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Carmélia Aragão 

 

carmelia.aragao@hotmail.com

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conto:


Fortuna crítica: 

 


Alguma notícia da autora:

Carmélia Maria Aragão, mestranda em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará – UFC – como bolsista da Fundação Cearense de Apoio à Pesquisa – FUNCAP. É natural de Sobral, Ceará, 1983. Tem diversos contos e crônicas publicados em revistas impressas (CAOS Portátil, Carta Capital, etc) e eletrônicas (Famigerado, Cronópios, etc.) no Ceará ou em outros estados do país. Seu conto 2003 (Carmina) foi agraciado com o Prêmio Domingos Olímpio (Secretaria de Cultura de Sobral). E Eu Vou Esquecer Você em Paris, seu primeiro livro, foi premiado na categoria Contos do III Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (SECULT/CE) em 2006. [abril 2007]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hélio Pólvora

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lau Siqueira

 

 

 

 

 

 

Nilto Maciel

 


 

 

Carmélia Aragão: literatura como paixão

 

As quinze peças ficcionais que compõem Eu vou esquecer você em Paris (Fortaleza: Imprece, Edição do Caos, 2006), de Carmélia Aragão, mostram uma escritora madura. E isso se deve a dois fatores: muita leitura e talento. O primeiro se pode constatar pelas epígrafes (Neruda, Salman Rushidie, Cortazar), pela menção a nomes fundamentais daNilto Maciel literatura (Dostoievski, Flaubert, Emily Brontë, Virgínia Woolf, Goethe, George Orwell e outros), sem falar na composição “Página 12224”, de feição policial e ao mesmo tempo fantástica, a nos lembrar “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto.

Como ser madura, aos vinte anos de idade? Ou antes? Pois não se sabe quando as composições de Carmélia (1983) foram escritas. Ora, os exemplos de jovens escritores são muitos. Assim como de escritores idosos que nunca conseguiram atingir a maturidade literária, e morreram inacabados, incompletos, depois de dez, vinte, trinta livros publicados.

Claro, nem tudo é ótimo em Eu vou esquecer você em Paris. Mas o que não é ótimo para uns é aceitável para outros. Como a linguagem das narrativas, ora mais coloquial, ora próxima do rigor literário. O próprio título do livro é frase de uso comum no falar. Isso, porém, já nem se discute no Brasil, desde o início do século XX, desde os modernistas. Ignácio de Loyola Brandão escreveu a obra “Pega ele, Silêncio” (parece poético, mas Silêncio é o nome de um personagem), que deu título a um livro.

As narrativas de Carmélia são densas, mesmo quando os diálogos se estendem. Quase sempre ela se vale da narração e faz uso da economia de detalhes. Não se perde em descrições desnecessárias. Muitas vezes nem enredo há. E, se há, não obedece aos ditames do tradicional “descritivo narrativo linear”. Veja-se a construção de “Seja feliz (fragmentos da felicidade)”, disposta em quatro “fragmentos” independentes, como se fossem quatro histórias. No último, intitulado “O contista”, o narrador se refere aos três primeiros fragmentos: “Sim, um conto novo. Três crônicas que se unem em um conto.”

Apesar da modernidade das narrativas, Carmélia ainda usa o tradicional travessão nos diálogos, assim como os verbos introdutores do relato do discurso, como “dizer”, “afirmar”, “responder”, etc., há muito abolidos na prosa de ficção. O “ainda usa” acima pode ser substituído por “também usa”, pois a contista sabe disso e sabe se livrar dos tais pobres “verbos introdutores”, como se vê em “Quase” e “Felis catus”.

Mas isso é de pouca importância.

