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Leila Míccolis

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Noli me tangere

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Bio-bibliografia


Leila Miccolis nasceu no Rio de Janeiro. É editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática. Publicou, entre outros, os livros: Em perfeito mau estado, Editora Achiamé, Rio de Janeiro, 1987; Do poder ao poder - alternativas na poesia e no jornalismo nos anos 60, Editora Tchê, Rio Grande do Sul, 1987; O bom filho a casa torra, editoras Edicon e  Blocos, São Paulo e Rio, 1992; Achadas e Perdidas e Sangue cenográfico, Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1997.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Por Mares Nunca D'antes Navegados

A Gilberto Mendonça Teles


Decididamente,
escola não era o lugar de Camões...
Que me perdoem os mestres
com suas erudições,
mas, epopéia, era sair cedo da cama,
só para encontrar Vasco da Gama.
Cheia de sono,
nem o lia:
mal abria Os Lusíadas,
ao abandono de divagar
eu me entregava.
E como viajava:
Coimbra, Ceuta, Goa,
Índia, Moçambique, Lisboa...
Esta sim era a vida que eu sonhava...
E que vidinha boa!
Não a de estudos,
sisudos,
miúdos.
A certa altura,
logo depois da formatura,
quando cessou tudo o que a Musa antiga cantou
que outro valor mais alto se alevantou,
de Camões me perdi.
E só há pouco entendi
quanta aprendizagem havia
nas v(ad)iagens que eu, turista,
empreendia.
Então num movimento saudosista
— bem português —,
agora cheia de lucidez e nostalgia,
suspiro,
ao ver que de mim se distancia
por toda a parte, sem engenho, a arte.
E a conclusão final que eu tiro,
pá,
é de que mesmo sem eu ler poesia,
para o seu Reino, cheio de magia,
Camões, fidalgo, me levava lá...
 

 

 

 

Henry J. Hudson, Neaera Reading a Letter From Catallus

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Miguel Sanches Neto, 2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Efeitos Óticos


Quanto mais se envelhece
mais os mortos se aproximam.
Mas a conversa é difícil:
eles usam expressões diáfanas,
ectoplásticas,
e sussurram sombras.
Às vezes,
figuras nos muram grafitam;
outros,
em torno da palavras gravitam.
E sempre que se vão,
atravessando tijolo,
concreto, cimento e cal,
nos deixam a confirmação
— nenhuma parede é real.
 

 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Roberto Pires

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Aquarela


Da minha infância
retiro as fotografias da família
no luto diário,
os olhos invisíveis
condenando curiosidades,
o baú de preciosidades
(e traças devassas),
trancadas a cadeado,
os sonhos desenfreados,
a mística do susto,
os flagrantes,
evitados a custo,
e por fim retiro-me do porão
com tudo o que continha minha imaginação
delirante.
Fica a vida.
Que nem parecia importante.


 

 

 

Octavio Paz, Nobel

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José Alcides Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Camadas


Ser livre não é manter-se
intocável, sem entregas,
nem se dar também, às cegas,
a tudo o que nos agrade.
Ser livre é viver a idade
que sente o nosso querer,
é viver conforme a vida
é sobretudo viver.
E viver é mergulhar
pra emergir com o submerso,
ampliando,a cada dia,
os limites do universo.

 

 

 

Maura Barros de Carvalhos, Tentativa de retrato da alma do poeta

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Mauro Mendes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Vã Filosofia...


Falas muito de Marx,
de divisão de tarefas,
de trabalho de base,
mas quando te levantas
nem a cama fazes...

 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Ricardo Alfaya

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Maja Desnuda

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Devastação


Vêm os jovens
e escrevem nas árvores seus nomes entrelaçados;
voltam adultos
e destroem esses corações apaixonados.

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

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J. Romero Antonialli

 

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

Leila Míccolis


 

Conservas


No meio das noites, a noite
em que se fantasia cometer loucuras:
a tia tenta o suicídio,
o primo foge de casa,
a irmã se prostitui,
a cunhada sai pela rua, nua,
o menor incestua...
Uma noite singular,
uma noite sem par,
uma noite só.
Depois, arrependidos, todos voltam
a viver dos conselhos da vovó.

 

 

 

Da Vinci, Madona Litta_detalhe.jpg

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Sébastien Joachim