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Caio Porfírio Carneiro 

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Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Contos:


Alguma notícia do autor:

 


 

Caio Porfírio Carneiro, 75 anos, mais de meio século dedicado à boa literatura. [2003]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova. 1864.

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Caio Porfírio Carneiro



Minha terra


Minha terra
querida com laço de fita
eu rimaria sem pressa.
A minha terra é áspera
é tempo que se prolonga
desde avoengos tropéis
que o sopro do vento não mata
em espaço tão corrido
ao embalo desta rede.
Meu pé borrando a parede
e o ranger dos armadores
pra cá pra lá
pra lá pra cá
marca o tempo presente
tic-tac ao correr do tempo
que firma o mourão na terra
e com ela perpetua
currais porteiras campos
espelhos de águas tranqüilas
paredes buscando os céus
pé direito oito metros
janelas portas rangentes
alpendre aberto aos caminhos
retratos que fitam austeros
esperam muito de mim
e me eternizam aqui
na argila deste chão.


[Bar Restauradores, 27.1.1995, 20h]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Caio Porfírio Carneiro



Bio-Bibliografia


Caio Porfírio Carneiro é natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem cultivado o conto com regularidade. Sua estréia no gênero se deu em 1961, com o elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos e o Agreste (1969), O Casarão (1975), ChuvaOs Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) e Maiores e Menores (2003). Seus romances são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A Oportunidade, estas em 1988. É autor também de ensaios, como Do Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Da Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de Bar, Perfis de Memoráveis). Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1975. [2007]
 

 

 

 

Albrecht Dürer, Mãos

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Ricardo Alfaya

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Caio Porfírio Carneiro



Dois comentários sobre a poesia de Soares Feitosa



1 - Psi, a Penúltima:

Nem sei como deverei ler esse livro, se do começo para o fim, se do fim para o começo ou do meio para os dois lados. Porque em qualquer lugar que o abra, Psi, a Penúltima é uma surpresa. Você, Feitosa, é uma roldana viva; você é globalizante, telúrico, lírico, lúdico, numa unção mágica de prece, denúncia, passado que se faz presente, cinema ao mesmo tempo desfocado e ao mesmo tempo de foco vivo, fotográfico, direto aos olhos e à alma do leitor. Li agora os Panos Passados, referência ao poema do Luciano Maia, e senti uma saudade doida e doída do nosso mundo conterrâneo. Transportei tudo aquilo para o Acaraú da minha infância e dos meus dias de hoje.

Comentando os livros do Pedro Rodrigues Salgueiro, afirmei, e creio que com razão, que nós nordestinos trazemos na alma e na sensibilidade esse atavismo medonho de culpa e danação, herança dos antepassados, que nos aguça a auto-estima e nos leva à busca de uma permanente e não bem localizável remissão. Alguns traduzem isto, na literatura, na arrebatadora solidão. Você, abrindo o leque em várias frentes, caminha sempre, sem esquecer as raízes e chão da infância, para o apelo, quase o sermão, e nunca para o discurso e o panfleto!

Você é demais, irmão. O seu livro é para ser lido, relido, trelido, ficar meio "doido" dentro dele, como se fica meio tonto no meio dos redemoinhos de poeira das estradas... Saravá! Que o nosso Padim Ciço lhe abençoe e Lampião, que venceu o próprio Diabo num tiroteio, faça um sinal no ombro direito com o seu punhal de prata, para que nunca se esgote essa chama luminosa e viva que nasce em você como um sinal sensível de beleza e Vida.

2 - Salomão:

Recebi Salomão e o Salomão me espantou. Este livro não é só poesia, este livro não é bem prosa, este livro é um furacão (suave?) totalizante. Este livro é um vendaval. É história, é presente, é áspero, é lírico — este livro é uma canção. De uma plasticidade vívida e humanismo. É um poema do épico e do heróico. Este Relato do Bibliotecário é outra beleza. Não se pode analisar Salomão num relato breve. É para ser estudado nas suas nuanças, nas suas amostragens, na sua notável originalidade. Pronto como está, este livro este livro é belo até de ponta-cabeça. Livro para ser bem lançado, em amplo alcance nacional.
 



Soares Feitosa, 2003
 

 

 

Um cronômetro para piscinas

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Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Cláudio Portella



Caio Porfírio, 50 anos de Literatura

 

"Estou com dois novos livros de Caio Porfírio Carneiro, o primeiro deles é ´Trapiá´ (4ª edição / 2003 - Ribeirão Gráfica e Editora, 210 págs., R$ 25,00), seu primeiro livro de contos, publicado originalmente em 1961. O que tenho nas mãos é a quarta edição". Apesar de passados 42 anos permanece atual, de uma atualidade que beira, ou ultrapassa, o pós-moderno.