E onde vivem os seres fictícios de Carmélia? São quase todos suburbanos, vivem em grandes cidades, embora oriundos de pequenos burgos, como o contista de “Seja feliz” (“Sempre fôramos vizinhos de frente, mas separados pela praça da Matriz. Cidadezinha pequena: ‘Eita vida besta, meu Deus!’”). Andam de ônibus, moram em prédios de apartamentos, caminham por ruas longas, repletas de carros. Vejam esta descrição em “Pulsos intactos”: “Os olhos dele eram azuis refletidos no vidro da sorveteria. Eram azuis sob as janelas dos edifícios, das repartições, das barbearias, dos cafés, das vitrines, das lojas.” Seres perdidos, isolados, solitários. Mesmo quando o ambiente é “uma cidadezinha que vivia em torno de uma biblioteca”, cidade sem nome explícito, a não ser pela letra inicial “C”, do insólito conto “Página 12224”, cujos personagens parecem inspirados em alfarrábios medievais.

Curioso ainda é o grande número de escritores fictícios na obra da contista. Em “Seja feliz” há um contista. Em “2003 (Carmina)” uma professora conhece Marco Santiago, professor de literatura, autor do romance “linear e trágico” Carmina. Em “Página 1224” os personagens “vivem” numa biblioteca, na qual há uma sessão exclusiva de Literatura Baltusanesa, “da tribo Kaywa da extinta Baltúsia”. Em “Meu reino por uma fivela” a narradora participa de um curso intitulado “Mulheres escritoras”, lê O morro dos ventos uivantes, em composição de características policiais. Em “Escrevia e apagava” (título sugestivo para uma história de personagem escritor) a protagonista escrevia contos para uma revista feminina. Em “Quase” a narradora se iniciara como leitora de romances policiais, passara aos “grandes mestres da literatura local, depois da nacional e, por fim, da universal”, estudara “línguas exóticas”, como baltusanês. Em “Filis catus” a mulher que narra se refere a um contista que conhecera e transcreve trechos de um de seus livros. Também os títulos de algumas peças remetem à literatura: “Romance russo”, “Página 1224”, “Escrevia e apagava”, “Crônica do 2º andar”.

Pois essa paixão pela literatura é fundamental para o escritor: para viver, aprender e escrever cada vez melhor. Sem ela, teremos bons médicos, advogados, funcionários públicos, etc, que namoram a literatura nos fins de semana e escrevem de vez em quando algumas memórias ou uns versos capengas. Carmélia Aragão é do primeiro grupo e, sem dúvida, escreverá mais e cada vez melhor.

 

Fortaleza, março de 2007.

Nilto Maciel

 

 


 

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Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Luiz Bello

 

 

 

 

 

 

Nei Duclós

 

 

 

 

Carmélia Aragão

 

 


QUASE

 

“I ERASED THE MESSAGES. I WILL FORGET YOU”.

 

Na sala da repartição olhava os colegas muito atarefados. Processos e processos!  Ainda não fazia um mês que trabalhava ali, mas já sentia o quanto eram, ou pelo menos pareciam ser importantes os serviços da repartição. Mas ela estava lá, como um sonho. Invisível. Porque já fazia algumas semanas que trabalhava, mas não sabia direito qual sua função. E, quando o marido, à noite, perguntava se estava cansada sentia-se constrangida em dizer que não. Aquilo lhe ocupava as tardes. Era como um espaço vazio de quem não viveu nada ou não viu o tempo passar. Começou a ler. Primeiro comprou uns romances policiais na banca da esquina, depois os grandes mestres da literatura local, depois da nacional e, por fim, da universal. Engendrou pela Filosofia, Astronomia, Física e também no estudo de línguas exóticas. Aquele lugar era um objeto perdido, esquecido. Os funcionários eram cobertos por uma pele grossa e gasta como plástico de brinquedo velho. E o mar que batia nas muradas do edifício tornava as tardes mais vagarosas e infinitas como a paisagem de um barco fixada na parede de um consultório médico. Um dia, fora interrompida em meio aos seus estudos de baltusanês.

— O diretor quer falar com a senhora.

