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Joaquim Alves

joaquim.a.alves@gmail.com

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Andréa Santos

Uma notícia do poeta: 


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Fortuna crítica:

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Culpa

 

 

 

Beatriz Alcântara

 

Albrecht Dürer, Mãos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves

 

 


TALVEZ ASSIM

OU ASSADO...

 

  

Pequena biografia atrapalhada

de um homem a jogar às cartas:

Joaquim António Antunes Alves

ou, simplesmente Joaquim Alves

 

Joaquim Alves

 

 

Nasceu no Paúl, uma grande aldeia à época do pós-guerra II, Concelho da Covilhã, lado sul da Serra de Estrela – a mais alta de Portugal continental, já que a outra fica na Ilha do Pico, no arquipélago dos Açores.

Depois de ali ter crescido até ao metro e trinta, viveu em Faro, capital do Algarve turístico (ainda hoje), em Almada e em Lisboa, antes de Santo António dos Cavaleiros, Lisboa de novo, Barreiro, novamente Paúl e Lisboa trivez.

Formação superior em Filosofia, Teologia e Antropologia; o que significa: venha o diabo e escolha.

Mais tarde (ainda não se sabe bem porquê) ingressou no mundo da publicidade, onde permaneceu mais de vinte anos.

De um dia para o outro, tudo mudou.

Foi dispensado de estratégias traçar, quando a traça entrou na publicidade portuguesa.

Dedicou-se a pintar paredes, papéis, telas e tábuas, sem leis.

Tenta organizar um monte de papéis, manuscritos com palavras da memória, das musas vagas e das ondas do Atlântico que, por vezes, é mais verde que azul e traiçoeiro. E, também, a montanha de pinturelas, com tinta entornada ao longo de mais de duas dezenas de anos.

Trocado por cêntimos: anda às aranhas, como quase toda a gente, nesta mundanidade cada vez mais medíocre, estúpida, e caduca, à espera que alguém lhe dê a estocada final, sem que coragem exista para esse final feliz.

Portanto, nesta vida adiada que nem procria, vivam as artes – neste caso a artes da escrituração -, que não servem para comer, como a seguir se comprova. 

 

 

 

Manoel de Barros

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves

 

 


 

TROPICÁLIA

 

 

Deixei cair
                  uma vírgula
                 uma lágrima
um punhado de sonhos

                         eu sei

deixei cair
                      as mãos
                      as dores
os tremores nas pernas

                         eu sei

Deixei cair
          cabelos e dentes
                 sorte e azar
    até caminhos de oiro

                         eu sei

deixei cair
              o dia e a noite
        a tarde e a manhã
muitas semanas e anos

                         eu sei

Deixei de abrir janelas
            no quintal fiquei
          a contar estrelas
sem saber horas e luas

                         eu sei

deixei-me ficar
ainda estou
sempre
sempre à espera

                        eu sei

daquela culinária
a cravo e canela
de cheirinho bom

Deixei cair
                   uma vírgula
                  uma lágrima
que ao chão não chegou

                  evaporou-se


(Dedicado a um humanista,
com as letras todas grandes,
a quem botaram o nome
de Francisco.)

Monte Abraão, Queluz
madrugada do dia da criança
(como se fosse necessário)
01, junho, 2007
joaquim alves
 

 

 

Ana Cristina Souto

 

Rita Brennand

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves

 

 


CONTOS

&

CRÓNICAS


 

 

O ANÚNCIO

  

Juro que não sei por que acontecem estas coisas comigo.Vinha da Feira da Ladra, e alguém que parecia conhecer-me diz-me de uma assentada: encontrámos o seu cão!

Surpreendido, me acanhei. Mas eu não tenho cão algum!, justifiquei. De nada me serviu. Que o cão era meu, viram-no andar a rondar os meus passos e coisas assim...

Gatos tenho. Siameses, com dois interessantes nomes: Romeu & Julieta.

Fui apanhado. Vão dar-se bem, siameses gostam de cães e qualquer cão gosta de siameses, etc., couves & tal. Pronto! Sem grande convicção, lá levei o bicho.