Trapiá é um livro de temática regionalista. Estão nele elementos do sertão. Ali está o coronel com toda a sua empáfia e seu particular senso de justiça, como vemos nos contos ´Milho empendoado´, ´Come gato´, ´Macambira´ e ´Ventania´. Está também o caboclo em sua rusticidade típica, natural, sem estereótipos, encontrado nos contos ´A dívida´ e ´O padrinho´.

O novo, o atemporal em Trapiá é a linguagem. A marca que Caio imprime em sua prosa. Não gosto de metáforas. Mas vou usar uma, até porque tem tudo haver com o regional. Pense num gado ferrado com CP. É isso, a linguagem de Caio é um gado, um animal vivo, marcado, impossível de não diferenciar.

Nada de seguir os passos de Guimarães Rosa, nada de trilhar (muito embora esteja mais próximo dele) os caminhos de Graciliano Ramos. Caio sabe bem o que faz, fugia do lugar comum, sabia que para retratar algo não é necessário caricaturá-lo.

Em Trapiá, quando o sertanejo fala, sua língua é a portuguesa, não um arabesco medonho, a ingenuidade de querer ´pintar´ o auto-retrato do matuto tirando uma fotografia. Aliás, dizem que foto não tem alma.

Ler a quarta edição de Trapiá é ir além da paisagem, penso até que a paisagem é mero acaso, o que conta é o ponto que o autor acrescenta, é o elemento que, nós críticos, temos enorme dificuldade em explicar: o estilo próprio.

Maiores & menores: o novo Caio
 

Como falei, faz 42 anos que Caio Porfírio lançou seu primeiro livro de contos. Este ano o contista lança Maiores e menores (Alpharrabio Edições, 91 págs., R$ 18,00). Apesar de passear pelo o romance, novela, literatura juvenil e até mesmo poesia. Caio se consagrou como contista. Arrisco-me até em dizer que é hoje um dos melhores contistas vivos do país.

Encontramos nesse novo livro de contos um autor que finalmente pôs arreio na técnica de escrever histórias curtas. Digo histórias curtas levando em conta que o conto seja uma narração menor que o romance. Na apresentação do livro há uma definição de conto pelo autor bastante perspicaz: ´O conto é conto quando conto é. Acabou. Digo tudo e não digo nada. O mais é o mais.´
Digo sempre que estilo é para ser cultivado, regado a cada livro. Caio fez exatamente isto em seu novo livro. Os contos são pincelados. Nada é demais, nem de menos. Ao que me parece, há em cada conto uma equação matemática devidamente estudada.
O livro não tem escola. É um livro de contos escritos no final do século XX e ponto. Definições não cabem, até mesmo porque o tempo de definir já passou, estamos no tempo de mostrar:
´Chamava-se Maria Magdalena de Souza Hermenegilda Aranha Nogueira Ramos Paes Leme Caminha Noronha de Almeida. Magdalena com G. Nome tão extenso aproximou-me daquela moça amorenada, nova, alegre, espigada. (...) - Pois veja como são as coisas. Eu, ao contrário de você, chamo-me apenas José Dico. Pode? Fui registrado assim. Você não dá bola para nome tão grande e eu me encolho com nome tão pequeno e feio. (...) - Não venha me dizer que não pulou a cerca durante o tempo em que andou casada com os três coitados... - Dei alguns pulos. Pus alguns chifres, mas não o suficiente para que eu me tornasse uma distribuidora deles. - Então empatamos. No fundo, pelo que vejo, somos dois cínicos. - Você acha? - Acho. - Sabe que você tem razão? E sabe outra coisa, querido? - O que é? - Vamos tomar um lanche? Sentados temos muito mais tempo para agredirmos um ao outro. Que tal? - Topo a briga. Não vou dar aula hoje. - E nem pense que eu quero receber de você alguma lição. - Ensinar a você? Santo Deus. (...) - Puxa, como você é bonita... - Você acha? E cadê o seu tesão? - Ele vem por aí... (...) - Santa, que cacetão. E está olhando para mim. Que susto. - Gostou? - Não experimentei ainda. - Pois vamos ver. (...) - Pensa que sou passiva? Vai ver. (...) - Quero ver agora se você é macho. Mete em mim essa vara ou bota ela no ombro e vai pescar noutra lagoa. - O meu pinto não tem anzol. - Anda, macho. Deixa de frescura. Começa a trabalhar. (...) - Professorzinho de merda. Nem ensinar a transar sabe direito. Vem, vem ver se eu sou analfabeta. Vem... vem... - Estou indo, porra... Você quer que eu lhe atravesse e o meu pinto saia nas suas costas? Isto é um pênis, não é uma lança de guerra. - A batalha é grande. Continua guerreando com essa lança enferrujada. Vem, vai... (...) O atendente, que me conhecia, balançou a cabeça de admiração: - Foi a mulher mais bonita que o senhor trouxe aqui. Que peixão. - Respeite. É baronesa. Sabe como é o nome dela? Puxei o papel do bolso: - Maria Magdalena de Souza Hermenegilda Aranha Nogueira Ramos Paes Leme Caminha Noronha de Almeida, ouviu bem? E mais: Magdalena com G. Ela é nobre, sabe o que é isso? Nobreza. Realeza, meu amigo, realeza. Saí pisando firme, feito um verdadeiro lorde, pensando em adquirir, não sabia onde, uma cartola, um par de luvas brancas e um bengala.´ (Do conto Realeza)

Caio Porfírio Carneiro, 75 anos, mais de meio século dedicado à boa literatura, no conto.
 

