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Carlos Gildemar Pontes

gildemarpontes@zipmail.com.br

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica:


Contos:


Alguma notícia do autor:


Foto: Neysla Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

 

Jornal do Conto

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes



Nota bio-bibliográfica:


Poeta, ficcionista, ensaísta e editor da Revista Acauã. Professor de Literatura da UFCG. Cursa (2007) Doutorado em Literatura e Cultura na UFPB.

Publicação: Tem doze livros publicados: 6 de poemas, 3 de contos, dois de ensaios e o Super Dicionário de Cearensês (um dos livros mais vendidos do Ceará) e 4 cordéis.

Principais livros:
- Caixa postal (poemas postais), 1986;
- Metafísica das partes, poesia, 1991;
- O olhar de Narciso, poesia, 1995;
- O silêncio, conto infantil, 1996;
- A miragem do espelho, conto, 1998;
- Super dicionário de cearensês, expressões regionais, 2000;
- Literatura (quase sempre) marginal, crítica literária, 2002;
- Os gestos do amor: magia e ritual, poesia, 2004;
- Porta fólio, conto, 2004;
- Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, ensaios, 2005

Prêmios:
- Recebeu inúmeros prêmios literários, sendo os mais importantes:
- Menção Honrosa do Prêmio Estado do Ceará de Poesia, 1985;
- Prêmio Literário Cidade de Fortaleza – Conto, 1990;
- Medalha de Bronze no Concurso Nacional de Contos de Brasília, 1992;
- Vencedor do Prêmio Ceará de Literatura – Poesia, 1993.
- Vencedor do Prêmio Novos Autores Paraibanos – Conto, 1998, com o livro A miragem do espelho;
- Vencedor do Concurso Nacional de Poesia e Crônica, promovido pela Revista Estalo, de Belo Horizonte; 1º lugar em Crônica e 2º lugar em Poesia, em 2005;
- Vencedor do Prêmio Audifax Amorim de Poesia - 2005, promovido pela Prefeitura Municipal de Colatina – ES.
- Indicado para o Prêmio Portugal Telecom – 2005, com o livro de poemas Os gestos do amor.

Integrou e dirigiu o Grupo Verso ao Vento, de Performance Poética.

Foi traduzido para o espanhol por Félix Contreras e publicado em Cuba, nas Revistas Bohemia e Antenas.

 

 

 

Bernini, Apollo and Dafne, detail

Início desta página

Claudio Willer

 

 

 

 

 

 

 

 

The Gates of Dawn, Herbert Draper, UK, 1863-1920

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes



A Palma da Minha Mão


na palma da minha mão
trago mais de mil segredos
outros tantos mil enredos
e mais dois mil arremedos
 
na palma da minha mão
tem o m de maria
e muitos sinais que um dia
uma cigana apontou
 
na palma da minha mão
trago a linha do destino
um longo arco e um caminho
que parte do coração
 
na palma da minha mão
há traços que se entrelinham
formando largos bordados
mostrando novos caminhos
 
da palma da minha mão
saltam cinco longos dedos
cada um com a missão:
libertar-me dos degredos
 
minha mão tem muitas marcas
pontos brancos e vermelhos
riscos e uma cicatriz
que trago desde menino
 
a palma da minha mão
com tudo que nela há
guarda o signo de um mistério
que alimenta o meu sonhar
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


 

Como tirar o leite das putas


Pegar um carro e partir louco
rumo ao desejo
depois desejar fugir
para o esconderijo dos anjos
os becos escuros
onde dormem os trombadinhas
e a minha infância
 
lembrar das moças adolescentes
com seus peitos adolescentes
furando a eternidade
fumar junto com elas
seus primeiros cigarros
fumegando suas taras
no meu corpo escancarado
retorcido de paixões moleques
puro como o leite dos peitos das putas
como os filhos dos filhos das putas

beber nos olhos das putas
a solidão de todos os homens
farejar em seus corpos
o perfume das éguas no cio
e desencarnar estúpido e ruidoso
a saliva grossa de deus.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


 

Os olhos do encanto


Teus olhos são pérolas
que se formaram no mar
e foram devolvidas à praia
dentro de búzios.

