Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Giselda Medeiros 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica:


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Angels Rolling Away the Stone from the Sepulchre

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Canção para buscar-te


Deixarei que o vento perpasse
o meu ser e dele retire
teu nome, teu gesto, teu vulto
para que eu possa respirar.

Deixarei que as estrelas roubem
teu brilho e em seu olhar azul
prenda-o, assim, verei luzir
uma outra vez o meu olhar.

E deixarei que o mar te alcance
com sua voz potente e rouca
para que eu possa ouvi em mim
a minha voz, já quase morta.

E deixarei que o tempo leve
a solidão que o teu silêncio
bordou nas fimbrias do meu ser,
naquela tarde que chovia,

E depois de tudo... ah! depois
quero ver minha alma cansada
ainda assim te procurar
sofregamente e nada, nada,
nada de ti reencontrar.

Talvez que sabe não te achando,
desesperada, e louca, e tonta,
se volta pra si, sonâmbula,
para encontrar-se, enfim, a sós.

Mas, como poderei achar-me
se não estiveres em mim?
Pois é no teu caminho vago
que traço o meu destino andante
de estrela, de rio, de vento,
margeando sempre a solidão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Antigênesis


E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
 

 

 

 

Da Vinci, Homem vitruviano

Início desta página

Paulo Franchetti, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Ventania


No mármore adormecido
finquei estacas do sonho
e poli na pedra bruta
a bruta insensatez do amor.
Refiz a escultura.
Escrevi com sangue
o nome que era efêmero
na efemeridade do momento.
Passou o vento ventando ventania
sobre as estacas fincadas
profundamente.
Pó - nova fuligem de sonhos...
E outros mármores
escandalosamente adormecidos.
 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

Início desta página

José Alcides Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Tua voz


Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.


 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

Início desta página

Rodrigo Marques, ago/2003

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Ao poeta de Réquiem em Sol da Tarde


Poeta, Poeta! Ah, Poeta!
Réquiem em Sol de Tarde!
Antífona!
Os Jatobás querendo se apossar do ouro do crepúsculo !
Sol-menino
espreitando, à beiradinha,
durante o cochilo de mestre Sol,
                          os céus,
n’água,
      os olhos...
             d’ela.

Poeta, Poeta! Ah, Poeta!
O amor é sempre aflito
porque na peripécia do silêncio
ele desce,
esgueirando-se, neblina e perfume,
o fruto amanhecente,
numa aurora de ouro.

E ele não teme o ataque das formigas,
a fúria dos vendavais sobre o seu diáfano
corpo
é ter que molhar-se nos beirais da espuma.

É ter que beber no sal dos silêncios
submersos,
o explosivo e indisfarçável silêncio, amor...

Poeta, Poeta! Ah, Poeta!

A Intimidade é sutil
é sutil
quando estremece
e pousa.

Sempre !

E o medo
é o gesto das duas mãos,
as duas,
conchadas de pegar
em quase...
a alma do pássaro.

E ele carece de uma sombra cúmplice
por onde possa desenhar
o azul das asas livres.

Assim, Poeta, és
o pássaro voejante
bicando a Poesia,
fecundante e fecundado,
nas alvoradas de pólen e energia!

E, saciado de orvalhos,
vais pousar no ventre da palavra,
criador e criatura,
na imortal fecundação do Belo!

Mas, escuta, Poeta:

hás que saltar sobre o abismo,
para alcançar o vale,
e irrefutáveis serão a insônia, a fagulha, o incêndio.
No entanto, Poeta,
o importante é que sempre
haverá um amanhã.

E nele repousarás teu olho agônico,
porta e ferrolho,
enclausurado o eterno!
 


« Leia Réquiem em sol da tarde, de Soares Feitosa »

 

 

 

Titian, Noli me tangere

Início desta página

Dimas Macedo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Parábola do amor recém-nascido


E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."


 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

Início desta página

Ruy Camara

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

 

 

 

 

 

Giselda Medeiros


 

Foz


Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.

 

 

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

Início desta página

Natalício Barroso

 

 

 

27.04.2006