Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Majela Colares

majelacolares@uol.com.br

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia: 


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna: 


Conto:


Alguma notícia do autor:

 

MAJELA COLARES, poeta e contista, (Limoeiro do Norte, Ceará,  julho de 1964). É graduado em Direito. Reside em Recife desde 1992, cidade onde deu inicio a sua trajetória literária. Publicou os seguintes livros: POESIA: Confissão de Dívida, 1993, Biblioteca o Curumim Sem Nome – Fortaleza; Outono de Pedra, 1994, Editora Giordano – São Paulo; O Soldador de Palavras, 1997, Ateliê Editorial – São Paulo; A Linha Extrema, 1999, Editora Calibán – Rio de Janeiro; Confissão de Dívida e Outros Poemas, 2001, Editora Calibán – Rio de Janeiro; O Silêncio no Aquário / Die Stille im Aquárium, 2004, edição bilíngüe português-alemão, tradução de Curt Meyer-Clason, Editora Calibán – Rio de Janeiro; Quadrante Lunar, 2005, Editora Calibán – Rio de Janeiro e As Cores do Tempo, 2007 1ª ed. – 2009 2ª ed.,Editora Calibán – Rio de Janeiro. CONTO: O Fantasma de Samoa, 2005, Editora Calibán – Rio de Janeiro. Tem participação em antologias publicadas no Brasil e no exterior. [2009]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Alcides Pinto

 

Aníbal Beça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

Apresentação de Soares Feitosa

Centro Cultural Oboé,

Fortaleza,

9.11.2007


 

 

Primeiro, apresento-lhes a mim mesmo, ausente daqui por vinte anos, Pernambuco e Cidade da Bahia. Sou o Francisco José, de Monsenhor Tabosa, sertões do Ceará, filho da parteira Anísia. No meio literário, sou o Soares Feitosa. Edito um site de literatura, o Jornal de Poesia, na internet. Para quem não conhece: é bastante movimentado. Basta clicar no google ou em qualquer buscador mundial, que lá estará o JP, e nele não sei quantos mil poetas; os daqui do Ceará, quase todos. Convido-os! Conheço o poeta Majela há uns dez anos, dos meus tempos de Recife, quando nos encontramos pela primeira vez na companhia do também cearense Cláudio Aguiar. Dali, uma amizade de muito mais.

Em segundo, apresento-lhes a terra de Majela, Limoeiro do Norte. Vejam, algumas cidades são mais premiadas que outras. Houve uma época em que o troféu de maior celeiro de poetas esteve com Lavras da Mangabeira. Os Martins: Cláudio, Fran, Antônio; Jorivar, Linhares Filho, Batista de Lima e Dimas Macedo, dentre muitos outros. Restam-nos, "viagens", o Linhares Filho, o Batista e o Dimas Macedo. Pois agora é a vez de Limoeiro do Norte. Os Maias: Luciano, Virgílio e Napoleão… falam que agora é "AcedeMaia", a nossa Academia Cearense de Letras, de tantos Maias que há por lá, que já foi assim no tempo dos Martins. Há muito mais poetas entre os Maias, do rio, todos primos, aqui está um deles, meu velho amigo, advogado Alencar Maia, que é do Piauí, mas é dos daqui, Maia, de Limoeiro. Disseram-me o Pedro Salgueiro e o Nilto Maciel, aqui presentes, terem passado um belo fim de semana em Limoeiro, de pura poesia, peixe e cerveja à beira-rio. De poetas, Limoeiro do Norte, o Majela, o Jorge Pieiro, a Arlene Holanda, o Tarsio Pinheiro e outros ribeirinhos (Jaguaribe) de adoção, a Eleuda Carvalho, o Webston Moura, o Francisco Carvalho, este logo ali de juntinho, Russas, vazante do mesmo rio. Estive em Limoeiro no início de minha vida profissional como auditor da receita federal, há coisa de uns 40 anos passados. Fiscalizei uma fábrica de refrigerantes que nem existe mais. Uma bela cidade a que espero retornar ao primeiro convite. Do Majela ou dos Maias.