Uns anjos que passavam colheram-nos
mas eu os roubei da porta do céu.

Como castigo,
fiquei cativo dos teus olhos
e trago-os em mim
desde o dia em que te conheci.

Quando teus olhos emergiram
naquela manhã,
um pássaro saltou no azul
e eu me encantei para sempre.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


 

O que faço desse amor?


O que faço com teu cheiro
que ainda está em mim, na cama, nos lençóis
e não quer sair

O que é que faço com teus beijos
teus lábios ainda permanecem em meu corpo
na minha boca ressecada

o que é que faço com teus cabelos
que ondearam meu rosto como fios de cetim

o que é que faço sem teus olhos
pequenos e brilhantes nas tardes de amor

o que é que eu faço sem tua boca
deliciosamente morna, morada da minha língua

o que é que faço sem teus seios
pequenas divindades onde eu ancorava
meu desejo de ser novamente um neném

o que é que eu faço sem teu sexo
onde eu renasci
e fiquei refém da eternidade do gozo

o que faço, meu amor, desse amor que sinto
e não tenho mais como te dar

devo refazer o futuro?
como, se ainda não o vivi?

o futuro era para nós aprendermos
a sonhar juntos,
para tecermos a alegria e a bondade
para erguermos uma parede
e outra e mais outra
até construirmos nosso amor
a prova de sol e chuva

o que é que eu faço com esta solidão tão antiga
que me persegue e me deixa tão indefeso

cessa esse pranto agora!
desata esta dor para ela ir embora
sabe, eu só te queria pra sempre
pra gente, quando velhinho, brincar
de contar histórias pros nossos netinhos.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes



Ausência


Eu não queria te fazer este poema
eu preferia estar te dizendo
coisas simples, confusas
frases feitas

melhor do que esta distância
que me consome os dias

eu não queria olhar triste para a praça
e ver os meninos brincando
o passarinho ciscando
e tu fora desta moldura

eu não queria anoitecer
e saber que o teu cheiro
preencheria o quarto
e a minha solidão

melhor seria nunca ter-te visto
te tocado
te preparado para herdar este poema

eu não queria esta ausência
nem esta distância
eu só te queria pra esta noite
quem sabe amanhã e depois
quem sabe quando é o sempre...?


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


 

A esperança bate


Bate a esperança
a esperança bate
crio este refrão:
a esperança bate

busco a rima inútil
a pancada do coração
a esperança bate
e eu escuto

vou além do fútil
corro o horizonte
que não vai além
de livros e papéis espalhados

teus olhos surgem/ fogem de mim
flores que eu queria em nenhum jarro
cato-os, migalhas sobre a mesa
coloco-os no papel
a luz acesa
enxergo tua boca
agora de frente
beijo a parede

tudo está fechado
portas e janelas
tenho as chaves
mas estou emparedado

a esperança bate
vou atender:
era engano;
volto a ler os anos

as imagens voltam como ondas
furiosas atrás de mim
perguntando-me de mim
rindo de mim
eu não digo nada
a esperança bate

tem dias em que não quero franzir a testa
por isso não penso nem vou ver o sol
cubro o espelho e deito-me

o vento anuncia teu perfume
abro a porta sorrateiramente
tu entras vestida de ilusão
ou sou eu que me iludo
dá no mesmo

a noite paira,
pairo sobre ela
sentado, remexendo papéis
minha vida é feita de papéis

a sorte um dia disse que vinha
todos esperaram na cidade
a esperança bate

minh’alma de sonhar-te anda perdida
e a esperança bate
florbelamente em meu peito

ser herói seria bom
tantas vidas
revistas, fitas coloridas
álbum de figuras...

hoje perdi as andorinhas
mas a esperança bate
amanhã chego cedo no portão
espero que uma delas pouse no muro
e me leve para ti.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


 

