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Foed Castro Chamma

foed@bol.com.br   

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, crítica, resenha & comentário:


Fortuna Crítica:


Alguma notícia do autor:

 

Foed Castro Chamma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, Madona Litta_detalhe.jpg

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

Foed Castro Chamma



Biobibliografia


Foed Castro Chamma, natural de Irati-PR., nasceu a 31.03.1927, residindo no Rio de Janeiro desde 1941 onde além dos cursos fundamentais de 1º e 2º grau fez estudo de línguas, sendo tradutor de diversos autores dentre os quais Virgílio (Bucólica) e Adam Mickiewicz (12 poemas), edições Latife 1998 e 2000. O primeiro livro Melodias de estio (poesias) é de 1952/3, seguido de Iniciação ao sonho (1955), O poder da palavra (1959), Labirinto (1967) e Ir a ti (1969); os três últimos livros editados em Convênio com o MEC sob o título de O andarilho e a aurora com breve fragmento de um poema-em-progresso de 10.000 versos (Pedra da transmutação) Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira 1984, editado pela Melhoramentos de São Paulo. Sons de ferraria, acrescido de paráfrases de Epigramas latinos traduzidos do latim (1989), edição da Secretaria de Cultura de Irati, foi reimpresso em 2004 com breve estudo do soneto. Sua Antologia poética (2001), pela Imprensa Oficial do Paraná, organização de André Seffrin, foi reimpressa em 2002. Navio Fantasma (EL) reúne cartas dirigidas aos pais, residentes em Irati. Filosofia da arte e Ferraduras do raio reúnem ensaios e leituras proferidas em cursos de Letras de universidades do Paraná e Rio de Janeiro. Possui entre outros livros inéditos de poesia uma peça de teatro de cunho social.
 

   

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), João Batista

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Mauro Mendes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Foed Castro Chamma


 

As sombras correm
 


As sombras correm soltas pela noite
à cata de suas formas apagadas,
tecendo solidões que são abismos,
sinais que são multiplicadas máscaras
 


de uma face movida pela luz
que desata do feixe o movimento
e se dispersa em fugas para atar-se
à unidade que flui do próprio tempo.
 


Os cabelos transformam-se em ramagens,
as árvores caminham. As florestas
combatem. Exercita a quadratura
do circulo o artesão moldando a pedra,
 


polindo arestas, desenhando a fórmula
da sombra em sua ordenação geométrica
como um todo partido que se reúne
pelo esforço que move o vento, a terra.
 


As águas correm negras, desatadas
das formas, com seus silvos de serpentes
nervosas sobre o leito das estradas,
luzindo a cor sinistra das correntes.
 


(...)
 


Sobre a boca formosa adormecida
tímidas aves, asas assustadas
sobrevoavam ligeiras com os bicos
famintos, a procura do arrozal
 


perdido na quietude da calada
planície verde agora adormecida
pela brisa da morte tal um mar
de pedra a desafiar a clara vida.
 


O rosto transformara-se em metal
e recusava dar-se ao movimento
dos círculos em vôo a procura
da cantora partida: apenas vinha
 


com a quietude amarga o frio som
de prata antiga da serena chuva
a derramar-se em finas linhas de água
nas figuras sonâmbulas da rua.
 


Eu a vi por detrás da clara máscara
armada para a vida com bandeiras
desfraldadas no corpo. A face dura
denunciava a cantora, ave guerreira.
 


Vi pedrarias na corrente verde
da fala, o brilho de esmeralda ardia
e inundava de líquidas vogais
a sala prisioneira da poesia.
 


(...)
 


Eu vi a palavra fora de sua boca
desenrolar o manto da poesia.
O som criava pássaros alegres
que voavam e desapareciam.
 


O encanto era tal que se perdia
a imagem verdadeira, e vi a palavra
transformar-se de nítido metal
em labareda, em fogo, em sombra alada,
 


com as asas abertas sobre nós:
o rumor da poesia urdia a voz
e o pássaro incendiava-se na luz
que sua fala espargia (negro sol).
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion, detail

Foed Castro Chamma



Vestígios de magia
 


I

Leia os traços cruzados neste rosto
cercado de silêncio: pedra viva
em movimento. A boca cresce esquiva
e ri branca e despida para dentro
no rumo dos seus lábios. São os dentes
a cerca protegida, são a vida
as sombras de cabelo derramadas
pelo corpo calado. Leia os traços
da fala - a mão repele, vibra, grita
no barbante seu nó para outra boca
acesa em pensamento: porta aberta
às grades do sorriso, cerca estreita
ao alcance da recta ameaçada
e o rumor pelo susto sacudido.
 


