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Dimas Macedo


 

Esboço


Na tessitura do caos me reinvento,
pois o modelo da infância é uma faca
e a liberdade do corpo é uma rosa,
ungida de paixão e de esperança.

O que me dilacera é a certeza
de que os deuses maduros são o nada,
pois a liturgia do fogo nas aldravas
é o meu desejo soprando contra a porta.

A solidão do menino na parede,
a vela acesa e a mira da espada,
o rosto branco do morto em desalinho,
os meus cavalos alados na mansarda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

Dimas Macedo


 

Enigma


O tempo-enigma
é o que enclausurou-se
no fundo da memória
e no sol está gravado.

O tempo-eternidade
é o que fincou-se
no arco dos meus olhos
um pouco fatigados.

Não posso ver o tempo
pois tempo é inespaço
e o espaço que sinto
é sempre o tempo.

Espaço intemporal
tempo inespaço
estão plantados
entre os elementos:

O tempo é fogo.
O espaço é o oceano.
O tempo-espaço
é calmaria e vento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

 

Dimas Macedo


 

Crônica


Fortaleza de noite:
eis todo um argumento
para viver a vida
plena de sentimento.

Deslizo pelas ruas
sorvendo antiga brisa.
No rio do asfalto
a noite se eterniza.

Fortaleza tem corpo
e atração fatal
que sangra nossos olhos
com lâmina de punhal.

Sou todo fortaleza,
penumbra e nostalgia.
Existo enquanto sonho
sua geografia.

Em noites de insônia
Fortaleza é assim:
é casa do espírito,
é princípio e é fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion, detail

Dimas Macedo


 

Formas


A lua e as estrelas,
o sol e os alabastros,
as cicatrizes de Deus
e as mulheres nuas
são formas puras do amor
que reconheço,
são como cactos
que me ferem os olhos
na distância,
tais os mistérios densos,
as perdas preciosas,
a dor de não viver a vida
presa na garganta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Memories, detail

 

Dimas Macedo


 

Ânsia


Os sentidos da vida
que me chegam.
Os sentidos da vida
no momento.
Porque no centro da alma
há um castelo
no qual escuto
as confissões do vento.

E bem no fundo da alma
há uma tela
muito mais bela
ou igual à minha ânsia,
porem a ânsia que sinto
é um conflito
muito maior
que a nave da existência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

Dimas Macedo


 

Romance


A casa onde nasci
– que coisa triste! –
hoje não mais existe,
pois o meu avô
(quem é?)
e a minha avó
(não posso descrever)
fizeram um pacto de horror
e ele ao falecer
lançou sobre a família
a sua maldição.

E a minha avó, então,
– e pelo resto da vida –
só fez o que queria:
vendeu a preço de tostão
o rebanho de gado
e a mobília
e as terras do sem fim
e a tradição.

A minha avó
plantou a solidão
nas fendas do engenho,
queimou os baixios de cana
e com empenho
rendeu-se
alucinada
aos encantos de São Sebastião.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

Dimas Macedo


 

Memória


Quando o meu avô, José,
era um tufão dos deuses
que na alma se escondia,
a minha mãe Maria
Eliete de Macedo
plantou uma rosa entre os dedos
no socavão do brejo.

Lembro-me como se fosse ontem
que as opalinas do sonho se moviam sóbrias:
a emoção num canto da dispensa
e o coração a balir como um cordeiro.

Fizeram-se fogos de amargura os dias
e eu previ então que sobrariam
uns restos de ausência
e uma dor maior
que o por-do-sol nas margens do Salgado.

Meu pai morreu de amor
e uma nuvem densa
lhe encobriu o corpo
e a minha mãe partiu sozinha
em uma noite fria
levada pelos ventos.

Ficou-me essa tensão maior,
essa alegria breve.
E a rosa do amor
lançada sobre a neve
se fez em mim a rosa do torpor.

O meu avô, Antônio;
a minha avó, Maria;
e a outra avó, também,
Maria das Mercês,
quiseram que o clarão
da arte de escrever
fosse matando aos poucos
um membro da família.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

Dimas Macedo


 

Escudo


Deus mudou de residência
quando eu o procurei no meu corpo.
Eu o quis novamente no cérebro
e ele já se havia plantado na alma.
Ele tinha sossegado o meu busto.
Ele fazia escrituras nos dedos
e acariciava os meus olhos
que viviam completamente tontos de enganos.

As minhas miragens morriam
quando ele chegou muito perto e me disse:
a luz é a que fica gravada na memória,
e o sol é o que nasce brilhando a cada dia,
pois a tua honra e a tua lâmina,
pois a tua glória e o teu escudo
são essas rugas de paz
e essas dálias brancas
e essas tardes mágicas
e essas plantas nobres
que se deixam cair na correnteza.

E Deus já se havia chegado
por entre os fios do sonho
e se havia anunciado leve
como as espumas e os cristais de rocha,
mas ainda não se havia desnudo,
porque as marcas ficam na alma,
porque o vórtice e as vértebras
às vezes me levam para a morte.

Mas a luz de Deus chegou
para ficar dançando no silêncio
e o silêncio
para ficar gravado nas palavras
e as palavras para serem
faladas para o próximo,
porque no próximo o instante,
porque no próximo o quadrante
e as sarças de fogo da espera.

O amor não se compraz no pranto.
A alma é como a música do bosque.
Porque maduro e belo é o encanto
dos que se vão serenos pela vida.

E Deus mudou de residência na mente.
E ficou comigo na frente do espelho.
Deus e suas vestes toscas de cambraia.
A carregar nos braços minha sombra
e a carregar a nuvem dos meus passos.
A me vestir de linho na varanda.
A me jogar confete no espírito.
A me fazer escravo do seu jogo.
A me dizer que o mundo é uma festa
quando se tem a paz e a dor é branda.
Quando se vive sozinho no deserto
buscando o amor / sentindo a esperança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

Dimas Macedo


 

Mulher


Me segura, mulher,
que eu vou morrer de fome,
eu vou cair de sono, aqui,
nestas areias quentes
do teu corpo.

Não tenho vida, mulher;
um sonho trago nas mãos:
amar, amar o teu amor,
e as tuas carnes brancas
e os favos de mel
sangrando em tua boca.

As tuas pernas, mulher,
as tuas pernas
cravadas no meu dorso,
e assim sem jeito,
escravo do veneno,
vou navegando no anzol
de tua língua
e vou morrendo
de morte não morrida.

Foi o amor,
a harmonia do amor
em nossas bocas
sôfregas de desejo
e de pele e de osso
e de sal e de sementes,
pois que o chão da infância
já não conta,
pois que o milagre do corpo
é a cancela
da vida que se ia
e que não vai mais nunca.

Terei para ti os lábios
e as conchas do prazer
que te darei
em sois de melodia
e e