Homo mutans


não arranquem meus olhos, ainda
quero assistir à chacina diária
de mil crianças
quero ver meu deus espatifar-se
                      estupidamente
na esquina da minha fé absurda

não arranquem minha língua, ainda
quero insultar o amor
cidadela frágil de concreto e sangue
esperança dos meninos e das meninas
quero blasfemar boca ao vento
palavras de um amor obtuso
acendidas de paixão e ódio
(não de odes ou elegias)
- que me ouçam os desgraçados

não decepem minhas mãos, ainda
quero assassinar o sonho dos peões
                                e das putas
quero cavar a sepultura dos anjos
apertar os botões do caos e
brincar de destruir o mundo

não me castrem, ainda
quero estuprar as mães que reclamam
                               filhos perdidos
velhinhas surdas com suas velinhas surdas
                         em madrugadas surdas
e as loucas com seus sexos mal lavados

não arranquem meus olhos, ainda
não antes de me fazer pastor de bandidos
a pregar como um louco
nas avenidas de papel crepom

deixem-me rir um pouco
afastar estas moscas de minha língua
e deitar suavemente numa estrela alucinada
                                           meu degredo

não arranquem-me os olhos, ainda
quero abrir minha porta amanhã.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Gildemar Pontes


Prefácio pai d'égua

 

Nós, urbanóides viciados em técnica e moleza, engordamos nossos corpo e mente diante da TV e do computador. Tudo bem! Ficamos informados e não precisamos ir ao supermercado-capital para escolher a cor da lua. Na aldeia global o sinal de fumaça nos previne ou nos aniquila. Vimos estupefatos o 11 de setembro de transformar em pesadelo digital, vimos um menino iraniano de corpo e cabeça, e só, ceifado de pernas e braços pelas bombas estúpidas do inteligente Bush ou o contrário dá no mesmo. Agora vai para o reformatório sacrossanto do capitalismo em algum hospital livrar-se do pesadelo: vão lhe botar pernas novas, braços novos, pés e mãos novinhos e vão substituir sua memória e seu olhar por fotografias, aos poucos seu cérebro será substituído por um chip minúsculo e ele verterá lágrimas de óleo singer, até que um curto-circuito lhe mostre o mundo que perdeu. do horror ao estupor vamos arquivando nossas relações de amor e megabytes.

Sou do tipo urbanóide, litorâneo e escolarizado. Lei e escrevo para não morrer de tédio ou para deixar outros mundos de herança para minhas filhas. Mundos como os que pude ver e sentir na minha infância. Sorte minha meus pais terem nascido na Serra do Baturité, Mulungu, Catolé, Trapiá, Riacho do Meio et adjacências. E o vovô tinha uma moagem na Serras e uma fazendinha no Canindé, Caridadade, Camarão, lugares bem pertinho do paraíso. Pude com isso saber das coisas do mato, dos cheiros da autora, das cores que inverno deixa quando parte e não se sabe se volta tão cedo. Bois e cavalos, jegues e cachorros, gatos e galinhas, perus e bodes, leite mungido, pão de milho, panqueca, jerimum amassado ao leite, coalhada, canjica, arroz doce, pamonha, fubá, manga rosa, sapoti, siriguela, estia gosto de tudo isso na boca! Dizem que os velhos costumam esquecer o passado há-pouco e lembrar do passado remoto, na infância. Antecipei um dia desses a lembrança de velho. Escondi-me nas locas de pedra, espreitando passarinhos de baladeira estirada. Pei!, lá se foi uma rolinha. Corre, que a corre-campo vem aí doida por uma perna de menino. E nós, a primarada, afobada batendo o pé na bunda de tanto correr. A vovó gritava de longe «Chico, deixa de fazer medo a esses meninos!» Ela nem sabia que era de vera.

Tudo isso escorreu sobre mim quando li o prefácio de Soares Feitosa para o livro de Virgílio Maia. Eita prefácio pai d’égua! Aí lembrei do que disse um desses críticos enfastiados. Tem prefácio que é melhor do que a obra. Ora, um e outro são uma coisa só, senão o autor não pedia ao amigo que o apresentasse. E todos nós temos os nossos pares de prefácio e escolhemos os livros que queremos prefaciar. Aposto que o Virgílio Maia ficou feliz e o Soares ficou orgulhoso. Eu fiquei aqui com uma pontinha de inveja saudável, que se cura sem doer nem fazer mal, porque conheço os dois. Talentos, têm de sobra. E boa literatura é talento agregado a uma dosesinha de inspiração. Eita prefácio pai d’égua!        

 

 

 

 

 

 

11/07/2006