De caminho, comprei o Expresso, já com aquela mariquice-de-amarelo-vermelho-azul. Abri um dos volumes - o sexto, se não me engano, e lá vinha um anúncio a reclamar o retorno de um cão de raça-e-tudo, mas impresso ao contrário. Provavelmente, foi isso que me chamou a devida atenção. Por uma mera distracção, o respectivo fotolito (sem acento, sff) ficou invertido. Ou seja, assentou mal na esquerda da página.

Acontece aos melhores, comentei para dentro.

Bem, vai daí, peguei num espelho e li tudo!

Telefonei, o Dono do Bicho veio ter comigo, agradeceu, queria dar-me alvíssaras, recusei, tal como evitei que me levasse os siameses.
À despedida, aconteceu o insólito. O Romeu rugiu.

Façam o favor de imaginar o resto.                           

 

 Milagre

Milagre

 

   Milagre. Tem de haver um milagre no meio de tudo isto. Ou muitos milagres. Pai, o que é um milagre, pergunta a lia. É uma daquelas coisas que o menino Jesus do Pessoa roubou no baú lá do céu, respondi. E tu acreditas no céu, voltou a lia a

 perguntar. Não, sim, talvez! E no menino Jesus? Acredito no menino Jesus do Pessoa, que roubou três milagres do baú, lá no céu e se fez menino a sério e veio cá para baixo fazer travessuras que no céu não podia fazer. Pai, quando fores velhinho vais para o céu? Acho que vou. Mas se for para o inferno, também não

 deve ser mau de todo. Penso que tenho amigos nos dois lados, nãovai ser problema.O pior é cá em baixo. E acreditas no Pai Natal, voltou a lia à luta. Mais do que muita gente pensa. Gostavas de estar lá no pólo norte a ajudá-lo a preparar as prendas para os meninos? Já lá estive e gostei. Muito mesmo. Então, viste as renas! E também vi o trenó e os iglos de neve e gelo. Mas, pai, lá dentro são fofinhos e quentes, não são?! Claro, os esquimós sabem como essas coisas se fazem. E eles ajudam o Pai Natal? São as pessoas mais indicadas, até porque estão habituados ao frio lá da zona. Os esqumós têm sempre o nariz vermelho, como o pai Natal, comentou a Lia. Pois é, reforcei. Pai, queres jogar comigo ao peixinho? Agora, não posso. Estou a escrever a nossa conversa. Então, depois do

 almoço. É almoço ou jantar? Agora, é almoço. À noite, é jantar. Pois, concluiu a Lia. Ontem ganhei à avó, antes do jantar. Eu fiz quatro e a avó só fez dois.

(Tradução)

 Tem de haver um milagre no meio de tudo isto. Ou muitos milagres. Pai, o que é um milagre, pergunta a Lia. É uma daquelas coisas que o menino Jesus do Pessoa roubou no baú lá do céu, respondi. E tu acreditas no céu, voltou a Lia a perguntar. Não, sim, talvez! E no menino Jesus? Acredito no menino Jesus do Pessoa, que roubou três milagres do baú, lá no céu e se fez menino a sério e veio cá para baixo fazer travessuras que no céu não podia fazer. Pai, quando fores velhinho vais para o céu? Acho que vou. Mas se for para o inferno, também não deve ser mau de todo.

Penso que tenho amigos nos dois lados, não vai ser problema. O pior é cá em baixo. E acreditas no Pai Natal, voltou a Lia à luta. Mais do que muita gente pensa. Gostavas de estar lá no pólo norte a ajudá-lo a preparar as prendas para os meninos? Já lá estive e gostei. Muito mesmo. Então, viste as renas! E também vi o trenó e os iglos de neve e gelo. Mas, pai, lá dentro são fofinhos e quentes, não são?! Claro, os esquimós sabem como essas coisas se fazem. E eles ajudam o Pai Natal? São as pessoas mais indicadas, até porque estão habituados ao frio lá da zona. Os esquimós têm sempre o nariz vermelho, como o pai Natal, comentou a Lia. Pois é, reforcei. Pai, queres jogar comigo ao peixinho?