O que faz uma cidade contagiar-se de poetas? Seria um galo-poeta tecendo uma manhã – vide João Cabral – e contagiando-os? Uma saudável emulação que lastreia o conhecimento humano? Quem sabe, o colégio, a escola, algum professor visionário que botou os meninos para ler e recitar poesia… A feira de cantadores, essas coisas tão nossas. O Luciano Maia trouxe o seu velho professor de latim, em Limoeiro, para a sua festa de posse na Academia. Muito importante descubra-se a receita, a espalhar poesia neste mundaréu tão carente, o nosso sertão. Rendas, bilros, artesanatos e, por que não? Jericoacoara e Poesia! Noitadas de Poesia! Lavras e Limoeiro, o exemplo.

Falo-lhes agora do poeta. O livro está um primor. A escritura, qualquer uma, prosa ou poesia, há de ter ritmo, algo a ver com as forças da Natureza… a respiração e suas pausas, tal como as notas da música de seus silêncios. Nisto, Majela Colares dá um show. A escrita, antes de qualquer coisa, sob pena de ser apenas um relato seco, há de se conter da musicalidade, que vai para além das rimas. Elegância? Sim, isto mesmo. Um ritmo sutil, um encadeamento da idéia/ sonoridade/ ritmo… a elegância do texto-palavra, o não-absoluto contra a vulgaridade. Majela Colares não faz concessões.

Vejamos, neste livro, o que dizem os críticos de poesia, e vou-me resumir a apenas um, bem rápido, um fragmento apenas, que o coquetel nos espera, de Marco Lucchesi: "Um fio tênue ligando sua aldeia com as demais aldeias do mundo, o processo da história em sua ação contínua e inarrestável, a simpatia do Cosmos e a fina teia de palavras e seus correspondentes sonoros. Vejo um fio que nos aproxima a todos, nas fontes abrâmicas. No céu de Agosto. Ou de Setembro. Esse fio de ouro parte do coração do poeta e o leva para todos os quadrantes. E nisto reside a força de seu canto e de seus passos. Sua maravilhosa invenção e descoberta. De um céu a outro. De um mundo entressonhado e visto. Pois sabe, afinal, que "o Céu vem dos céus - o mundo é pequeno / sublime é o canto, os gestos e o salmo”.

E, finalmente, cito-lhes eu (e abrindo o livro As Cores do Tempo a esmo, recitei em trom de onda alta, muito alta):

a chuva vem afagar

o sertão com água santa

afaga também os lábios

ressequidos, a garganta

um brilho reluz nos olhos

transbordantes de esperança

de ver o grão desolado

vingar no magro torrão.

 

Por favor, cumprimentemos o poeta!

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Foed Castro Chamma



Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil
Fortaleza, Ceará - Domingo 22 de julho de 2001
 


Confissões de Majela Colares
 

 

Do Poema Anônimo, na abertura de Confissão de Dívida e Outros Poemas, aos vários momentos da arte confessional que sobrevive desde o grego inventor da poesia lírica, Majela Colares inscreve em seuFoed Castro Chammas roteiro poemático um testemunho que bem define o que a História nem sempre recolhe da realidade individual, enquanto que a essência do Ser a linguagem poética não apenas captura como confirmam os frutos originários da negação do real através da simbólica mítica transformada em beleza e representação, como entendiam os gregos arcaicos por Belavoz (Calíope), segundo anotação de Jaa Torrano no estudo que faz à sua tradução da Teogonia de Hesíodo.

Sentir Recifense não é bem uma paródia ao poema Infância, de Manuel Bandeira, todavia Majela Colares o completa de modo desolado, onde se lê:
 

na rua sombras

fogem

com a confissão mais adiante de que o mar:

