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Marco Polo Guimarães 

redacao@continentemulticultural.com.br 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), girl

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Blue


Com Eric Clapton, um branco,
aprendi um pouco de blue;
o toque mínimo da guitarra,
a busca de perfeição.
Aprendi que música não tem pressa
e o tempo
é uma coisa a ser tecida.

Com Robert Johnson, um preto,
aprendi um pouco de blue;
que música é outra maneira de dizer silêncio.
Aprendi que só valem a pena as palavras
que mudem a cor do dia.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Paisagem


Corvos num campo de trigo
medem a extensão do silêncio,
este silêncio que é vácuo,
este silêncio inimigo.

Voam com asas quebradas
sob um sol limpo de vidro,
num céu deserto de tudo,
dentro de um vento infinito.

Quem pode ver na paisagem,
nesta paisagem calada,
algo que cale o presságio?

Corvos num campo de vidro
(corvos num campo de neve),
neste silêncio há um tiro.
 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

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Maria Maia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Sem título


são esses meninos de rua
são esses gravetos grávidos
são esses dançarinos magros
são uns esqueletos ágeis
são estes tabiques frágeis
é o eco ecoando tarde
é a rua escoando merda
é a perna melada de sangue
é a lua escancarada a bala
 

 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Junot Silveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

O leitor, o escritor


enquanto a noite pinga
lentamente sua tinta
e o sol se despedaça
na funda mina da mente
navegas um mar repleto
de sangue e ar, mar completo
de dança e gesto, discreto
perfume e lâminas claras
secreto labirinto e franca
viagem na página branca
 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

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Ivan, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Pela manhã


Pela manhã os pássaros
vestem plumagens limpas.

O rio é um silêncio líquido. As árvores
foram lavadas com águas verdes.

Pela manhã o canto claro do galo
atravessa o túnel longo do sono.

Algo estala as sementes.
Algo como um aroma de frutas.
 

 

 

 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Luís Antonio Cajazeira Ramos

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Presença


tu eras tudo ao redor
o cão que passa em silêncio
a ave canora na gaiola
o céu puído de tanto sol
o domingo inteiro petrificado
 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Francisco Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

A anunciação, de Botticelli


O anjo tenta acalmá-la
de joelhos, menos por reverência
que para mostrar submissão;
mas ela foge, quase tropeçando,
está profundamente assustada
e o quadro em que o pintor a vê
é pequeno para ela.
Seu gesto também é cortês
como se dissesse: Muito obrigada,
é muita distinção, fico grata,
mas ser mãe de um Deus é demasiada responsabilidade.
O anjo insiste, insidioso, insinuante.
Apesar de todo o pânico,
ele sabe que ela vai conceder.
A firme árvore que se vê pela janela
e o rigoroso ladrilho vermelho que se estende pelo chão
confirmam a realidade
e o irrevogável transcurso dos fatos predeterminados.
 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Myriam Fraga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Litania


Lá vai a procissão do Santo Sangue
Velas roxas, seda roxa, roxas feridas de dor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor

Lá vai a procissão do Santo Sangue
Muita pedra, muita queda, muito perdão por favor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor

Sobe ladeira, desce ladeira, onde for
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Serpente de fé, emblema da dor
Do homem na terra caminhador

Lá vai a procissão do Santo Sangue
Bang bang de fogos, flores, palmas, cânticos de amor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor

Lá vai a procissão do Santo Sangue
Pelo mangue, pela praia, pela praça, pela rua, pela avenida
Pela vida
Lá vai a procissão com seu andor

Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor
 

 

 

 

Titian, Noli me tangere

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Dimas Macedo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

O Edifício (relatório)


o edifício
é uma casa sobre outra casa
embaixo de uma casa
ao lado de outra casa.
é uma colméia quadrada
um conglomerado
de caixas
estacionadas
entre as quais
corre um carro vertical.

o edifício é um fio
de prumo encerado.
o edifício
é um fóssil incrustado
numa atmosfera de metal.
é um foguete congelado
sem vôo sem
base nem meta.
uma vertigem virtual.
espinha dorsal do silêncio.

o edifício
é uma fita de aço
colada
nas costas de um céu
sem horizonte.
é um túnel em pé
esticado.
um poço
fora da terra
penetrando o ar parado.

cimento vidro alumínio
o edifício
é uma área
isolada
no espaço aéreo
demarcado
entre nuvens de minério.
agulha dilatada
apontado nada.
ilha sem mistério.
 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Cleópatra ante César

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Jorge Tufic

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Marco Polo


 

Duas paisagens


Esta cidade que se alarga
em leque azul de seda e laca,
em girassóis de ouro e brasa,
em ventanias desatadas;
esta cidade que se alarga
em mangue cinza e praia acesa,
em manga aberta sobre a mesa,
em moça aberta sobre a cama;
esta cidade que se expande
em praça, várzea e avenida,
em superfícies, cromo e vidro,
em rios de sombra em margens nítidas;
esta cidade que se dilata
em cores rubras quaisquer que sejam,
em flexíveis linhas de frutas,
em rijas tramas de sal e fibra;
esta cidade que se amplia
em rol de roupa branca corando,
em vila branca no horizonte,
em asa branca cortando a tarde;
esta cidade que se alaga
de sol, se espicha, se espreguiça,
se vira ativa, brinca e grita,
quando chove muda, fica muda;
esta cidade se limita;
a chuva a prende em barras finas
e instransponíveis, em barras michas
e frias; prisão que a descolore
toda; esta cidade na chuva
torna-se contrátil, ostra viva
fechada; pequena, cubículo,
o homem a habita aos pedaços
e por etapas, tateando cego,
temendo abismos, correndo riscos
na rua riscada de finitos;
esta cidade que empaca, fica
implástica, imóvel, impossível;
submersa, mantém o homem
entre paredes, galochas e capas
contido; se cessa, se cerra,
se cerca, se caça, se embaça
num dura cerração líquida
que a liquida, ínfima; caracol
sem saída; paralelepípedo
derretido; vento oleoso;
serpenteante serpente de pano
enlameado; em farrapos, a
cidade nem mais é; é só
uma caricatura anônima grafada a
carvão no muro de um terreno
baldio, onde ratazanas escondem
restos de sombras manchadas de giz.

 

 

 

 

Ana Cristina Souto

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Nei Duclós