Agora, não posso. Estou a escrever a nossa conversa. Então, depois do almoço. É almoço ou jantar? Agora, é almoço. À noite, é jantar. Pois, concluiu a Lia. Ontem ganhei à avó, antes do jantar. Eu fiz quatro e a avó só fez dois.

 

O Mágico das Flautas

 

 

 

Quando o vento soprava do lado do mar e era tempo seco, João Socorro afirmava para quem o quisesse ouvir que não era ainda tempo de colher canas.

Quem o conhecia percebia claramente o que ele queria dizer.

Mas um dia enganou-se.

Passando por uma propriedade em que as canas eram

aos milhões, não resistiu a fazer a sua colheita, muito embora a maior parte de sua eleição já estivesse em outras mãos. Provavelmente pelo proprietário do terreno que achou por bem vindimar o canavial.

Tal situação até agradou ao senhor Socorro, como era conhecido na vilória lá do sítio da cana.

Conheci-o em vésperas de uma festa anual e antiga, por alturas da primavera, transportando um sem número de varas debaixo do braço.

Meti conversa e perguntei-lhe se era para fazer empas em alguma sementeira. Que não, respondeu-me.

E continuou no seu passo normal e calmo.

Só que não desisti e comecei uma discreta perseguição ao estado de espírito do homem que desafiou a profunda curiosidade de todo o ser humano e dos gatos.

Como parou numa curva do caminho, para atar uma das botas que calçava, facilmente o alcancei e voltei à carga.

Pareceu-me que o humor do dia não seria dos melhores e, apesar de tudo, atrevi-me a fazer a pergunta com outros modos, com uma introdução personalizada da minha parte.

Do género: também semeei feijão este ano, mas ainda não cresceu o suficiente para ser necessário colocar-lhe ajudas. O Ti João sorriu. Trocista, penso.

Vai daí, disse-me "quer saber para que quero estas canas, venha comigo que eu mostro-lhe".

Resultou! Não sem que antes começasse um interrogatório do outro lado que muita gente não gosta de receber.

Amor com amor se paga, pensei. E fomos prosseguindo no caminho de terra batida, por vezes com pedras e bocados de tijolos deitados um pouco ao acaso durante a época invernosa.

Chegados a sua casa, Ti João avisou-me que ia esperar um pouco. Que não fazia mal, respondi-lhe. Dirigiu-se para as traseiras, demorou alguns minutos e regressou a limpar uma mão na outra. Meteu a mão ao bolso e tirou uma chave. Calmamente, meteu-a na fechadura, puxou a porta, abriu-a e deu-me ordem de entrada. Recusei ser o primeiro a entrar. Puxou-me pelo braço. Aceitei.

Em passos de homem vivido, guardou a chave de casa e dirigiu-se para uma das portas que ligava a entrada a outras zonas do seu mundo. Voltou pouco depois com uma garrafa na mão. Pela cor percebi que devia ser vinho tinto. "Vai provar uma boa pinga feita por mim", avisou. Gosta?, acrescentou. Pelo meu sinal de olhos e cabeça percebeu aceitação.

Um copo de saúde e algumas cerejas de conversa, Ti João ia finalmente revelar-me o resultado da sua parcimoniosa escolha de canas e do seu paciente e sábio artesanato pessoal.

Abriu um armário, pintado com aquela arte de Alentejo quente e árido, mostrou-me um festival de flautas, que meus olhos engoliram em seco, e segredou-me: este é o meu tesouro.

E duma destas canas que hoje trouxe foi fazer uma para si. Volte por cá um dia destes.

Disse-lhe que sim. Agradeci, já cá fora, e voltei a fazer o caminho do encalce que me levaria ao santuário de João Socorro, o mágico das flautas.

Claro que um dia destes volto lá. Quero aprender a tocar flauta!