chora por esta cidade que agoniza
 

Pessimismo inesgotável apesar da evocação de Lucrécio e a lógica heraclítica sintetizada na teoria de que (panta rei) tudo flui; em direção (ouso emendar), platonicamente, à mãe Memória, onde o círculo se fecha e de cujo núcleo emerge o Mito, em torno do qual o autor inscreve a vitória de asas sobre Cronos. E se o poeta manipula essências é o Anjo de remota origem a ressurgir ao rito da vida qual imagem de um Deus. Há no poema Homo-Cosmos uma teologia implícita que Majela Colares, de modo natural, corrobora em Gene, como se fora uma engenharia desenvolvida a partir da química original de água e cal. Em Momento Zero, sinaliza o buraco negro dos vórtices do tempo. Em O Tempo Seguinte o poeta pressente mutações históricas determinadas pela ciência e o ressurgimento dos deuses numa alusão remota a uma ética necessária frente ao Caos preconizado pela teoria quântica. A urgência de uma consciência das coisas diante do deus ex Máquina e o Registro virtual exigem a retomada da arcaica Areté com o ressurgimento tardio dos aristói entre os homens.
 

se deste amor restar-me só saudade

saudade viverei por desventura

desventura do amor completamente
 

Há nos versos em epígrafe extraídos do Soneto do Esquecimento ressonância da clássica dicção poética de Sá de Miranda. A língua portuguesa é revivida em um clima brasileiro de sereno desespero. O poema Visionauta configura o delineamento de uma poesia votada ao pessimismo à Leopardi de um saber que não condiz com o projeto alquímico de O Soldador de Palavras. O naufrágio na areia, do navio denota retorno temporário iminente de quem arquiteta plano mítico de sobrevivência.

Filosofia, Burocracia, Sociologia servem a um Romance Sócio-Burocrata, de configuração irônica. Símil a uma imitação demolidora de utopias viscerais. O poema em homenagem ao centenário de Canudos reedita a saga imortalizada por Euclides da Cunha, decantada recentemente por Carlos Newton Júnior na trágica dimensão de uma epopéia latina a lembrar os 500 anos do Descobrimento do Brasil. De maneira a tornar-se evidente o delineamento barroco do movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna, ao qual a geografia de Canudos de Antônio Conselheiro, monarquista tardio, se inscreve. A Nau Capitânia reedita incorporando por outro lado ao pólo nordestino da estética nacional, o epocal a serviço de uma história que os poemas Futurismo Retrogrado, Muros e Cortinas e Filhos do sol denunciam no mesmo diapasão da paródia à qual a minipéia, a carnavalização, segundo o teórico russo Mikhail Bakhtine, se presta.

 Em Estrutura Plana e Zoeira, Colares denuncia a precária contingência ideológica a transparecer ironicamente em Verde Pelúcia, Ciclo Temporâneo, Torrentes de Abril, Canto Jaguaribe, Vento Geral Aracati e Jaguaribe. Tais poemas denotam consciência crítica de uma realidade que não condiz com os nossos recursos tecnológicos, a qual persisti em subjugar todo o povo como heróis ao sofrimento estigmatizados pelo dramático dom da poesia. Majela Colares não é apenas o burilador da geometria poética: seu estro campeia na verdade: o Sertão que ficou dentro de mim.

A energia do espírito criador, o domínio verbal de Majela Colares são marcos visíveis de uma arte poética que se depura generosamente e possui a marca de um campo de invenção subordinado ao Lógos.
 
 

Foed Castro Chamma

Poeta e ensaísta paranaense

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Majela Colares


Estudos & Catálogos - Mãos

 

Querido Soares,

 

Que surpresa por essa bela e tão originalíssima edição! Você de fato, inspira em mim sinceramente uma admiração por essa energia ou sinergia profunda que imprime a cada coisa que você faz e sonha.

Realmente, isso é raro em tempos escuros e estreitos como os nossos. Parabéns!

 

Um abraço amigo,

Majela Colares

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Fabio Lucas

 

 


 

OS DESLIMITES DE MAJELA COLARES

 

Perante o conjunto de poemas reunidos em A Linha Extrema de Majela Colares, fina tessitura de um vívido discurso lírico, o leitor haverá de ser convidado a refletir sobre duas concepções do fazer poético. Há os que rezam pela cartilha da espontaneidade da expressão e aqueles que sustentam ser a obra de arte o produto final da construção daFabio Lucas mente. No primeiro caso, o texto poético é suposto como veículo de uma paixão ou de sentimentos exorbitantes que buscam um processo de cura por intermédio das palavras. Nessa hipótese, a expressão-meio ora recolhe abundância ou extroversão do espírito, ora exprime denúncia compensatória de mutilações interiores. A ação verbal se diz impulsionada por estados de perturbação, pois o poeta entra em delírio, toma-se emocionalmente superexcitado. Os que contestam esse ponto de vista advertem que o que toma a obra de arte significativa é algo muito diferente da auto-expressão. A arte como inspiração e arrebatamento deve ser submetida à finalidade de transmitir emoções, sendo, portanto, um capítulo das técnicas de comunicação.