Ela o seguiu. Andaram labirinticamente até a diretoria. Acho que não saberia retornar sozinha. Dentro do gabinete, ao invés dos grandes arquivos e pilhas e pilhas de processos que tomavam toda repartição até mesmo no banheiro, havia uma belíssima cama em estilo colonial com travesseiro de plumas e um homem de meia idade, trajando camisolões do séc. XIX, apontou em sua direção:

— Sente-se.

Sentar-se não era uma sugestão, mas uma sentença irrecusável e sem volta. Como um livro mal escrito ou um pressentimento preciso, ela já sabia a que fora convocada.

— A senhora foi promovida.

 Já havia fechado a porta da sala e descido à garagem quando percebeu que as chaves do carro haviam ficado em cima da mesa.

— Merda!

O celular chamou.

— Merda!

 Na secretaria, estavam organizando uma festa graças a sua promoção. Jurou que quando chegasse à casa contaria tudo ao marido e que por nada no mundo voltaria a trabalhar ali, por nada! Seria difícil que ele aceitasse, porém não iria mais se submeter aquele mundo que ela abafou como um segredo de tão inacreditável.  Não sabia ao certo, mas parece que preparavam mais uma cama.

  

 

 

Manoel de Barros

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

Aleilton Fonseca

 

 

 

 

 

 

 

Carmélia Aragão

 


 O homem que C. esperava

 

 

“Todas as histórias são perseguidas pelo fantasma das histórias que poderiam ter sido”

Salman Rushidie

 

 

O homem que C. esperava pediria um expresso? Sim, pediria.

Eram tão insuspeitos que ninguém imaginaria que ela entrava no café às 16:45, quase todos os dias, para vê-lo e saísse antes dele, embora o seguisse andando pelo lado contrário da rua. Também, quase todos os dias, os pais de C. a esperavam na sala às 17:50 quando ela entrava e dizia que tinha ido comprar qualquer coisa, mesmo que depois encontrassem no lixo da cozinha num guardanapo escrito: PARE DE ME SEGUIR, entregue a ela pelo garçom F. às 16:50. Na cama, as mãos postas e os olhos fechados. C. branca, branca, branca, retirava um outro guardanapo do bolso entregue a ela pelo garçom F. às 16:50. Ria, pois a mentira, se lhe perguntassem, também era branca, branca, branca.

Subindo as escadas para o quarto mais barato do centro da cidade, C. não estava entre as coisas mais deslocadas, havia também as xerox P&B de Van Gogh decorando uma parede sem importância.  O homem que C. esperava abriu a porta. Sentaram-se na cama. Haveria um dia em que a desobediência, a loucura e os mitos obsessivos teriam sua vez.

E eu, que sempre os observei, saí de meu olhar distante e bato à porta. Eles nunca me viram antes, mas sempre estive ao lado deles recolhendo suas histórias, os olhos são muitos, não se sabe quantos, assustadores.

— Quem é?— perguntaram

— Uma mulher — respondi.

Lá fora, os pais de C. e o garçom F. chegavam.  Escondo-me. São 12:45.  Eu, pessoa comum, já me esperam no trabalho. Desço as escadas, ainda os observo, mas quem me vê?

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roberto Pompeu de Toledo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Felipe Moisés

Carmélia Aragão

 


A menina que tinha gatos dentro de si

 

A morte da menina que tinha gatos dentro de si acabou com as fronteiras entre aquilo que vejo, ouço e sinto e aquilo que eu julgava que ninguém jamais alcançaria, muito menos uma menina. De meu apartamento vejo corpo dela no asfalto, enquanto as luzes tristes da polícia rondam pelo bairro.

Ela nasceu próxima ao meu segundo filho, me lembro dela ronronando no colo da mãe. A mãe, uma mulher de perfil sério e de olhos bem claros. Cruzávamo-nos várias vezes no elevador, mas foi somente quando nossos filhos tinham quatro anos que a senhora de perfil sério veio falar comigo:

— Não entendi, mas a professora disse que minha filha tinha gatos dentro de si.