 

 

 

Natércia Campos

 

Regine Limaverde

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves

 

BIBLIOTECA

 

Janelas

 

 

pessoa já morreu

o que faz aqui ao canto da estante

destino evidente é o lixo

como já devia ter acontecido

ainda por cima alcoólico

solteiro e outras coisas mais

e logo ao lado um tal brecht

comunista dos sete costados

defensor dos operários de tebas

e todas as partes do mundo

além de afirmar solenemente

que o camponês depende

do preço do leite do dia

desactualizado como está

direito para o lixo vai e já

infeliz do vizinho próximo

que um borges no nome tem

apesar de ceguetas e tretas

julgava que era alguém

ficções no lixo 'stá

em seu auxílio veio duras

mania de mulher d'armas

expulsa de imediato foi

não sem que antes lhe desse

uma dentada em hiroxima

antes do arremesso

e assim chegou a anne

clamando por justiça breve

mas sorte não teve a incursão

já que numa acção de depuração

piedade não poupa ninguém

seguiu-se uma carta volátil

que não pertencia ao baralho

mesmo de garcia para garcia

voou logo pela janela

que a leiam devagar à lareira

assim pelo menos salvou-se

de ir para o fogo da lixeira

não sei o nome do seguinte

pois em alemão só está

com o mesmo destino traçado

lixo limpo sem ser seleccionado

que a guerra há muito acabou

atrás veio o gil sem teatro

foi parda foi sousa foi inferno

agora vai ser pura cinza

ainda o movimento era ar

sai a caminho jean-paul

com um livro de condenados

coisa de existência triste

que nem sequer fala do fado

sem cerimónia pimba

o norte já lhe está traçado

era o que faltava poupar

uns intelectuais de pacotilha

foi albert foi sísifo foi trolha

quero lá saber o que foram

então não morreram

são lixo pó cinza e nada

nem a poetisa escapou

que se lixe a sua charneca

e logo aproveitou o daniel

para vir pedir paz amor e rosas

aqui não há lugar para nada

está tudo cheio de conversas

mentiras e cobardias

não há lugar pá poesia

nem para o ensaio e estreias

vai tudo corrido à vassourada

e fechem já a porta

não há mais entradas

as cotas estão ocupadas

a estante é pequena

ninguém se salva

há gente nova e viva

que merece o seu espaço

os mortos todos nada valem

isto é uma biblioteca moderna

não é um esquife da natália

 

 

 

Cissa de Oliveira

 

Helena Armond

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves

na voz de

Luís Gaspar


É algo muito interessante. Um poeta também português, Luís Gaspar, recita poemas e os apresenta em áudio. Joaquim Alves está no n° 36, em companhia do poeta Manuel Anastácio.

Vale conferir. É só clicar, direto para o Estúdio Raposa; em seguida, clicar em Lugar aos outros - 36:

Em Lugar aos outros 36, o roteiro de como fazer o download do arquivo em jpg. Em seguida, é ligar o som e escutar!

O trabalho de Manuel Anastácio está interessantíssimo. O próximo passo, com certeza, será o vídeo.

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

Elizabeth Marinheiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

 

 

 

 

 

Joaquim Alves


 

Lua marçalina do meu amor


hoje entrei pela porta traversa
à procura do meu amor
que não vejo desde a batalha de aljubarrota


nem sei se vivo é ainda
passaram tantos tempos e distâncias
pode já ter morrido o meu amor


apesar de tudo procuro-o entre vales e sombras
pois sinto que por aqui ele deve dormir


e mesmo que de sonho se trate
não posso perder de vista o meu amor
já que de uma castelhana se trata


sei que por vezes o sonhar é devastador
e visões fora dos tempos tem


mas o que dele seria sem essa alma cega
daninha e secreta - selvagem até - penso agora
quando ainda não encontrei o meu amor
perdido algures entre a nazaré e aljubarrota


e assinar me posso
pobre combatente que pão não comeu da dita padeira
que sete matou duma assentada


será que ela sabe onde está o meu amor
portuguesa que sete castelhanos matou


[joaquim alves . lisboa sob a noite de uma lua marçalina
29. setembro.1999]


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

 

 

Joaquim Alves


 

1

Quem escolheu a página? Branca, viva, incólume,
invejável presença de energia vegetal.
A mão, a cabeça, o coração?
Ou a página é que me escolheu a mim?