No segundo caso, tem-se a noção de que o homem se impõe à natureza, ao agregar ao mundo já existente uma construção nova, genuína, autêntica e original. Teríamos o homo additus naturae, ou seja, tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. O poeta, então, seria o fundador de uma linguagem. O foco, assim, se deslocaria do sujeito - o poeta possuído pela inspiração - para o objeto - o poema concretizado.

Com efeito, A Linha Extrema traz consigo o efeito de um esforço de criação meticulosamente realizado. A tradição nordestina habituou o leitor brasileiro a ter presente os cantadores que se apóiam no improviso, os repentistas, de legendária estirpe. Ou os cordelistas, operadores da tradição narrativa em versos. Mas Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto sejam lembrados para nos remeter a outra vertente nordestina, a daqueles que fazem do texto o fruto de rigorosa operação artesanal. Portanto, alinhados na corrente dos que postulam ser a obra o resultado extremo da arquitetura verbal.

Majela Colares nos oferece em A Linha Extrema um conjunto de trinta poemas estróficos, a observar a terça rima de Dante. Ou, para adotarmos um modelo mais nosso, todos se articulam como A última jornada de Machado de Assis (Americanas), a que não falta o verso final, isolado, em rima com o segundo verso do último terceto. Além disso, Majela Colares, com essa obra tão densa, ingressa no mesmo corpo de poetas brasileiros que procuraram reunir poemas sob a mesma orientação cósmica ou temática, como Jorge de Lima em Invenção de Orfeu, Cecília Meireles em Romanceiro da Inconfidência e Cassiano Ricardo em Jeremias sem chorar.

Em A Linha Extrema tudo é medido, rimado, estruturado. Trata-se de uma coroa de poemas à procura de uma unidade. Um périplo verbal cadenciado, cuja virtude maior consiste em ritmar os intervalos, a fim de enriquecer a magia das pausas.

Majela Colares sai-se bem desta prova. E persegue aquele suspirado desejo de Marianne Moore que, em entrevista, reclama não ser a poesia uma questão de melodias, mas de elevada consciência (cf. Poesia como criação, coordenação de Howard Nemerov, Rio, GRD, 1968, trad. de Marcos Santarrita, p. 24).

Que elevada consciência encontraremos em A Linha Extrema? É claro que o poema, na sua completa extensão, apresenta ao leitor conveniente modulação verbal, metrificado ritmo e o sugestivo apoio sonoro das rimas. Mas vai além. Seguindo uma tradição das melhores composições poéticas, desdobra-se em sutil indagação metafísica sobre a natureza do ser e uma implícita investigação da razão do poema, na linha da metalinguagem.

A declaração inicial do poema já prepara o leitor para o sentido da busca. As figuras se sucedem para povoar o discurso e não raras vezes acode à metáfora, a rainha de todas. Mas vejamos o objetivo atirado a esmo: para o tempo pintar e ser constante. Logo a seguir, o "eu poético" confessa que sonhava ver o tempo em um painel/ mas foi sonho somente, foi mutante, para, afinal, a circunstância do tempo ocorrer como fecho da primeira unidade: pintei de primavera aquele outono.

Não muito longe, adiante, se vislumbram dois termos de aguda projeção: a ratio e a morte, situações- limite que o poema explora com luz indireta: - A razão de  não ver além do além - / por si só a visão se faz medida / dos  presságios da morte que detém / os limites da voz quando calada.

A crise existencial vem a seguir, quando se tocam em caminhos de fuga e de medos / feito passos em  sombras esculpidos. Após uma cadeia de mitos, o poeta fala em algo mais que a voz destes, passo projetado no rito que se confunde nos versos que fez Dante.