II

Este voo de cor voo caído,
pano guardado no ar preso por mãos
perdidas de sua forma: voo ruído,
que traços traz, que letras, que mistura
que nem chega a compor-se nos sentidos?
Atrás desse tremor coloco o ouvido,
atrás do ouvido as mãos, busco a figura
do súcubo no escuro. Qual seu dom?
de assaltar-me e fugir, de ser perdido
acúmulo de sombra, assombração?
 


Vejo os dedos; agulhas distribuidas,
multiplicam-se quietas, trazem linha
nas unhas - aparecem resguardadas
no enleio derramado dos sorrisos.
 


III

De que curva das trevas, de que ponta
o negro voo treme e o ar trespassa
e bate nos sentidos suas asas
para acordar o canto, vil preságio
de sujo enigma, este susto e espanto?
Uma treva sem trégua, uma perdida
face escondida se desprende e foge
atrás de si para encontrar-se ao lado
de quem renega e aceita. Ser sem nome,
cujo dom é nutrir-se de seus passos
como o corvo se nutre com seu voo
da solidão que o habita, sem receio,
rompe com o bico a negridão e surge
nas páginas abertas deste espaço.
 


IV

Não é do sono que nasce
nem de obscuras palavras
mas da luz que me ilumina
os braços, olhos e face.
 


Nasce de estranhos presságios
submersos nos meus sentidos
esta encantação de pássaros
que voam da minha fala.
 


Nasce talvez dos meus gestos
de recônditos segredos
e são as minhas secretas
alegrias e meus medos.
 


São meus transes, meus instantes
que me possuem com a beleza
de extrair corpos e plumas
das tábuas da minha mesa.
 


São minhas múltiplas horas
de alucinados prazeres
em que me assistem transidos
o anoitecer e as auroras.
 


Ah dom de inventar-me alado
e voar com os meus vocábulos
sem espaços que limitem
meus pés no chão repousados.


in "Narceja "antologia de poesia", São Paulo, 1959

   

 

Velazquez, A forja de Vulcano

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Ledo Ivo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Memories, detail

Foed Castro Chamma


 

A coisa em si


A linguagem que ensaio comunica
o pensamento às formas recolhidas
e mudas, cujo espírito reside
encoberto na rígida aparência
da pedra:
às vezes líquida aparência
d’água.
Ensaio uma linguagem
que somente os espelhos poderão
apreender: pois que a eles é dado repetir
multiplicar os que falando os assediam.
A eles me rendo com toda a leveza
com que, multiplicado, me incorporo
ao milagre de aceitar-me sério ou rindo,
sem mais sentir-me o outro
no interior - o outro - o que admiro:
belo e fugaz - o outro -
senhor tão pouco de sua presença
pelo que se ausenta atrás da própria face
- sem atribulações.
Aos espelhos me rendo neste ensaio.
No mais quem dirá que serei leve
para me incorporar às coisas definidas,
para me repetir nos meus desejos,
dissociar-me, integrar-me como alento
intangível além da superfície
dos espelhos?
A coisa em si
o tempo
a duração
existe onde?
Em nós ou além do círculo
que nos circunda?
Seremos como o Deus
que estando em todos
é íntegro e disperso
é móvel e é imóvel
uno e divisível?
A coisa em si
o tempo
a sucessão
do ser para o não ser
da vida para a morte
da morte para o enigma
da reencarnação:
Eis o círculo -
e dentro o enorme enigma
a um tempo breve e eterno.
A linguagem que ensaio comunica
o sopro alentador.
Os límpidos cristais se livrarão
de sua beleza silenciosa e fria.
Tocados da linguagem cantarão
dissolvidos e vivos, livres
como águas azuis acomodadas
em seu curso de plena liberdade.
 

   

 

John William Waterhouse , 1849-1917 -The Lady of Shalott

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Thiago de Mello

 

 

 

 

11/07/2005