Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Mauro Mendes

 jmauromendes@uol.com.br

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem, 10.03.2017, o lançamento no BNB Clube de Fortaleza, do livro VIRGÍLIO E OS CANTADORES, do poeta Mauro Mendes, prefácio deste que vos escreve, Soares Feitosa.

Mauro é cearense, estudou no Seminário do Barro Vermelho (Lazaristas, Antônio Bezerra) e, presentes ao lançamento, alguns de seus colegas de seminário: Luís Souto Teixeira, personagem meu em Compadre-Primo; também o Mirson Lima que só boas lembranças nos traz de uma parelha inesquecível, Sinésio Cabral & Mirson Lima. Em suma, a festa foi uma beleza, de reencontro de todos nós, velhotes ali presentes.

Mauro inaugurou uma modalidade de festa de lançamento de poesia que eu aprovo inteiramente: o livro é gratuito, os comes & bebes por conta de cada um. É melhor assim: muitos comparecem para beber e para comer, sem pagar, e livro que é bom, saem de mãos abanando. Então, ganhe o livro de presente, coma e beba à vontade, acertando-se com o Caixa... ou traga a sua paçoca com o seu jerimum e nos convide para comer. Gostei!

O livro? Seis ensaios de teoria literária de alta categoria. Quer ganhar o seu? Aqui está o email do Mauro jmauromendes@uol.com.br, bem como o seu tele-zap: 71.988.95.94.14.

Aqui está o seu inteiro teor, em adobe.pdf - basta clicar

O poeta Mauro Mendes com o seu colega de classe, Seminário Lazarista de Antônio Bezerra, Luís Souto Teixeira, meu Compadre-Primo, Fortaleza, CE, festa de lançamento de VIRGÍLIO E OS CANTADORES, 10.3.2017. Ambos os velhotes — tinindo nos arames. Eu também!


 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova. 1864.

 

Velazquez, A forja de Vulcano

O poeta Mauro Mendes com meu compadre Luis Souto Teixeira, o COMPADRE-PRIMO,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

 

Sent: Saturday, August 09, 2003 3:34 PM

Subject: Poema SE


 

Prezado Soares,
 

Quando um poema é capaz de me passar uma emoção, como aconteceu com o teu bonito poema SE, isto para mim é uma prova definitiva! O resto é conversa ou querela(quase sempre vã) de crítico literário. Rainer Maria Rilke(em Cartas a um Jovem Poeta, Edit. Globo) já advertia: "Leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de palavas inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra. As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica". Mas foi Edmund Wilson(conforme citado por Hélio Pellegrino no artigo "Escuridão e Rutilância", publicado no jornal Folha de São Paulo de 08.10.86) quem melhor estabeleceu a diferença entre crítico e artista criador: "O crítico, naquilo que escreve, sabe mais do que diz, ao passo que o artista criador diz mais do que sabe". E continua HP: "Isto decorre do fato de que o crítico se move, predominantemente, na área consciente e reflexiva do seu psiquismo, ao passo que o artista criador, em seu mergulho poético, ordenha leite da escuridão". (...) "O crítico é sempre capaz de explicar o seu texto"[cartesianamente], ao passo que "O artista criador é explicado pela obra que faz muito mais do que é capaz de explicá-la. A linguagem criadora é carregada de noite, de refrações simbólicas, de confusos rumores, cuja crepitação jamais se deixa capturar pela fome de clareza que define o pensamento consciente. Aliás, há que precatar-se contra a ilusão das claridades excessivas. Elas velam a realidade muito mais do que a revelam. No centro do incêndio solar, há um latifúndio de treva, da mesma forma que no caroço da noite enorme, fulge uma fogueira de luz"(Hélio Pellegrino, id. ibid.).

Acho, então,  que se pode aplicar a este teu poema(e, em geral, ao que eu já li, até aqui, da tua poesia), o que o poeta Robert Lowell  dizia a respeito de si mesmo: "tiro poesia de onde bem entendo, não dou muita satisfação", e dizia  ainda: "poeta pode ser inteligente e cônscio do que faz. No entanto, caminha meio aloprado e sobrearmado, preso[ao mesmo tempo] de sua amnésia, ignorância e instrução".

"Então eu tomaria conta das forjas
dos ferros e do carvão"

 

Tal qual acima, o teu poema é assim como o metal nobre incandescente escoando, junto com a ganga bruta, da cratera de Vulcano ou da forja de um ciclope. Às características "heróica, telúrica e lírica" da tua poesia,  permito-me, então,  acrescentar mais uma: CICLÓPICA!

 

Um grande abraço, com admiração!

Mauro Mendes

Salvador - Bahia

09/08/2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Aleluia


...e, tendo atirado as moedas de prata para o templo, retirou-se e foi pendurar-se de um laço
Mateus 27:5



o judas mambembe
(enforcado de véspera
sem conhecimento)
balança assim esquisito,
com a cabeça pendida,
livre de julgamento
e, ao mesmo tempo, roubado
do seu próprio espetáculo...
agora, vai servir de cristo,
(reverso da história)
prá mesma turba inquieta,
que, entre uivos e impropérios,
ouvirá o seu testamento
cantado em prosa e em verso!
admiro-te, assim de repente,
Judas satânico,
Judas messiânico,
Judas profético!
amo-te, assim, de repente
explodindo em pedaços,
espalhando mil cores,
fazendo a festa,
Judas sofisticado,
Judas moderno,
Judas pirotécnico!