 

Cláudio Portella

 

 

Michelangelo, Pietá

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José Peixoto Jr

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo de Tarso Pardal

 

 

Caio Porfírio Carneiro

 


 

ESTRIAS DA ALMA

 

 

Carnavalha (Ed. Bestiário, Porto Alegre, 2007), de Nilto Maciel, é uma desnorteante rosa-dos-ventos literária. Pouco vimos, na literatura brasileira atual, ou fora dela, criação ficcional assim. Não porque haja aqui uma originalidade, formal ou de conteúdo, até hoje despercebida e não excursionada por outros. Falta apenas, sem falsa ironia, aparecer um romance de ponta-cabeça. Mas chegaremos lá.

O que se dá de inusitado, neste escritor, e avulta no livro, é a notável amostragem ou montagem, impressionista e impressionante, de todo um universo, meio submerso e doído, de vidas, em particular ao nível da baixa classe média, em contraponto às alegorias emblemáticas das diversões carnavalescas. São os espelhos das pantomimas e os contra-espelhos das criaturas sem horizontes na mesmice do dia-a-dia.

O que sobressai e sensibiliza são as tomadas de cenas continuadas. Os grupos carnavalescos passam e das cadeiras nas calçadas e das cabeças nas janelas exsurgem um mundo de criaturas do povo que comentam o que vêem e quem vêem. O grotesco está nos foliões, mas o chapliniano está mais dentro das referidas criaturas, pela vida que levam sem maiores horizontes a alcançar e ambicionar.

Tudo sem denúncia social; tudo exatamente como os corsos dos “sujos” que perambulam pela cidade; tudo em meios-tons, esse diapasão literário que vai à alma de qualquer um; tudo aparentemente – sempre o aparente da boa ficção – corriqueiro e banal.

Aí onde o carro pega, com toda a sua força de impulsão, cadenciada de achados literários surpreendentes, nos simples comentários e fuxicos, tão comuns nos bairros diversos onde todos mais ou menos se conhecem. E o impacto mostra-se surpreendente nas simples descrições elípticas dessa gente que assiste ao desfile, comenta pouco, o essencial, e vemos, em lampejo cinematográfico, até a alma de cada uma das criaturas. E vem o mais pungente, no seu todo envolvente: a precariedade de tudo, no vendaval que entra pelos meandros das veredas sociais.

O autor insere, ao longo dos capítulos nominados, como num crescendo sinfônico, curtos minicontos ou crônicas ficcionadas, onde a alegoria e o fantástico atingem pontos inesperados de criações paralelas dentro do todo romanceado. São girândolas belamente visualizadas que marcam os contrapontos vívidos da criação. É que a vida caminha assim, com picos ilusórios de fantasias irrealizáveis. E o autor costura isto muito bem, aprofundando as raízes das vidas incolores.

Como Nilto Maciel capta bem esse mundo... Como traz a relevo, disfarçadamente, esse esmerilhar de vidas... Como se vale da riqueza dos detalhes... Como a linguagem é notavelmente apropriada e personalíssima... Como...

Outros comos poderiam se somar a estes, mas fiquemos em mais um: o livro é para ser lido continuadamente, de fio a pavio, eis que as sete partes que o compõem são faces de luz e sombra de um todo, porque ele desperta a curiosidade do leitor, como um filme em preto e branco, logo de saída. Mas como tudo gira tal uma roldana, abra o leitor o livro onde abri-lo que não o soltará, porque a empatia é imediata e se vê logo metido nessa onda que vai e que não pára.

A Carnavalha segue e voleia em envolvência ampla quando alcança patamar social melhor na capital federal e os jovens, nela e através dela, espelham bem como se comportam e vêem a vida nos dias de hoje, onde muitos valores estabelecidos ruem, perdem o fôlego e se exaurem.

O autor, numa aparente dispersão, faz jogo inverso e tudo vai na ciranda, sem apelação, até mesmo o sentido das frases e das palavras, na oitava parte do livro, que encerra, e o próprio fecho corre em brisa nas fragmentações de sílabas, de sons...

É o carnaval da Vida, observado em vários ângulos, onde, no último suspiro, tudo vai perecendo no “fim fino finos fins finis.”

Carnavalha são as estrias da alma neste mundo sem apelo.

 

 

São Paulo, 22/09/2007

Nilto Maciel 

   
 
 

 

 

 

10/10/2006