2

Juntei a mão ao som da página.
O silêncio, à direita do ombro esquerdo,
dilacera a sombra e a consciência.
De que lado estou, quando escrevo?
E de que lado observo
o que não escrevo?
Será a página o avesso do querer?


3

Analiso as linhas do perguntar.
Haverá resposta
para tanta luz de dúvida?


4

Parece Dia de Luzes.
O sol, meio adormecido, deita-se nesta página.
Vira-se de um lado para o outro.
Entontece-me.
Que anda o sol aqui a fazer?
Três da madrugada.
E um choro branco a acordar-me.


5

Sortilégio, de certeza, não é.
Nâo acredito em páginas por escrever:
distâncias ocultas, perdidas no tempo,
ecos que não vêm do coração.
Não acredito no tempo.
Esvai-se. Perde-se. Gasta-se.
Como uma página rasgada sem querer.


6

Recupero, por instantes, uma lucidez que dói.
Rompo os limites de toda a situação conforme.
Costumes, hábitos, tabus, silêncios, conciliação.
De mim para mim, excedo-me
no limile ilimitado da lucidez a medir.
Excedo-m em sonhos de nada e sentidos.
Por acaso, a folha verde da árvore encarnada,
nascida em terra vermelha,
de sangue a borbulhar, muda de cor se eu corar?


7

Não há sustento fixo para o fruto da proibição.
Há nomes escritos no negro da tinta.
Lá, onde o silêncio e o vazio são brancos,
antes da sementeira e do significado.


8

Porventura, é crime
adorar os movimentos inesperados,
originais e frescos, da mão indo e vindo,
em linhas descontínuas, doces
e cheias de interrogação?
Será?


9

Baixo, agora, a têmpora.
Procuro a harmonia da mão,
vitalmente empenhada em comungar
da certeza e do sonho.
E encontro, em heras subindo à janela,
o teu olhar a sorrir da minha tentativa.


10

Já compreendeste, oh se compreendeste,
o empreendimento em que gasto energias
sempre renováveis, poderosas e eternas.
Um dia, viramos a cara para o horizonte e é noite.
Outro dia, olhamos o sol e é manhã.
Noutro, ainda, alcançamos uma nuvem
e deitamo-nos ao lado dela.
Será que vale a pena sonhar?


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Joaquim Alves


 

Roubei girassóis para Van Gogh


Roubei girassóis da casa da minha tia.
Roubei-os, mas com ajuda!
Comigo foram o Almada e a Sara;
o Régio e o Drumond; a Sophia e o Jorge;
a Cecília e o Fernando.
Um assalto, sem cúmplices,
nunca seria verdadeiro e credível.


Trepei pelo granito, segurei-me às ripas,
arranquei as plantas, e atirei-as para baixo.
Tudo isto, enquanto a minha tia dormia.
Almada, Sara e Sophia ficaram com três.
Se não me engano, o Régio e Cecília com duas.
O Fernando (ou será que foi o Jorge) apanhou outra.
O último girassol trouxe-o comigo.
Ofereci-o ao Drumond, mas ainda o guardo no coração.


Quem pode colocar ordem, nesta minha confusão,
é o Zé Gomes Ferreira que tudo fotografou.


A claque também não faltou.
Presentes: o Alexandre, o Ary e a Natália;
Dinis, Florbela e Garrett.
Estes que nem convidados foram!


Era uma sexta-feira quaresmática.
Disso recordo-me, de acordo com o calendário
da Magna e Santa Igreja Católica.
O Belo assegura-me que esteve um lindo dia de sol.
Não me lembro...
Sei que desci, colocando os pés nas pedras por onde subi.
Eram-me tão familiares, como as minhas mãos.


Girassóis roubei da varanda da minha tia.
Mas ela perdoou-me, quando lhe disse
que era para o Vicente os pintar.
E guardo ainda um original da série na casa da minha tia.


Se vale milhões, não sei. Até porque tudo é,
quase sempre, pouco mais que nada.


 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1.6.2007