Nota:
Na Bahia é costume, na “malhação do Judas”, rechear o boneco com bombas e fogos de artifício, que causam efeitos muito bonitos! Um mestre na arte de fazer estes bonecos é Florentino Fogueteiro. Bonecos para todos os gostos, geralmente representando políticos detestados pelo povo...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Antonia Zarate, detalhe

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Gênesis


No princípio era o Verbum
(João, 1;1)



...e Deus,
por ter inventado o mundo
antes de todo mundo,
quanta coisa deixou de aprender!...
escrever, rabiscar, desenhar...
escrever ao acaso, desdenhar...
adivinhar, garatujar...
no princípio era o Verbum...
de repente, as palavras se encontram
ao redor do vazio deixado pelas mesmas palavras...
escrevinhar, rabiscar,
tornar até mesmo adivinháveis as garatujas,
as burundangas, mixórdias e algaravias...
pensar ao léu,
penetrar nos mistérios,
desvendar...
imo ímã hímen mãe serpente cobra boa
hímen ímã irmã mãe serpente naja boa
não haja mais serpente boa
no imo húmus úmido do paraíso
para isso estamos aqui mesmo
serpenteando por nada
por isto tudo e aquil’outro
‘stamos estáticos
sintáticos, sintagmáticos
como ex-finges que te devoras ou me decifro
por dez cifras te devoro me desdenho
pra isto mesmo aqui estamos
desvendando os sonhos
do outro lado do léu
do outro lado do istmo
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Maja Desnuda

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Escalada


Vou ao cimo da montanha
me abastecer de vento e pedregulhos,
sol poente, luminescente,
(tergiverso) reverso,
terra e verso,
contar estrelas que já não choram
(ora, direis!) e nem conversam
deixar quimeras que desabrocham,
ao relento,
para que tenham um passado feliz,
à fina flor dos tempos!
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Nostalgia


Saudade dos verdes campos,
das pastagens,
daquela vida pré-vegetal,
(aquela vida pré-)
atrasado no tempo,
escondido
no mimetismo universal...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Mar obsoleto


Foi desde sempre o mar
e multidões passadas me empurravam
como a barco esquecido.

(Cecília Meireles)



Diante deste mar revolto,
que, outrora, simbolizou
a esperança de um tempo,
estou sozinho e calmo.
Agora já não penso,
sou apenas memória,
lembrança de outros caminhos,
que se perderam
no próprio caminho do vento.
Tento, em vão, recompô-los
e presto atenção às ondas,
se quebrando nos rochedos,
trazendo conchas e búzios,
respostas mudas do mar.
O pensamento é como a água-viva,
atirada na areia,
misteriosa e sedutora.
Quem ousaria romper
O seu invólucro transparente
e suportar a ardente ferida
por puro descaso?
Não! Deixa-o dormir,
longe da praia,
numa profundidade de algas,
num emaranhado de algas,
numa discreta espessura e consistência de algas...
Deixa-o dormir!
Agora sou apenas memória!
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Sierra madre


Grandes asas depenadas,
atrás daquela serra...
Grandes nuvens cinzentas,
impacientes de chuva,
por cima da alegria invernal...
Pedaços verdes de serra...
Pedras esparsas no verde...
As pedras são íngremes na subida...
A sombra das nuvens passeia na serra
e eu não queria mais nada dizer
que não fosse aquilo dito
esparso de sombra
das nuvens passeando na serra...
Não mais!
Algum tempo eu já fui vegetal, distonal,
algum tempo, eu queria te ver...
... E onde a fonte rumoreja
sua canção perdida...
...E a fonte a cantar
sua canção longínqua,
subterrânea,
do lado de dentro...
- Agreste camponesa,
(bucólica, no mais),
tu me levas uma vantagem imensa
nestas curvas retorcidas,
pedras polidas beirando o luar.
Sem demora, não é certo
que eu te alcance jamais
nestes caminhos!
Ainda bem que aquela canção
não se desgastou,
nada se desgastou,
tudo continua...
Os pirilampos verdes como d’antes,
sem saber nada de bioquímica
ou de fosforescência...
Só esta olhessência,
esta essência mesmo
no olho de olhar tudo
e tudo verde ou quase...
Reencontrar meu cheiro de estrume molhado,
meu cheiro de mato novo...
A chuva lava nossos detritos inocentes, persistentes...
A chuva tem esperanças de voltar a ser,
de voltar a ser nuvem
impaciente de chuva,
por cima da alegria invernal...
Então, ninguém sabe como,
de repente nós voltamos,
brolhamos timidamente
e amadurecemos para sempre
nesta safra multicor!
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Mauro Mendes


 

Sentimento
(Bic Poem)


gosto de me sentir vivo,
de ver a vida se depositando,
como a tinta da caneta,
no traço indeciso do poema,
misterioso como as palavras,
que eu não sei de onde vieram
 

 

 

 

 

 

11.04.2006