte, com cheiro de curral de leite onde o sonho se embala na luminosidade do luar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Barros Pinho


                                Ode ao Amor do Mar
 

Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias

pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis

pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas

gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores

gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas

gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Barros Pinho


Aviso prévio
 

o sonho
uma borboleta

quando menos
se espera
a gente acorda

e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio

 

 

 

Octavio Paz, Nobel

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Neide Archanjo

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Barros Pinho


Gramática aos olhos da amada


Qual o adjetivo
para os olhos da amada
os olhos da amada
se confundem com o mar
ora verde ora azul
na cor do triste
no salmo da alegria
semântica da noite
metáfora da madrugada
as sílabas do vento
nos olhos da amada
o verbo amar edifica
os acentos da solidão
olhos do mar olhos do rio
olhos de serpente sem veneno
olhos de mulher olhos de sonhos
que guardei para viver no ponto do luar.

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Iosito Aguiar

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Barros Pinho


O retrato nas paredes


As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.

Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.

As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.

De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

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Ivo Barroso, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Barros Pinho


O Menino de Nazaré há dois mil anos no vento


o menino de nazaré há dois mil anos no vento
no papo do passarinho da cor da aurora
na cacimba da beira do rio seco onde as serpentes
bebem as águas mais limpas no privilégio do veneno
nas capelas desbotadas sem santos só com fantasmas retraídos
na borboleta que corta o inverno no corpo da lagarta
no riacho a se perder no leito do rio que não sabe do mar
no olhar dos bois no ruminar da última sílaba do sono
no fim da tarde no sofrer da noite antecipada
na manhã do gado rutilante no aço do matadouro
no latido do cão procurando estrela além da cerca da fazenda
no canto do galo que triunfa sobre a hipocrisia na terra
no sonho de outros meninos andando a cavalo
nos poltros de carnaúba ágeis por dentro das folhas
nos açudes de braços rústicos para o azul do céu
a esperar lágrima-orvalho dos deuses da chuva
sobre o corpo machucado pelos cascos de animais sedentos
no ninho do esbelto joão-de-barro em lenda que não aceita
os vôos desembaraçados de sua ave cúmplice de amor
no luar das madalenas santas no pecado

o menino de nazaré há dois mil 'anos longe longe
da cidade que perdeu o encanto sutil das coisas extraviadas
o menino de nazaré guarda em cesto de sol o resto do estábulo
o homem aprendiz do tempo se exaure na doída solidão
 

 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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Maurício Matos

 

 

 

30.01.2006