—Não, Eu também não — respondi com meio sorriso.

Era uma criança normal, de feições, absolutamente, normais, os olhos bem pretos, os cabelos crespos e nigérrimos. Foi quando ela percebeu que eu procurava na menina a “anomalia” que justificasse o comentário e percebeu também que eu me espantava com os traços díspares entre as duas.

—Puxou ao pai.

Tive meu terceiro filho e nessa época meu cunhado veio morar conosco. Minha casa se tornou eminentemente masculina, desengonçada, como meninos que vão crescendo e que, realmente, cresciam, ali, entre carrinhos, bolas de futebol, jogos eletrônicos, revistas de automóveis. Mas, mesmo assim, a menina que tinha gatos dentro de si saía de seu apartamento cor-de-rosa onde só ela e a mãe moravam, entre sapatilhas de balé e música clássica, e metia os olhos na minha fechadura.Deixava-a entrar. Parava no colo de um, grunhia, escapulia, voltava.

Eu ficava na sala corrigindo as provas da universidade, de repente, ela, parada, diante de mim, mal eu tornava a olhar e a casa já estava silenciosamente morta. Num desses dias, tive um pressentimento, bati à porta do quarto de meu filho mais velho. Ele abriu, riu, olhei, olhei, ele riu.

— Falava com quem?

—Ninguém, ora.

Houve uma outra vez em que tive o mesmo pressentimento, mas com meu marido. Entrei no quarto: ele, na cama, corrigindo as avaliações, uma xícara de café sobre a colcha:

— Algum problema?

— Não, nada...Falava com quem?

— Ninguém.

— Acho que estou ficando louca.

Havia algo errado sim, procurei em todos os cômodos da casa, mas nem um quadro torto, nem uma almofada fora do lugar, nem um papel fora do cesto, nem uma roupa suja no sofá ou toalha molhada na cama...

Mas um dia, à mesa, ao vê-la passar a alface, descobri que aqueles instantes gelidamente silenciosos eram os gatos que haviam dentro dela, porque quando a gente vive e vai vivendo uma casa, os filhos, o trabalho, esquece que existe alguém soltando gatos traiçoeiros e invisíveis dentro da sua família, entidade também congelada na memória.

— Você tem quantos anos mesmo?

— Vou fazer quatorze.

Claro, meu filho mais velho já tinha dezoito anos, o segundo, quatorze, o terceiro, dez e eu e meu marido tínhamos quarenta e dois. Por que eu não pensei nisso antes? Na mesma noite, depois que ela saiu, chamei meus filhos e um amigo de curso de meu filho que se hospedara conosco.

— Olhem bem pra mim: EU NÃO QUERO MAIS VOCÊS NO QUARTO COM ELA, entenderam? ELA, a partir de hoje, entrará nesta casa e da sala não passará.

Vendo-a pela janela, no asfalto, pela primeira vez pareceu-me uma “menina”, porque nem mesmo quando nos encontramos no elevador ela, criança, ao lado da mãe, já não me parecia mais “menina” e se a chamei assim outras vezes é porque não tive como classificá-la. Os olhos claros da mãe, os cabelos louros da mãe e ela, parecida com um pai que talvez nunca tivesse conhecido, o cabelo preto, os olhos escuros e ao mesmo tempo tão cheios de reflexo, porém, agora, fechados. Os policiais. A ambulância. Os helicópteros. Os jornais.

Fui à praça. Sentei-me ao lado da mãe. Peguei-lhe as mãos, beijei-as. Choramos. Nessas horas faz um frio, um frio, um frio, um frio.

— Você viu o que aconteceu?— perguntou-me

— Não, meus filhos me deram a notícia, não vi nada...

— Para que tantos gatos dentro de si, não é?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14/04/2007