Entra-se, então, na articulação discursiva, que o poeta denomina a abstrata  pureza – forma e tema - e também a noção do impossível rascunhado, para firmar-se no verso último, isolado: moldura de um poema desregrado.

Como é da natureza da coroa de poemas, o verso alimenta o significado do poema seguinte, que sugere que - a palavra se faz imagem pura e informa que transformou-se em visível escritura.

Quando atinamos com o valor das pausas, omitimos outra situação-limite para o rumor das palavras: o silêncio, tão bem explorado por Majela Colares. Eis o término de determinada unidade: o silêncio moído é dor, espasmo/ corte brusco na artéria mais sangrenta.

 

O poema, conforme vimos, além de refletir o peso da Antologia, na sua perplexidade em razão da existência, da possibilidade e da duração, articula-se em torno do poder construtor da palavra, ou simplesmente do drama em que esta mergulha para buscar significado, beleza e ilusão. Daí o princípio de um dos poemas encadeados:

 

Mera frase perdida em um volume

rabiscada no tempo transitório

são idéias dispersas - um cardume

 

de palavra  em busca do ilusório.

 

O término do poema traz consigo a dupla significação do texto se auto-processando na dificuldade, nos empecilhos, e reconhecendo a meta da linha extrema a que o poeta não pode se recusar, ainda que existente:  

 

a mão leve e vazia, mão sensata,

se recusa a escrever qualquer poema

– a mão sabe a razão da linha exata

 

mas não sabe a razão da linha extrema

rascunhada nos verso cometidos

esculpida nas bordas do fonema

 

densa linha de ocasos convergidos

 

Por fim, a instância última e seus derradeiros versos: a imperceptível vitória das contingências, ante a ambição de o poeta ultrapassar seus limites, realizar cores à Van Gogh e a plena figuração em primavera do poema outoniço. O projeto é tragado pela temporalidade existencial:

 

é que o tempo foi breve e reticente

quando as horas fugiam amarelas...

 

Por essa leitura de A Linha Extrema o leitor poderá investigar outros corredores da expressão do poeta, que nos apresenta um trabalho amadurecido, cravejado por vigilante jogo verbal: fino, denso, insólito e admirável.

 

 

Fábio Lucas é critico literário, ensaísta e conferencista mineiro, autor de vários livros de crítica literária e de ensaios.

 

 

Link para page de Fabio Lucas

 

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

Curt Meyer-Clason

 


 

 

O MUNDO É MÁGICO

 

 

Ao ler Quadrante Lunar, livro de poemas de Majela Colares, veio-me à mente uma palavra do meu mestre João Guimarães Rosa: “O mundo é mágico”. Isto, afirmo, graças aos bons espíritos da sua terra  –  seus poemas o confirmam –  em feliz contradição às generalizações do mundo factício, jornalístico da anêmica globalização. “O que vale é o trend!”.

Na poesia de Quadrante Lunar sinto-me elevado de um abismo qualquer a uma altura, transformando-me do sofredor ao gozador, empurrado por uma inspiração à outra revelação e sempre na segurança íntima, na convicção futurosa de que o mundo é um só, variável mas constante, fiel à sua gênese e à sua duração num futuro apenas sentido no íntimo, com a segurança da fé de anjos. E é isto que chego a saber, provando os versos de Majela Colares com os cinco sentidos do meu ser. Se eu quisesse encontrar na infinidade de suas imagens, resultado  –  exemplo: “o tempo desmaiado sobre a mesa”, renasceria no futuro desde já sondado das suas vivências progredientes, uma chave conclusiva, e eu poderia citar seu "momento eterno nas coisas eternamente evanescentes”.

E com isto, tomo a liberdade de terminar minhas palavras na tentativa de exprimir o meu sentimento de aderência ao mundo lírico-existencial, à sua firmeza e fidelidade ao Ser do nosso mundo e ao seu sentimento de identificação com o seu mundo pessoal em redor, tão visível em Quadrante Lunar.

 

Munique, 9 de outubro de 2002.

Curt Meyer-Clason é poeta, ensaísta e tradutor alemão.

  

In Quadrante Lunar, 2005

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27/9/2007